A expansão das soluções generativas de Inteligência Artificial (IA) gerou impactos negativos visíveis no mercado de tecnologia voltado ao consumidor final, alterando desde os preços até a disponibilidade de certos itens, especialmente memória RAM e armazenamento, além de tudo que depende desses componentes.
Conforme destacamos aqui no Meio Bit, até mesmo produtos e serviços não diretamente relacionados estão se tornando mais caros ou com qualidade inferior devido à escassez de componentes e ao aumento dos valores. A Nokia e a Ericsson confirmam essa tendência com um alerta: por causa dos reajustes nos preços de equipamentos de infraestrutura para operadoras de telefonia, os consumidores finais acabarão arcando com o ônus.
Mesmo aqueles que não utilizam soluções generativas ou se recusam a consumir qualquer coisa relacionada ao setor serão impactados pela IA de alguma forma.
Inteligência Artificial vai encarecer tudo, absolutamente tudo
O primeiro sinal veio da Ericsson, uma das empresas responsáveis pela expansão global da rede 5G, que depende de componentes especializados, especialmente chips de 3 nanômetros ou menos fabricados pela TSMC. O problema é que a empresa taiwanesa está priorizando seus clientes mais abastados, direcionando a maior parte da produção para a Nvidia (como era esperado) e a Apple. Empresas como AMD e Intel recebem volumes bem menores, enquanto as demais permanecem em uma fila de espera por tempo indefinido. Sem surpresa, a Ericsson foi colocada nessa lista de espera.
A situação é complicada para todos, desde fabricantes de bens de consumo até companhias que fornecem equipamentos de infraestrutura. Se você não é uma aceleradora de IA ou não vende iPhones, receberá o tratamento de “sem chips para você”. Allison Kirkby, CEO do BT Group (antiga British Telecom), alertou sobre algo que muitos já vinham dizendo há tempos:
Smartphones ficarão mais caros porque o pouco estoque de RAM e memória Flash que os fabricantes conseguem adquirir, quando conseguem, custa muito mais do que antes. Conforme a regra do mercado, esses custos são repassados adiante até chegar ao elo mais frágil da cadeia, o consumidor final.
No entanto, o alerta da Ericsson revela uma verdade desconfortável adicional: a infraestrutura também ficará mais cara de implementar em todos os setores. Estamos em um período de transição para os padrões Wi-Fi 6 e 7, e a implementação da rede 6G, especialmente projetada para atender à demanda de IA em conexões móveis, deveria estar sendo acelerada. Porém, com aceleradoras e servidores consumindo todos os chips de memória disponíveis, os freios foram acionados com força.
Se a infraestrutura de redes ficar mais cara, a tendência é que os serviços de telefonia, incluindo planos móveis e de internet de alta velocidade (como fibra óptica), sigam o mesmo caminho. Per Narvinger, chefe do setor de negócios de redes móveis da Ericsson, foi direto ao ponto:
“A IA está impulsionando a demanda geral por semicondutores (…). Nós (a Ericsson) estamos observando uma demanda altíssima por alguns desses componentes, e isso também eleva os preços para nós.”
A TSMC é uma das várias empresas que estão lucrando significativamente com o boom da IA.
Narvinger também observa que a indústria de IA e os fabricantes de dispositivos móveis estão competindo pela capacidade de produção das empresas de semicondutores (como a TSMC) e de chips de memória (Samsung, SK Hynix e Micron). Os clientes com orçamentos mais limitados estão sendo deixados de lado, pois os fabricantes concentram toda a atenção em quem pagará mais. Atualmente, essas são Nvidia, OpenAI, Anthropic e companhias, e até mesmo a Apple enfrentou dificuldades antes de garantir seu espaço.
Outro executivo que alertou sobre a situação foi o CEO da Nokia, Justin Hotard. Durante a apresentação do relatório fiscal do primeiro trimestre de 2026, ele destacou que, assim como ocorreu durante a pandemia da Covid, o boom da IA provocará um aumento na demanda por componentes e uma inevitável elevação dos preços. A empresa finlandesa opera, além do 5G, com redes ópticas (não confundir com a HMD Global, que licencia a marca para smartphones) e outros equipamentos de infraestrutura.
O grande problema do impacto da IA na infraestrutura de redes é que, se esses equipamentos ficam mais caros para as operadoras e elas repassam os custos na forma de planos de telefonia e internet mais caros ou com menos benefícios (menos opções de velocidade, ausência de assinaturas gratuitas acessórias, franquia de dados, entre outros), isso se aplica a quase todos os setores da sociedade, dada a nossa dependência de RAM e memória Flash.
Se ficar mais caro expandir uma rede, montar uma solução de distribuição de produtos e serviços, o que pode envolver abastecimento (alimentos), transporte, saúde (pública e privada), educação, plataformas de streaming (filmes, séries, música, jogos) e até serviços básicos (água e eletricidade), o custo será repassado ao consumidor final, resultando em produtos e serviços mais caros e de pior qualidade.
Isso já ocorre de forma isolada, mas perceptível. Nos Estados Unidos, por exemplo, várias cidades reajustaram severamente o valor da conta de luz para todos os consumidores, devido ao aumento do consumo energético por datacenters de IA, atuais e previstos, que sequer foram construídos ainda.
Existe solução? Não. A IA é a Caixa de Pandora; uma vez aberta, não há como voltar atrás.
Nenhuma empresa absorverá prejuízos, e alguém sempre terá que pagar a conta. Por mais que a IA traga facilidades em alguns cenários, não é possível ignorar o custo de sua implementação, especialmente porque ele será muito, muito alto.






