Desligar Para Encontrar Novas Perspectivas e Significado na Vida

Pense em uma manhã de sábado em que não se verifica o celular. Sem notificações, sem acessar o feed enquanto o café esfria, sem responder a mensagens antes mesmo de lavar o rosto. Para Jackie de Botton, cofundadora e diretora criativa da The School of Life Brasil, essa vivência se tornou um verdadeiro luxo.

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Foi a partir dessa inquietude que surgiu o Desliga Social Club. A partir de agosto, a The School of Life Brasil promoverá uma série de quatro encontros presenciais na sede da instituição, na Vila Madalena, em São Paulo, em colaboração com a Vida Simples. Durante três horas, os celulares permanecem desligados. Ao invés das telas, são priorizadas conversas, jogos, dinâmicas e atividades que são conduzidas por facilitadores. O objetivo é proporcionar um ambiente onde ninguém recorra ao celular sempre que haja um intervalo, um silêncio ou um momento de desconforto.

Internet não é mais apenas uma ferramenta

Jackie descreve a transformação causada pela internet de forma direta. A promessa inicial era válida: conectar pessoas, encurtar distâncias e aumentar o acesso à informação. Em parte, isso se concretizou.

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“Em segundos, consigo me comunicar com minha família em Londres, algo que, há uma geração, exigia paciência e cartas.”

O desafio, segundo ela, começou quando a internet deixou de ser uma simples ferramenta.

“Em algum momento, sem aviso prévio, a ferramenta tornou-se o próprio ambiente. Deixou de ser algo que utilizamos para se transformar em um espaço onde vivemos. Nunca estivemos tão conectados com tantas pessoas e, ao mesmo tempo, tão distantes de quem está ao nosso lado. Prometeram nos unir, mas paradoxalmente, conseguiram nos isolar, cada um em sua própria bolha.”

Quando o celular passa a ocupar qualquer intervalo do dia, também altera a maneira como lidamos com o tédio, a ansiedade e os momentos de espera. Em vez de ser um recurso acessado quando necessário, ele se torna o local para onde a atenção se direciona quase automaticamente.

Por que dependemos do celular

Jackie afirma que a dificuldade em deixar o celular de lado costuma ser interpretada de maneira equivocada.

“A dificuldade em se desconectar do celular diz menos sobre o que buscamos e mais sobre o que não conseguimos enfrentar. O celular raramente é o destino. Ele serve como uma fuga. A gente pega o telefone não porque ele tenha algo magnífico a nos oferecer naquele momento, mas porque surge um silêncio, um tédio, uma ansiedade, uma conversa complicada, um sentimento desconfortável que preferimos evitar enfrentar diretamente.”

Nessa lógica, o tédio deixa de ser um problema em si. Ele se apresenta como um sinal de que algo precisa de atenção, enquanto o celular oferece uma solução rápida sem solucionar a raiz do incômodo. “A tela é o adiamento perfeito. Ela nos resgata, por alguns segundos agradáveis, do esforço de estarmos atentos aos nossos sentimentos. O problema é que esses segundos se transformam em horas, e o sentimento permanece ali, intocado, aguardando educadamente nosso retorno.

A competição pela nossa atenção

Jackie evita abordar o uso excessivo do celular como uma questão de falta de disciplina.

“O celular foi projetado, e não se trata de uma metáfora, é literal, para fragmentar nossa atenção em partes cada vez menores, distribuídas de forma imprevisível, exatamente como uma máquina caça-níqueis. É o mesmo princípio de recompensa variável: nunca sabemos se o próximo toque na tela trará algo positivo, e é essa incerteza, não o conteúdo em si, que nos mantém presos. O tédio não é um defeito nosso. É um sinal, um alerta emocional de que não conseguimos nos engajar com algo que realmente nos importa. O problema é que, atualmente, respondemos a esse sinal utilizando a ferramenta que mais fragmenta nossa capacidade de atenção.”

Segundo ela, esse tipo de uso condiciona o cérebro a mudar de foco constantemente. Quando surge uma atividade que exige continuidade, como ler um livro, tocar um instrumento, bordar ou simplesmente conversar sem interrupções, manter-se focado passa a exigir um esforço maior.

É precisamente esse tipo de experiência que o Desliga Social Club busca promover. As atividades foram elaboradas para que os participantes permaneçam na mesma experiência tempo suficiente para se envolverem com ela, sem a possibilidade de recorrer ao celular em momentos de distração.

Uma das críticas de Jackie é à crença de que bastaria força de vontade para mudar a relação com as telas. Aplicativos que controlam o tempo de uso, metas de desconexão ou regras pessoais podem ser úteis, mas partem da premissa de que o problema depende exclusivamente da decisão individual.

“Não estamos lidando com um hábito que surgiu por acaso na nossa geração, como quem adquire um sotaque. Estamos enfrentando o resultado de bilhões de dólares investidos, intencionalmente, para tornar a dificuldade em largar o celular a maior possível. É como pedir para alguém vencer sozinho, com o simples bom senso, um adversário que contratou os melhores neurocientistas do mundo para garantir que não o fizesse.”

Para ela, a dificuldade em se desconectar não pode ser vista apenas como uma falha pessoal. Há um ambiente criado para capturar e reter a atenção das pessoas, o que torna essa disputa desigual desde o início.

Um convite para estar presente

A proposta parte de uma observação simples. O que é difícil realizar sozinho pode se tornar mais acessível quando existe um espaço planejado para isso, com outras pessoas vivenciando a mesma experiência e atividades que ajudam a manter a atenção.

“Nós apreciamos nossos celulares. Contudo, ao mesmo tempo, eles nos exasperam. Desligá-los seria maravilhoso, mas quase ninguém consegue fazer isso sozinho. Eu, inclusive, não estava conseguindo. Foi então que pensei: temos esse espaço maravilhoso, que é a casa da The School of Life Brasil, temos um repertório rico de dinâmicas e ideias construídas ao longo de muitos anos. Por que não usar tudo isso para criar o lugar que eu mesma buscava e não encontrava?

A programação inicia em 15 de agosto com o encontro Cuidado: Adultos Brincando, conduzido pela própria Jackie. Os outros três encontros ocorrerão em setembro, outubro e novembro, abordando temas como felicidade prática, a vida fora das telas e emoções em jogo. Cada edição tem duração de três horas, das 9h às 12h, na sede da The School of Life Brasil, na Vila Madalena, em São Paulo.

“O Desliga Social Club é a minha forma de protesto. Um contra-ataque, bem-humorado e um tanto teimoso, contra a ideia de que a única forma de estarmos juntos é através de uma tela.”

O que se revela longe das telas

Quando o celular deixa de controlar todos os momentos do dia, outras experiências insurgem. As conversas se aprofundam, o silêncio não é mais um incômodo constante e até o tédio pode desvendar questões que antes eram interrompidas pela próxima notificação.

“Não se trata de condenar o celular. É sobre recordar ao corpo e à mente que existe uma maneira diferente de estar no mundo, e que essa forma, se não for praticada, se atrofia.”

Jackie enfatiza que o objetivo não é transformar ninguém em alguém capaz de abandonar o celular de imediato. A ideia é criar oportunidades para exercitar habilidades que foram perdendo espaço na rotina, como dedicar tempo a uma atividade sem automaticamente recorrer à tela.

Três horas podem não alterar de forma definitiva a relação de uma pessoa com a tecnologia, mas são suficientes para vivenciar outro ritmo e perceber que existem diversas formas de ocupar o tempo, fortalecer vínculos e estar presente.

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Redação
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