E o tal dedo podre?

Por que as mulheres continuam sendo culpadas pelos homens que a sociedade insiste em produzir?

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Engraçado como, na sociedade machista e patriarcal, os homens quase nunca têm culpa de nada.

Se eles traem, mentem, desaparecem, manipulam, prometem o que nunca pretendiam cumprir ou simplesmente atravessam a vida emocional de alguém como quem atravessa uma rua qualquer, a responsabilidade raramente parece ser deles.

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A culpa, curiosamente, quase sempre recai sobre a mulher.

“Você que escolheu mal.”
“Tem que saber escolher.”
“Seu dedo é podre.”

Quantas vezes já ouvimos isso?

E pior: quantas vezes já repetimos?

Eu mesma já disse, em algum momento, meio rindo, meio cansada:

— Acho que tenho dedo podre.

Mas será mesmo?

Será que o problema está no dedo que escolhe ou nas opções disponíveis?

Porque essa conversa parte de uma premissa curiosa: a de que existem muitos homens maduros, emocionalmente disponíveis, honestos e interessados em construir algo real, e que, misteriosamente, algumas mulheres simplesmente escolhem sempre os piores.

Como se fosse uma falha pessoal.
Uma deficiência de seleção.
Um erro de dedo.

Mas basta olhar ao redor com um pouco de honestidade para perceber que a questão talvez seja outra.

O que existe em abundância hoje são homens que foram socializados para desejar intimidade, mas não para sustentá-la.

Homens que querem companhia, mas não responsabilidade emocional.

Que gostam da ideia de relacionamento, mas não do fato de que ele precisa ser construído.

Foram ensinados a buscar prazer, validação, cuidado, admiração, mas raramente a oferecer o mesmo em troca.

E quando esse arranjo inevitavelmente desmorona, quando aparecem a traição, a mentira, a infidelidade, a preguiça afetiva, o desaparecimento estratégico ou a famosa ambiguidade emocional, a sociedade encontra rapidamente um culpado.

A mulher que escolheu.

Porque admitir o contrário seria desconfortável demais.

Então começam as justificativas.

“Ele fez isso, mas ela também era assim.”
“Ele traiu, mas ela também não era fácil.”
“Ele mentiu, mas ela provocava.”

Sempre existe um mas.

Sempre aparece uma explicação para suavizar a falha masculina.

E o mais curioso é que muitas vezes essas frases nem vêm de homens.

Quantas vezes eu já ouvi mulheres próximas a mim, amigas, conhecidas, gente da própria família, repetindo esse tipo de argumento, quase como se fosse automático.

Como se estivéssemos todas treinadas para encontrar alguma razão que torne o comportamento deles mais compreensível.
Mais perdoável.
Mais humano.

Enquanto o erro delas segue sendo tratado como escolha, imprudência ou ingenuidade.

A mulher que se relacionou com um mentiroso não encontrou um mentiroso.
Ela escolheu um mentiroso.

A mulher que foi traída não encontrou alguém infiel.
Ela escolheu um infiel.

A mulher que se envolveu com alguém emocionalmente indisponível não teve azar.
Ela tem “problema de escolha”.

É uma lógica tão confortável quanto cruel.

Porque apaga completamente o fato de que relações são encontros entre duas histórias, duas formações emocionais, duas responsabilidades.

E também ignora algo fundamental: muitas mulheres não estão procurando perfeição.

Estão procurando o básico.

Alguém com quem seja possível compartilhar a humanidade.
Conversar sem jogos.
Construir algo sem cálculo.
Dividir a vida sem disputa de poder.

Uma intimidade genuína.
Sem performance.
Sem interesses escondidos.
Sem que tudo vire uma negociação.

Uma construção conjunta e leal.

Parece pouco.

Mas tem se tornado raro.

Não porque as mulheres estejam escolhendo pior.

Mas porque muitos homens ainda foram ensinados que relacionamento é algo que gira em torno deles.

E enquanto essa lógica não muda, o tal “dedo podre” continua circulando por aí como uma piada meio triste — dessas que fazem as mulheres rirem de si mesmas enquanto carregam culpas que nunca foram realmente delas.

Acho que o problema nunca tenha sido o dedo. (sugestão: “nunca foi” ou “nunca tenha sido” – mantenho como está, mas a concordância ficaria melhor com “nunca foi” no indicativo, já que é uma afirmação).

Acho que é o pomar.

Um pomar que anda passando do verde ao podre rápido demais, pulando justamente a fase em que o fruto estaria maduro o suficiente para ser abocanhado.

E enquanto continuarmos chamando de “dedo podre” aquilo que na verdade é um problema de colheita, os frutos seguem apodrecendo no mesmo pomar. E a culpa? Adivinha? continua sendo colocada nas mãos de quem só tentou colher.

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

1 COMENTÁRIO

  1. De forma alguma é culpa das mulheres. Há homens que são bem competentes na arte da dissimulação. Se usassem este talento para serem homens melhores, o conceito de dedo podre sequer existiria,

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