Crítica: Suspender o Céu

A Poética do Desacelerar em “Suspender o Céu”
12 de Junho de 2026 | Farley José | Teatro Sonia Cabral

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Eu fui testemunhar a mais nova empreitada do artista Farley José, intitulada “Suspender o Céu”. Aqui, Farley, preferiu contar o tempo. E sem abrir a boca para soltar um único fonema (apenas ruídos de cansaços, positivos). Um cartaz suspenso na entrada já avisa: há um relato, uma experiência traumática que nos obriga a olhar. Daí para a frente, o que se vê é uma verdadeira aula de como redefinir o espaço e a biologia do corpo na cena contemporânea.

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Para os hiper conectados que não aguentam cinco minutos sem checar as notificações do celular, o espetáculo é um teste de resistência psicológica e uma ode ao silêncio. Entramos na sala e a peça já começou, sem aviso prévio ou sinal sonoro de praxe. Enquanto o público entrava na emoção de encontrar velhos amigos e escolher o melhor lugar, Farley já estava no palco, sendo a personificação da ampulheta, manejando as areias do tempo. Aí gerou um bafafá de todos se cutucando e apontando que o espetáculo já começou… (que “quebra” boa!).

No centro do palco, sacos de areia são jogados de forma bruta, insistente. Já ali eu senti, que era uma versão do peso do mundo que cai… enquanto o público procura seu assento.

Farley e as suas areias do tempo, carregavam um corpo exausto que se recusa a endurecer, uma luta, uma vitória. No começo eu vi ali o que dizem como uma ampulheta, mas um derramamento de areia, um derramamento de tempo. A areia do tempo. Ali as areias caíam e depois com o tecido (quase inifinito) vem cobrindo esse tempo. O tecido cobre o tempo e ele ali, o intérprete, era o autor do próprio tempo. Ele conduzia o tempo, o momento. Nossas expressões eram giradas de uma forma, nossos pesos, movidos, a cada movimento do corpo do intérprete, víamos expressões diferentes, como cansaços, como alegria, como tristeza, como singelos toques, que ele movia no começo e movia o tecido acima da areia do tempo. Então, por alguns fatores, eram muito bons, assim, era divino.

A iluminação do espetáculo merece um parágrafo que brilhe tanto quanto os refletores. Ela começa simples, mas, a partir da fricção e do conflito, vai se transformando. A luz parece simples, mas, ela segue durante o espetáculo, se transformando, somado ao som diegético cria um clima visceral, e ela muda lentamente, quase imperceptível, mesmo que mantendo os tons quentes, as variedades são incríveis, pois, dão texturas, compõem, o pano se torna areia e parece que a invasão de areia não tem fim. A luz somada a atuação, me faz perceber no espetáculo que estamos enfrentando o nosso deserto lentamente.  O designer de luz opera milagres sutis, promovendo alterações cromáticas tão lentas que parecem mimetizar a passagem de um dia inteiro em um deserto escaldante. Senti algumas vezes a iluminação de André Stefeson, se traduzia no próprio Mito da Caverna de Platão atualizado para os tempos de dopamina digital: A sombra projetada é forte e impactante e cada vez que ele se afasta, ela vai se tornando “grotesca”, mas trazendo um lado nosso obsessivo que é revelado sem percebermos. Pois parece que ele passou o dia todo naquele deserto e não sentiu.

A cenografia é dominada por um pano infinito que sufoca a área de atuação. Seria um teto caindo ou um mar de possibilidades? A sensação é de que o palco foi ampliado para além das paredes físicas do teatro. Quando o som diegético (aquele que parece nascer de dentro da própria cena e do atrito dos materiais) se junta à luz, a atmosfera se torna visceral. A invasão da areia não tem fim. Olhamos para Farley e percebemos que estamos enfrentando o nosso deserto particular, grão por grão. Se tudo o que é sólido se desmancha no ar, a areia de Farley é o oposto: é o resíduo pesado, o entulho daquilo que endureceu em nós para que pudéssemos sobreviver ao cotidiano.

Se é para ter pontos negativos eu diria que os sons acelerados dos cliques dos inúmeros fotógrafos atrapalharam um pouco, os silêncios da produção que até eram bons, mas isso atrapalha. Assim como no espetáculo, a vida precisa de respirar, precisa de tempo para pensar, a vida tem seu tempo. E a fotografia precisa respirar assim como a cena. O espetáculo é uma fotografia, mas, com certeza vai ficar gravado nas memórias, não há tanta necessidade de tantos cliques. Se a proposta do espetáculo é o silêncio, a desaceleração e a pausa, o barulho incessante dos cliques das câmeras dos fotógrafos da imprensa atrapalhou severamente a imersão. A vida e a cena precisam respirar. A ânsia de registrar digitalmente o momento acabou sabotando a própria essência da presença efêmera do teatro. Menos cliques, mais olhos atentos.

No palco, o intérprete executa uma movimentação intrigante: ele arrasta repetidamente a mão direita pelo chão, mas não com a palma, e sim com o lado de fora, o dorso. Esse gesto simples, quase ritualístico, cria uma fricção mecânica que altera a nossa percepção temporal. O tempo passa sem que ninguém caia. Ele transitava muito bem de um momento calmo para um momento mais agressivo. Logo em seguida, os movimentos ganham uma cadência repetitiva que remete diretamente às obrigações militarizadas impostas pela sociedade. É o corpo sendo adestrado a performar eficácia, a andar na linha, a produzir, a nossa busca incessante de corresponder ao desejo do Outro, vestindo a armadura que o mundo exige.

