Se existisse um termômetro capaz de medir o grau de machismo, a gente andaria por aí bem mais segura. Bastava apontar o aparelhinho pro sujeito e ler no visor: baixo risco, atenção, corra. Mas como isso não existe, fomos obrigadas a desenvolver métodos alternativos pra identificar se um homem é muito machista, pouco machista ou apenas um machista em fase de convivência social rs.
Pra mim, um dos testes mais eficientes é simples, barato e revelador: dar uma carona pra ele. Você dirige. Ele vai no banco do carona. Só isso.
A partir daí, o termômetro começa a funcionar. Tem o tipo que, em dois quarteirões, incorpora o instrutor da autoescola que ninguém chamou. Explica marcha, comenta velocidade, vigia retrovisor. Às vezes nem é agressivo, é só aquele “deixa eu te ajudar” sustentado pela certeza de que uma mulher precisa ser guiada, mesmo quando está guiando.
Tem também o que freia com o pé invisível toda vez que acha que você deveria frear. O corpo enrijece, a mão se agarra no banco, o suspiro sai alto. Ele não confia no seu tempo, nem no seu reflexo, nem na sua leitura do mundo. Confia apenas na própria ansiedade, convenientemente disfarçada de cuidado.
O auge do teste costuma ser a baliza. Se você não pediu ajuda e ele começa a dar instruções, o termômetro já acusa febre alta. Se aponta, gesticula, suspira ou levanta a voz, o diagnóstico é claro: crise aguda. Agora, se ele fica em silêncio, respeita seu espaço e, no máximo, pergunta “quer ajuda?”, ponto pra ele. Temperatura estável. Raro, mas possível.
Essa teoria eu confirmei na prática um dia indo para um curso que frequentava de preparação para concurso. Cheguei cedo, antes da liberação das salas, e a frente do prédio estava tomada por gente na calçada.
Procurei vaga. Só tinha uma. Entre dois carros, bem em frente ao portão central. A vaga impossível. A vaga que, quando uma mulher liga a seta, vira espetáculo.
Liguei a seta.
Em segundos, formou-se uma roda de homens. Eles olharam, comentaram, riram baixo. Alguns cruzaram os braços. Outros se inclinaram pra frente. Apostavam, sem pudor, se eu conseguiria ou não.
Mal sabiam eles que estavam diante da Rainha da Baliza, título concedido por uma prima querida, que sempre amou me ver fazer baliza.
Uma tentativa. Ré, volante, ajuste fino. Parei.
Desliguei o carro, abri a porta e desci. O silêncio foi imediato. Aquele silêncio constrangedor que acontece quando o preconceito perde a aposta. Até que um deles, tentando recolher os cacos da própria certeza, comentou:
— Poxa… você faz baliza melhor do que eu.
Olhei pra ele e respondi, genuinamente intrigada:
— Oi?
— Por que eu faria pior do que você?
Peguei meu material e segui pro curso, deixando para trás uma pequena assembleia masculina recalculando não só a vaga, mas o próprio termômetro interno.
Porque, no fundo, nunca foi sobre dirigir. É sobre controle. Sobre a dificuldade de alguns homens em ocupar um lugar que não seja o de comando. O banco do carona, pra certos machos, é um território hostil: ali eles não mandam, não decidem, não conduzem, e isso os desorganiza profundamente.
Existe um estigma antigo, persistente e confortável de que mulher não sabe dirigir. Como se habilidade tivesse gênero. Como se coordenação, atenção e noção espacial fossem dons distribuídos por sexo no nascimento.
Dito isso, recomendo fortemente: deem carrinhos às suas meninas. Incentivem que elas dirijam carros de brinquedo, de controle remoto, carros de verdade. Ensinem que volante não é concessão, é direito. Que elas podem errar, aprender, insistir.
Mas, sobretudo, ensinem que elas devem dirigir o controle das próprias vidas. Que escolham o caminho, façam a curva, acelerem quando quiserem e freiem quando for necessário. Que não aceitem um carona ansioso dando ordens que ninguém pediu.
E fica aqui uma dica honesta pros primeiros encontros, dessas que economizam tempo, energia e terapia: se disponha a ir dirigindo e dê uma carona pra ele. Em poucos minutos, sem grandes discursos, você mede o grau de machismo, controle e respeito. Às vezes, um trajeto curto poupa meses de envolvimento mal investido. Porque é sempre melhor descobrir o problema no banco do carona do que só perceber quando você já está envolvida demais pra sair sem prejuízo.






