Fascismo Religioso: Direitos civis em risco

Tenho uma preocupação crescente com o nosso destino e com o futuro da humanidade. Não é uma apreensão nova, mas ela se agravou nos últimos anos. Não falo apenas de catástrofes naturais, pandemias ou dos outros acontecimentos que dão a este século uma estética distópica. Minha maior preocupação é ver um número robusto de pessoas negando a ciência e os climatologistas, usando lendas e crendices religiosas para justificar o caos, em vez de responsabilizar o consumismo e a exploração do sistema capitalista pelo estágio avançado de degradação ambiental e pelo caos social crescente. É mais cômodo recorrer a um ou dois versículos bíblicos para se isentar de uma responsabilidade coletiva do que assumir o esforço individual de mudar os rumos deste sistema e lutar por uma realidade mais justa e um meio ambiente equilibrado para nós e para as próximas gerações.

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Convém a milhares de líderes religiosos dizer que as catástrofes são punições de Deus pelos nossos pecados. O mesmo argumento é usado desde quando o homem ainda desenhava nas paredes de cavernas e mal dominava o fogo.

Um furacão no sul do Brasil vira prenúncio da volta de Jesus, assim como uma seca prolongada era motivo para religiões antigas oferecerem sacrifícios humanos para acalmar a ira dos deuses. Uma pandemia como a de covid é tratada como sinal da volta de Jesus, ou como prova de que Deus está irritado com os direitos conquistados pelas mulheres e com o direito mínimo que pessoas LGBT+ hoje têm de não serem mortas em praça pública, como ocorria há poucas décadas e ainda ocorre em pelo menos 60 países.

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Estamos em 2026 e ainda precisamos suportar discursos idênticos aos da Idade Média.

Em apenas uma década, vimos um avanço assustador do fundamentalismo cristão e um endurecimento ainda maior das teocracias islâmicas. No mundo todo, o extremismo religioso precede a violência verbal e física, e avança sobretudo na região mais vulnerável e árida do continente africano, o Sahel. Ali, radicais evangélicos e islâmicos disputam espaço para doutrinar, dominar e explorar populações mergulhadas na pobreza material e na falta de acesso à informação. Pessoas sem acesso à ciência, à saúde e ao ensino formal tornam-se presas fáceis.

O conhecimento liberta. Não é por acaso que o Brasil, país que avançou de forma extraordinária no fortalecimento do Estado democrático de Direito desde a Constituição de 1988, vem desde então enfrentando sucessivas tentativas de golpe, espionagens promovidas por potências do Norte global e ataques às instituições públicas, especialmente àquelas que garantem o acesso ao ensino, à informação, à saúde da mulher e à saúde da comunidade LGBT+.

Sócrates defendia que toda violência e todo extremismo, ou seja, todo o mal, vêm da ignorância e da ausência de conhecimento. Sabendo disso, vertentes religiosas radicais buscam países empobrecidos, nações que ainda não se recuperaram da colonização recente e continuam servindo como fonte de recursos para abastecer as grandes potências com minérios e riquezas naturais.

Esses lugares são alvos fáceis. Alguns abrigam democracias jovens; outros nem chegaram a estruturar um sistema que possa ser chamado de democrático. Em proporção também considerável, a América Latina e a Ásia seguem um caminho preocupante: a cada eleição, países desses continentes elegem líderes extremistas de perfil narcisista, cujos discursos costumam ser vazios de ciência e ricos em apelo emocional, manipulação e falsidade.

Para entender o que acontece hoje, é preciso voltar a 1975, quando os jovens Loren Cunningham e Bill Bright alegaram ter tido uma “visão divina” e criaram seitas fundamentalistas com o mesmo propósito: estabelecer o domínio religioso cristão sobre os sete pilares que sustentam as sociedades: governo (política e justiça), economia (negócios e finanças), educação, mídia (comunicação e jornalismo), artes e entretenimento (lazer e cultura), família e religião (igreja). Sem qualquer base científica ou factual, uma suposta revelação individual deu origem a uma teologia perigosa, que hoje mina democracias, espalha ódio e promove intolerância ao redor do globo. Muitos cristãos tradicionais chamam isso de “fascismo cristão” ou “heresia dominionista”; seus adeptos chamam de “Teologia dos Sete Montes”.

Os seguidores desses jovens fundamentalistas se multiplicaram e, até a década de 1990, atuavam com menor visibilidade pública. Ainda assim, mentes atentas como a de Leonel Brizola já alertavam naquela época sobre o risco da instrumentalização da fé. À frente de seu tempo, Rubem Alves denunciou que parte do protestantismo brasileiro abandonou sua vocação educacional e libertadora para adotar um fundamentalismo repressivo, dogmático e alienante.

Neste século, apesar do avanço das vertentes evangélicas mais radicais, também observamos conquistas importantes em direitos civis e liberdades individuais. No Brasil, avançamos com leis de combate ao racismo e com a equiparação da homofobia a esse crime. A união civil entre pessoas LGBT+ foi reconhecida e, na década de 1990, a gestão de José Serra na Saúde criou um programa exemplar de prevenção e tratamento de ISTs/HIV, além de fundar a Anvisa. Foi uma gestão que priorizou a ciência, tornou medicamentos acessíveis e fortaleceu as estruturas democráticas do país.