O grande trunfo da atuação de Farley é a capacidade de transitar entre a leveza absoluta e a brutalidade mais crua. A trilha sonora, que casa perfeitamente batidas pesadas com instrumentais melancólicos, dita o tom de urgência. As movimentações repetidas ao meu ver remetem às obrigações militarizadas impostas para a gente, colocando como devemos ser e agir, mesmo tentando fugir disso, a música nos retorna. Aliás, boas batidas casadas com o instrumental. Quanto mais o artista mexe no imenso tecido cênico (dobrando, batendo, amarrando), mais fumaça e areia sobem ao ar. Aquele pano, para mim, assumia mil formas na imaginação: vira um saco de lixo, um peso nas costas, uma expressão de agonia. São as diferentes máscaras e fardos que assumimos na engrenagem social.

No primeiro momento que ele tenta suspender o tempo, ou este céu, considerado como céu aqui no espetáculo, ele transcende, porque ele gira, ele parece ficar feliz em tentar suspender esse céu, apesar de não conseguir. Então, o céu dele cai, o mundo dele cai, ele vai ao chão, ele desabafa, mas tem que tentar se manter, manter o que a sociedade pede. Para ele manter, manter a rotina, manter a vida, é isso que a sociedade faz e ele tenta, tenta e tenta novamente suspender esse céu, mas é muito difícil, é muito forte, é muito pesado, as areias são pesadas, tem algo ali dentro dessas areias, que é difícil de carregar, difícil de manter, difícil de fazer.

De repente, a música muda e uma atmosfera de mistério toma conta do espaço. Uma corda suspensa é baixada lentamente do teto do teatro. Na ponta, um anzol gigante. Ou seria uma forca? Na verdade, trata-se de um gancho metálico que serve para suspender a trouxa de pano e areia. O momento simula uma cerimônia de “enforcamento” simbólico, onde os nossos próprios pesos interiores são erguidos. É a dupla função da palavra suspender: levantar o fardo para que ele saia das nossas costas e, ao mesmo tempo, paralisar (suspender) o fluxo contínuo da dor.

Aqui, não há espaço para a catarse passiva onde o público chora e vai para casa aliviado. A cena funciona como um dispositivo de distanciamento e reflexão pedagógica. O gancho e a “maquinaria” expõem a engrenagem do sofrimento moderno. É um convite explícito para questionar: o que estamos pendurando no teto da nossa mente para conseguir respirar no dia seguinte?

O Céu Desaba, mas a Dança Permanece. Na reta final da performance, intérprete tenta desesperadamente suspender o tempo, ou este céu metafórico de pressões sociais. Ele transcende a própria gravidade, gira pelo palco e exibe um vislumbre de felicidade genuína ao tentar manter o firmamento no lugar, mesmo sabendo que a tarefa é difícil. Obviamente, o céu cai. O mundo dele desaba e o corpo vai direto ao chão em um desabafo mudo de cansaço extremo.

Mas a engrenagem social não perdoa. O sistema exige a rotina, a sobrevivência, a manutenção das aparências. Ele se levanta e tenta de novo. E de novo. As areias são pesadas, há um trauma físico e psicológico ali (uma menção direta à frase do banner: “Depois da pancada na cabeça, meu corpo nunca mais foi o mesmo“). Trata-se de um ensaio sobre a resiliência humana que evita a romantização barata.

No fim, a música instrumental continua a ecoar, mas as luzes se apagam por completo. Resta a escuridão, resta um respiro, uma calmaria, um remédio contra a ansiedade. O teto do teatro volta a ser o nosso céu real, pesado e cheio, escuro, mas, calmo.

Eu posso falar tranquilamente que de alguns espetáculos que vi nos últimos tempo, esse foi uma excelente união entre a iluminação mutável, a sonoplastia visceral e a interpretação física de Farley. Elementos que isolados funcionariam bem, mas juntos se transformam em uma força devastadora. Farley faz gestos num tempo delicado, ele sabe bem transitar seus movimentos entre a leveza e o brusco, a intensidade e a calmaria, numa emoção física e sonora que evoca sentimentos e impacta, o controle respiratório do ator, que usa a própria expiração para ditar os momentos de silêncio e pausa na plateia, são elementos que prendem, e mostram que a produção tem seu controle temporal. E com isso, eu digo parabens para toda a equipe que produz o espetáculo e auxilia de alguma forma.

“Suspender o Céu” não é um registro artístico sobre o adoecimento coletivo da nossa era de alta performance. Corremos tanto atrás do tempo que esquecemos como habitar o instante. O espetáculo funciona como essa ampulheta virada ao contrário: derrama a areia do tempo diante de nós, cobrimos a areia com o nosso céu, para que possamos, finalmente, desacelerar, relaxar, soltar os ombros, descansar as pernas e lembrar que ainda temos um corpo quente que pulsa debaixo de tanta couraça protetora. Uma obra extraordinária e necessária para limpar as vistas e a alma.

Um espetáculo extraordinário, sem nenhuma palavra, somente nos gestos, gestos que o intérprete conseguiu muito bem, fazer de uma forma clara, suave e tranquila. A suspensão não é a negação da queda, mas a coragem de negociar com o peso do mundo enquanto o teto não desaba por completo sobre as nossas cabeças.

 

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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