Nunca vi anúncio de “curso para pegar mulher”. Não tem workshop de final de semana ensinando homem a ser interessante sem precisar diminuir ninguém. Não tem imersão intensiva sobre como ouvir, como dividir tarefa doméstica, como sustentar uma conversa sem transformar tudo em palestra.
Mas curso para pegar homem… ah, isso tem.
Tem mentoria, tem método, tem PDF com “os 7 passos para se tornar uma mulher de valor”. Valor para quem? Para a bolsa de valores afetiva masculina?
De um lado, os red pills, tardios de The Matrix que entenderam tudo errado, ensinando que mulher boa é a que não incomoda, não envelhece, não engorda, não tem passado, mas tem currículo doméstico e libido sob demanda. Eles vendem o sonho da submissão gourmetizada: seja leve, seja grata, seja rara, mas, sobretudo, seja silenciosa.
E como se não bastasse, surgem também os Legendários, com seus rituais de resgate da masculinidade e discursos sobre liderança e ordem natural. Falam em honra, em posição, em papel. Traduzindo: existe um lugar certo para o homem, e, claro, um lugar certo para a mulher. E geralmente não é o de protagonismo.
Do outro lado, os esquerdomachos performáticos, que citam Simone de Beauvoir no bar, defendem o fim do patriarcado no Twitter e, na prática, oferecem um pacote premium de desapego emocional. O discurso é não-monogâmico, desconstruído, fluido. A responsabilidade afetiva? Essa ficou presa em alguma assembleia de DCE nos anos 2000.
E tem o mantra moderno: “não crie expectativa”.
Como se expectativa fosse um erro de principiante. Criar expectativa é inerente ao ser humano. É assim que a gente constrói vínculo, aceita convite, se permite sentir. Expectativa não é prisão, é sinal de envolvimento. O que chamam de maturidade muitas vezes é só medo de corresponder.
Curioso como, nas duas margens do rio, a correnteza puxa para o mesmo lugar: nós.
Com os red pills e os Legendários, precisamos caber na moldura da mulher ideal. Com os esquerdomachos, precisamos ser evoluídas o suficiente para não desejar exclusividade, presença, constância.
Nos dois casos, há regras. E a regra é clara: adapte-se! Nos dois casos, somos nós que estudamos para a prova.
Ser progressista não significa aceitar migalha gourmetizada. Ser tradicional não deveria significar abdicar da própria autonomia. E ser livre não é aceitar descompromisso travestido de teoria.
Talvez o curso que realmente assustasse o sistema fosse outro: “Como ser homem sem precisar controlar, manipular, nem fugir”. Mas esse não tem turma aberta e talvez não venda tanto.
O que mais me intriga é que sempre há um método para nos ensinar a agradar, mas raramente há um movimento para ensiná-los a amadurecer. A autonomia feminina nunca foi o produto principal. Somos o público-alvo e, ao mesmo tempo, a mercadoria.
E talvez a maior rebeldia hoje não seja aprender a “prender” um homem. Seja simplesmente parar de aceitar que amar exige diploma emitido por eles e se recusar a jogar um jogo cujas regras nunca fomos nós que escrevemos.







