O mistério da Copa: o valor de estar junto

Na Copa, surge um tempo de esperança. Cidadãos e cidades se consagram, sem qualquer ordem prévia, à realização de uma atividade pública: assistir e festejar o futebol brasileiro e a Seleção, algo comum a todos e que parece merecer tal deferência.

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A cidade floresce em alegria; os bares lotam e as ruas dos bairros se enchem de grupos e aglomerações. Em todo lugar, até nas roupas e nos presídios, manifesta-se um sinal verde-amarelo: uma expressão de expectativas que emerge mesmo quando a torcida está tomada pela desconfiança e pela pouca crença na vitória, sem abrir mão, contudo, de estarmos juntos. Eis o grande motivo para comemorar.

Podemos perder a cabeça. Podemos até discutir ou brigar por causa de um jogo, de um técnico ou de uma decisão da arbitragem. E, muitas vezes, o fazemos, porque o futebol, assim como o samba, pode ser gentrificado ou ter suas desigualdades e dimensões empresariais aprofundadas, sufocando suas dimensões poéticas e morais, bem como suas habilidades e potencialidades.

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Ainda assim, permanece como um esporte público, atravessado pelo encontro entre indivíduos. Essa dimensão coletiva revela também aspectos de transparência, prestação de contas e conhecimento público. Trata-se de uma das poucas atividades sociais humanas amplamente fiscalizadas e monitoradas pela coletividade.

Não há como escapar à avaliação do público que, mesmo quando não é ouvido, continua a reclamar e a participar. Pois, ainda que não seja sócio majoritário nem presidente de uma confederação, o torcedor se vê — cada vez menos, é verdade — como dono do tempo, do clube e até dos jogadores: assim fala o coração do fã.

A Copa nos oferece esse pequeno ensinamento: é possível que um país, uma região, um estado ou diversos municípios se mobilizem, voluntariamente e em grande número, para acompanhar e homenagear a Seleção Brasileira. Por que, então, não caminhamos com a mesma disposição em direção ao enfrentamento da violência, da impunidade, da injustiça e da corrupção?

Está tudo em nossas mãos, em nossos bairros e quarteirões; está em nossa capacidade de construir vínculos e em nossa vontade de estarmos juntos em torno de paixões, valores e sentimentos compartilhados. Afinal, é no encontro coletivo que reside o desejo de conquistar, transformar e cuidar do mundo que dividimos.

Mais do que um espetáculo esportivo, a Copa revela algo que frequentemente esquecemos em nosso cotidiano fragmentado: a força da convivência pública. Durante alguns dias, diferenças políticas, sociais, econômicas e culturais parecem ceder espaço a uma experiência comum.

Compartilha-se a expectativa, a angústia, a alegria e a frustração. O que está em jogo não é apenas o resultado de uma partida, mas a possibilidade de reconhecer que continuamos capazes de construir sentimentos coletivos e horizontes compartilhados.

Talvez resida aí o verdadeiro mistério da Copa. Não se trata apenas da paixão pelo futebol ou da esperança na conquista de mais um título. Trata-se da demonstração concreta de que os seres humanos necessitam do encontro, da cooperação e da experiência de pertencimento. Em uma época marcada pelo individualismo, pela polarização e pela mercantilização crescente da vida social, a Copa recorda que nenhuma comunidade se sustenta apenas por interesses privados. As sociedades dependem da capacidade de seus membros de produzirem laços, significados e responsabilidades mútuas.

Se conseguimos nos reunir para torcer, cantar, sofrer e celebrar juntos, também podemos encontrar caminhos para enfrentar os grandes desafios coletivos que atravessam a vida brasileira. A violência, a desigualdade, a exclusão social, a degradação ambiental e a corrupção não serão superadas por soluções individuais ou pelo isolamento atrás de muros físicos e simbólicos.

Elas exigem aquilo que a Copa, ainda que momentaneamente, torna visível: a disposição de compartilhar destinos, reconhecer interdependências e agir coletivamente em defesa da vida comum.

Talvez o maior ensinamento da Copa não esteja nos gramados, mas na lembrança de que continuamos precisando uns dos outros para construir uma sociedade mais justa, democrática e humana. Afinal, nenhuma vitória verdadeiramente duradoura é conquistada sozinha.

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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