A saúde mental e a polarização política ideológica

“A psicanálise é a doutrina do homem ‘particular’ que se defende contra a invasão da esfera ‘pública’; a preocupação pela esfera ‘pública’ se dá por motivações conscientemente ‘particulares’.” – Freud.

“A política é sinônimo de corrupção, seja num estado liberal, conservador ou autoritário. Corrompe o ser, o EU e faz da liberdade uma metáfora que só tem existência no ser quando entendida com o equilíbrio harmonioso da metapsicologia entre o EGO, o SUPEREGO e o ID.” – Freud, Mal-estar da Civilização.

“O ‘ethos’ político consciente tem como base o inconsciente.” – Freud.

Somos afetados emocionalmente numa subjetividade irritante de internalização e externalização de conflitos ambivalentes diante da descarga dos discursos e dialéticas politizadas e ideológicas apresentadas diante de um pleito eleitoral.

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A polarização política causa danos marcantes e purulentos nos relacionamentos do EU-EU, EU-TU e EU-NÓS, contribuindo exacerbadamente para a angústia do “Mal-estar de Existir” e das neuroses.

Como olhar psicanaliticamente e psicoterapeuticamente para o embate político polarizado que nos empurra para lados antagônicos? Quais são os desafios que o embate político-partidário ideológico traz à saúde psíquica do ser, enquanto ser individual e ser social?

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A polarização político-partidária desperta uma agressividade “inata” e inconsciente, mas autêntica e espontânea, vinculada às pulsões de vida e de morte.

Para Freud, a sociedade política corresponde ao desejo irracional e incontrolável de restaurar a autoridade. Por isso, ao escrever “A Psicologia da Massa e a Análise do EU” (1921), faz uma análise comportamental contemporânea da “HORDA” que supõe um chefe, um hipnotizado, um hipnotizador, o amor, uma relação objetal, a massa e um “líder” que é igual e, ao mesmo tempo, diferente de seus subordinados. Na “HORDA”, esse “líder” atua como “centro” para organizar e premiar o ser que procura sentido. Ele é sedutor, apartado de seus subordinados, e, ao mesmo tempo, um evitador – pois teme que seus subordinados (seguidores) o abandonem.

Para Freud, este “líder” tem o conteúdo manifesto e latente do Pai Perseguidor, Tirano, Primitivo, Opressivo, Ritualístico, Castrador, Severo, Exigente, Disciplinador e, às vezes, Perseguido.

Portanto, toda atividade política é cercada, sem distinção, pelo simbólico e imaginário do peso da autoridade sufocante, castradora e recalcada.

O nosso comportamento público, o privado e o político-social marcaram os conteúdos manifestos e latentes apresentados ao longo do complexo desenvolvimento da nossa personalidade na construção e constituição do nosso EU. Dessa forma, a nossa debilidade, credulidade e passividade apresentadas nas massas são acompanhadas pela aquisição de poder pelos “líderes” políticos de nossas vidas, que prometeram conveniências, gozos, zonas de conforto e satisfações de desejos. Assim, o ser torna-se incapaz de esforço contínuo de um trabalho regular e planejado (não preciso me esforçar para comer picanha ou qualquer outra iguaria saborosa).

Quais são os desafios que o embate político-partidário e ideológico traz à saúde psíquica do ser, enquanto ser individual e ser social?

  1. O desafio de ser neste tempo, na vida. Existir neste tempo, no mundo. Estar neste tempo, no tempo controlado e oportunizado.

  2. O desafio de ser assertivo, individual, protagonista e singular como ator ou atriz principal de sua história, reconhecendo o outro com seu próprio trato e traço.

  3. O desafio da ética subjetiva com objetividade comportamental para fazer escolhas. Somos responsáveis pelo caos psíquico que há em nós. Somos responsáveis por nossa aventura de autodescobrimento e mergulhos dentro de nós mesmos.

  4. O desafio de sentir e perceber, representar e memorizar, conceituar e estabelecer juízo nas probabilidades, oportunidades e possibilidades da vida para reconstrução, ressignificação e redimensionamento do seu lugar – ou melhor, ambiente – na sociedade em que vive, enquanto agente em transformação e transformador dela.

  5. O desafio de praticar a responsabilidade com perícia e prudência para com aqueles com quem você bem vive e convive, compartilhando a sua existência.

  6. O desafio do ser humano como fonte de independência, liberdade, interdependência e maturidade, com iniciativa e criatividade para a superação da veneração exagerada ante o homem público (real ou ideal, a figura do pai) e a capacidade de ressignificação da recorrência (do passado remoto e recente, das memórias afetivas ou presentificadas) em relação a este “homem público”.

  7. O desafio do desejo referente ao querer, precisar, poder e conseguir encarar e superar o ESTADO que se identifica como massa de manobras ou um ídolo que esmaga intensa e despoticamente a consciência individual.

  8. O desafio de assegurar e manter a categoria da liberdade do discurso e da unidade dos pontos de vista (individuais, singulares e assertivos).

Diante deste quadro grotesco, dantesco e desafiador, o que fazer?

  1. ENTENDER…

    a. Que existe uma inter-relação entre o indivíduo e o sociológico. Se o indivíduo não pode ser explicado sem o grupo, este, por sua vez, não pode existir sem aquele.

    b. Que a sociedade exerce um poderoso e severo controle sobre os impulsos humanos. Desde cedo, sentimos o peso da castração através da autoridade paterna e dos adultos em geral.

  2. A subjetividade humana tem aspectos que são universais, que aparecem na vivência humana pertencentes a qualquer cultura, etnia e filosofia política.

  3. Portanto, é possível ressignificar (dar novos sentidos) a experiência da polarização política ideológica (mesmo entre o ideal e o real), sendo quem é no tempo, no espaço, na filosofia e na ideologia.

PARA PENSAR E TURBINAR A MENTE:

  1. Para que haja diálogo entre a saúde mental e a polarização político-ideológica, deve-se considerar que o interesse social e político tem como base o EU-individual.

  2. A saúde mental e a polarização político-ideológica devem estar inseridas na tradição liberal/conservadora da defesa do indivíduo enquanto ser, num constante vir a ser.

  3. Ambas devem procurar defender o sujeito que “é onde não pensa e pensa onde não é” na sua submissão inevitável aos preceitos sociais e do Estado, como tendo uma função mediadora entre o conflito individual e a coerção social, analisando esta no momento em que coíbe aquele outro.

  4. A saúde mental, em seus processos de melhora subjetiva, cura e restauração, é “cética” em relação a todas as “ideologias”, abstraindo-se de todas elas – menos da que tange à vida psíquica pessoal do ser.

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Sidnei Vicente
Sidnei Vicente
Carioca, cientista da religião e filósofo dedicado ao estudo das dimensões existenciais da vida. Psicanalista, investiga as complexidades da mente e da subjetividade humana. Especialista em comportamento emocional e compreensão das relações entre razão, fé, emoção e comportamento.

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