Beleza livre de crueldade

A princípio, iria falar apenas de um caso sobre “cruelty-free” (livre de crueldade), mas eventos recentes me fizeram pensar que para alcançarmos uma beleza livre de crueldade vai muito além de um rótulo e soluções simples.

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Vamos aos fatos. Há uma polêmica antiga sobre a declaração de Xuxa Meneghel: “[…] para poupar os animais, a utilização de presos como ‘cobaias’ para experimentos de remédios e vacinas”. O Globo até satirizou em uma das manchetes que, além de “Rainha dos animais”, dizia: “Xuxa, o que vale mais? Um macaquinho ou um preso?”

Para além de todo o circo que foi feito em cima da polêmica, o debate sobre cobaias, seja de cosméticos, remédios ou vacinas, ainda é controverso. Há quem prefira produtos que vêm com aquele rótulo “cruelty-free”, mas e se tivéssemos um rótulo confirmando que o produto foi testado em pessoas em cárcere? Você usaria?

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Que a sociedade brasileira é punitivista não é novidade para ninguém. Faz parte da estrutura socioeconômica que vivemos cobrar punições cada vez mais severas, mas é claro que a punição tem seu preço e quem pode pagar se livra dela.

Estamos em um ano eleitoral, então esse debate espinhoso não será pautado por nenhum candidato(a). Ainda mais com o avanço do lobby de privatização de presídios e a pressão para aprovação do fim da escala 6×1.

Mas é importante lembrar que, se falamos de “dignidade humana”, ela deve valer tanto para o fim da escala 6×1 quanto para os presídios. Aproveitando a epígrafe do artigo “Privatização de prisões, modelo made in USA”, do Outras Mídias: “A prisão se tornou um buraco negro no qual são depositados os detritos do capitalismo contemporâneo” (Angela Davis).

Voltando ao cruelty-free. Qual seria a diferença entre testarmos produtos e vacinas em animais ou em humanos sem consentimento? A lógica cruel é a mesma. Ambas são sem consentimento e podem ter, e geralmente têm, efeitos colaterais.

A “desumanização” no que se diz sobre testes e cobaias vale para a beleza em si. Lembra da estrutura socioeconômica? Pois bem, essa estrutura também molda como enxergamos pessoas bonitas ou feias, presidiários e animais. Humaniza uns mais que outros e coloca aqueles que não nos agradam sob escrutínio público.

Um exemplo disso é a polêmica recente da magreza extrema. Manchetes como a do Globo (“Hollyweird”: entenda por que a magreza extrema volta a preocupar em Hollywood) ou da BBC (“A magreza extrema está de volta à moda?”) surfam em uma pauta que não é só sobre saúde, mas também estética, logo sobre um “ideal de beleza”. A pergunta que ninguém faz nesses jornais é: o que há por trás da exigência sobre os corpos femininos?

Uma das celebridades que mais tem polêmicas sobre esse assunto é Ariana Grande. E isso tomou as redes e jornais. “Ariana Grande desperta preocupações com magreza extrema em novo clipe”, publicou a Revista Monet, ou “Doença da fama: ‘encolhimento’ de Ariana Grande, morte de Rob Reiner”, publicado pela Veja. Sobre essa da Veja, cito a linha fina, já que a manchete diz pouco: “A interminável lista de celebridades com graves problemas ou levadas pela droga agora tem um duplo homicídio chocante e as vítimas do ‘efeito Ozempic’”. O escrutínio passou a relacionar mortes por overdose, até suicídios, com a magreza extrema e outros distúrbios alimentares. É incrível a quantidade de pitaco sobre o corpo alheio, ainda mais se esse corpo for feminino.

E escolhi falar de Ariana Grande porque, mesmo ela dando entrevistas e tendo desabafado, por exemplo à CNN, dizendo “Saúde pode parecer diferente”, na declaração a palavra “autoestima” aparece em destaque. A matéria já te diz o que você deve pensar: é questão de autoestima. Adivinha o que falta? A pergunta que ninguém faz: o que há por trás da exigência sobre os corpos femininos?

A beleza, seja no corpo ou nos produtos, nunca pode ser livre de crueldade enquanto vivermos em uma estrutura que diz quem é bonito ou feio, quem pode ou não pode ser cobaia. Não é novidade que essa estrutura socioeconômica é capitalista, logo exploratória (seja de animais ou presidiários), patriarcal e machista. Então, se você não é um “padrão” (homem branco heteronormativo, de preferência da classe dominante – leia-se burguesia), você vai passar por exigências inalcançáveis.

Também não é à toa que a “autoestima” do homem branco hétero é delirante: a estrutura faz com que seja assim, além de, claro, adoecer profundamente as masculinidades e o que é, ou deveria ser, “ser homem”.

Enfim, não tem como existir uma beleza sem crueldade se ela nasce de uma estrutura mofada. Você já tentou cultivar qualquer planta com uma terra mofada? Talvez nasçam fungos. O mofo em si pode até não ser letal, mas geralmente os fungos são. A analogia serve para a estrutura capitalista: é um mofo, pode não ser letal diretamente, mas o que nasce dessa estrutura definitivamente é letal. A crueldade na beleza é só a parte leve; a letalidade está no aumento de feminicídios e na cultura de ódio – seja ódio contra mulheres, contra LGBTs, basicamente ódio ao que não é “padrão”.

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Letícia Cristina
Letícia Cristina
Letícia Cristina é bibliotecária, empreendedora, costureira e amante dos cuidados capilares.

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