Aqui no sítio, não vejo a passagem das horas marcadas. As refeições não seguem o ronco da barriga, porque as horas aqui não são iguais. Não se perde o tempo de plantar e de colher. As plantas pedem água em seu período certo, e isso exige atenção, não um relógio. Não tem hora. Tem tempo.
Esse tempo precioso é o que tenho buscado: viver sem calendário, sem ponteiros, apenas no momento exato que a gente aprende a sentir e a entender. Verdade, não sei que dia é hoje. E isso é libertador.

Para quem já viveu refém de uma agenda cheia de compromissos, reuniões inúteis e olhos grudados no celular, não saber tem um valor imenso. Perdi reuniões de trabalho, consultas, prazos, e ninguém sentiu minha falta. Penso que não fiz falta alguma. Da minha ausência, colho uma paz sublime. Ausento-me até de mim mesma, e essa ausência me mostra o quão pequena sou diante de tudo, mas também o quão livre posso ser.

Quero continuar assim: sumida, esquecida. Há uma beleza em não ser lembrada, uma paz que a mente encontra quando não precisa se situar em calendários. Porque o calendário nos aprisiona, assim como os ponteiros. Eles contam os segundos, mas não medem a vida.
Para quê servem as horas? Não defendo a desorganização, mas acredito que as horas devem ser contadas para a espera de algo bom: a xícara de café que está prestes a ser servida, o cheirinho da pizza saindo do forno, o vinho que mergulha na taça. Essas, sim, são horas que merecem ser guardadas, como moedas preciosas no cofrinho do coração.

Que eu tenha sabedoria para discernir cada instante. E que, quando uma hora chegar, ela se transforme num tempo que realmente valha a pena ser vivido. No fim, é tão bom não saber que dia é hoje, e nem que horas são.