Cito o caso de José Serra para evidenciar os retrocessos que o extremismo religioso tem causado no país nos últimos anos, período em que políticas públicas voltadas a garantias reprodutivas e à comunidade LGBT+ têm sido atacadas com veemência por uma bancada evangélica reacionária que cresce a cada eleição. Os direitos civis conquistados com muito custo estão sob risco constante, e nossa democracia está ameaçada por um fascismo cristão que busca implantar teocracias em Estados democráticos.

Segundo relatório da Freedom House, há duas décadas 46% da população mundial vivia em países considerados livres; hoje esse número caiu para 21%. Dados do Instituto V-Dem indicam que 72% da população mundial, mais de 5 bilhões de pessoas, vive sob regimes autocráticos, o nível mais alto desde a década de 1970. A Anistia Internacional e a Human Rights Watch alertam para o aumento do uso de armas letais e força desproporcional contra manifestações populares em pelo menos 50 países. Lutar por direitos civis tornou-se um risco real à integridade física.

Um caso recente e marcante ocorreu durante uma Parada do Orgulho LGBT+ em Berlim, onde um homem adepto do islamismo radical atacou participantes, matou uma mulher de 65 anos e deixou 29 pessoas gravemente feridas, em um ato motivado por homofobia.

Vimos também homens fundando academias e “cursos” baseados em pseudociência, exclusivos para “homens”. Vimos mulheres se posicionando contra o voto feminino e pessoas usando redes sociais para destilar machismo, racismo e homofobia com a naturalidade de quem toma um café às três da tarde na casa da avó. Há pouco, uma médica do SAMU se referiu a uma brasileira ferida em um acidente de trânsito como “negrinha endemoniada” e negou atendimento à mulher por ela praticar candomblé, alegando que o acidente era “resultado” de sua fé. Foi um crime flagrante de racismo e de negação de socorro, sem indícios até agora de sanção exemplar.

Além dos casos de violência física e simbólica que se acumulam, a ONU Mulheres e o PNUD avaliaram que 9 em cada 10 pessoas nutrem algum tipo de preconceito contra as mulheres, como acreditar que homens lideram melhor ou que mulheres não são tão inteligentes. São crenças sem base científica, fundamentadas em interpretações dogmáticas de livros religiosos como a Bíblia e o Corão e em livros de autoajuda e pseudociências disfarçadas de “psicanálise” que ensinam aberrações como “cura gay” e reforçam textos distantes de qualquer consenso científico para reduzir negros, mulheres e pessoas LGBT+ a lugares de inferioridade e desumanização.

A comunidade LGBT+ alcançou alguns avanços nas últimas décadas, mas os poucos direitos conquistados estão sob grave ameaça. O relatório Ipsos LGBT+ Pride Survey apontou queda expressiva na aprovação e aceitação global da união civil entre pessoas do mesmo sexo, impulsionada por um discurso homofóbico de cunho religioso cada vez mais agressivo, praticado sobretudo por seitas fundamentalistas baseadas na Teologia dos Sete Montes, uma corrente fascista disfarçada de teologia.

Apesar de os dados mostrarem o avanço do radicalismo religioso e a pregação da eliminação do divergente, é fundamental frisar que a luta por direitos civis e o fortalecimento das democracias continuam contrapondo e limitando esses retrocessos contra mulheres, população LGBT+, povos originários e pessoas negras.

O Brasil ainda é um país de maioria católica e, apesar das posturas reacionárias presentes nessa instituição, ela e as religiões protestantes tradicionais não compactuam, formalmente, com a vertente dos Sete Montes. Embora as religiões tradicionais também estejam sob ameaça desse comportamento reacionário, elas ainda conseguem se manter minimamente democráticas e restritas aos seus espaços de culto.

A liberdade religiosa em risco no Brasil, portanto, não é apenas a do candomblé e da umbanda, mas a dos próprios cristãos tradicionais, que vêm perdendo fiéis para seitas de discurso radical baseadas no cristofascismo.

Nestas eleições, é hora de separar religião e Estado, prestar atenção em quem está escalando os espaços de poder e avaliar com cuidado o histórico dos nossos candidatos.

Resistimos ao 8 de janeiro e mostramos ao mundo que nossa democracia é forte, que no Brasil atual golpistas não vingam. Mas até quando? Vamos abrir a boca e conscientizar as pessoas, ou vamos ficar calados esperando que o fascismo religioso nos engula?

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Fabrício Costa
Fabrício Costa
Geógrafo e mestre pela UFES, Fabrício é o coração d'A Oca, no Centro de Vitória. Entre mapas e afetos, trocou o rigor técnico pela potência da arte e gastronomia. Bruxo, poeta e múltiplo, faz do seu território um espaço de acolhida, resistência e evolução constante.

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