Crítica: Pormenor Ausência

A imortalidade custa caro: Uma Análise Crítica de “Pormenor Ausência”
Texto de 29 de Maio de 2026 | No Aldeia SESC Ilha do Mel

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O terceiro sinal do teatro é quase um veredicto cênico, mas, como sempre digo, acredito que o espetáculo começa antes disso. Imagine a cena: as luzes começam a piscar, o público se ajeita nas poltronas e, de repente, um sujeito de terno elegante e gravata borboleta surge caminhando calmamente pelo corredor central. Detalhe: ele está comendo pipoca. Sem pedir licença e quebrando a barreira invisível que separa a realidade da ficção, Giuseppe Oristânio assume o palco antes mesmo que a plateia consiga desligar o celular. Esse preâmbulo descontraído é o cartão de visitas de Pormenor de Ausência, monólogo que mergulha de cabeça e alma nos últimos anos de vida de um dos titãs da nossa literatura: João Guimarães Rosa.

Em cena, o que se vê é uma mesa burocrática, uma máquina de datilografar que parece respirar poeira e histórias, livros empilhados, um telefone antigo e, no canto, uma cadeira de balanço que convida à memória. Oristânio não entra dizendo “olá, eu sou um escritor”, mas suas ações, a precisão cirúrgica com que manuseia as palavras e a empolgação quase febril de quem persegue fantasmas no papel fazem o público compreender o ofício daquele homem imediatamente.

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A peça flerta com uma ironia trágica de que passamos a vida tentando acumular “coisas” e reconhecimento para, no fim, guardarmos tudo em uma caixa menor. No caso de Guimarães Rosa, a busca obsessiva era por uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL). Nesse ponto, Pormenor de Ausência se mostrar ser um híbrido de teatro documental e ensaio poético, dissolvendo com muita habilidade as fronteiras entre a biografia fria e a fabulação artística, utilizando histórias reais, e trechos aparente ficcionais (mas, que poderiam ser reais). A sacada genial aqui é colocar Guimarães Rosa como o narrador de sua própria história depois de morto, conversando com o público “de coração aberto”, livre das amarras do protocolo diplomático que exerceu em vida. O espetáculo cria uma ponte direta com a tradição do monólogo fluido de Grande Sertão: Veredas (1956), onde Riobaldo narra suas memórias a um interlocutor silencioso. No teatro, o interlocutor silencioso somos nós.

Foto: Pormenor Ausência by Daniel Bones

Quando Oristânio usa o proscênio para dialogar diretamente com as pessoas, ele atualiza esse conceito. Ele não quer que o público apenas assista a uma biografia; ele quer estabelecer uma conversa olho a olho. E a atuação de Oristânio é um assombro de carisma que torna o dialeto rosiano compreensível até para quem nunca abriu o Grande Sertão, que é uma leitura complexa (inclusive, para falar a verdade, eu ainda não consegui terminar de ler). Mesmo com um texto de algumas palavras enfadonhas, é dinâmica e o ator se movimenta muito, e, consegue transitar entre a genialidade do diplomata e escritor e as vulnerabilidades do homem comum, conquistando a empatia da plateia com uma mistura de humor fino e emoção. Como ele mesmo disse em cena: “O santo bateu.” O ator soube ter carisma e contar uma história sem se preocupar se entendiam ou não.

O personagem Guimarães Rosa é animado, empolgante, e mesmo que não conheça pessoalmente Guimarães, somente sua literatura, o ator me fez acreditar que era o próprio Guimarães Rosa contando uma história de vida.

Durante o espetáculo, o protagonista desfila nomes que formam o verdadeiro olimpo da cultura nacional: Adonias Filho, Barbosa Lima Sobrinho, Ferreira Gullar, Afonso Arinos de Melo Franco, Manuel Bandeira, entre outros. Eles surgem como colegas de linguística, parceiros de angústias e jantares enfumaçados.

Em termos de análise técnica e estética, a direção toma uma decisão corajosa que pode dividir opiniões, mas que se sustenta perfeitamente na prática: o foco absoluto na palavra e no trabalho do ator. Não há projeções tecnológicas em alta definição, cenários giratórios ou truques de mágica cênica. É o minimalismo puro. A iluminação desenha os estados de espírito de Rosa; transita entre a luz âmbar e quente da recordação das Minas Gerais e o foco frio e expressionista que denota a iminência do infarto fulminante e a fragilidade de sua saúde nos últimos anos de vida.

Os pontos positivos dessa escolha são evidentes: a valorização da rica sonoridade da linguagem rosiana e a chance de ver um ator em estado de graça dominar o espaço apenas com a modulação de sua voz e a precisão de seus gestos. As roupas chiques (terno para mim, é isso) do personagem contrastam com a sua vulnerabilidade interna, criando uma imagem visual potente. É um espetáculo que exige um pacto de atenção que muitos não estão dispostos a pagar, mas, sentar-se para ouvir a sonoridade de uma frase bem construída é quase um ato de rebeldia estética.

Embora a encenação seja intimista e focada em uma figura histórica específica, o espetáculo dialoga sutilmente com os pensamentos que como os artistas se comportam quando precisam fazer sua arte. Uma das falas do espetáculo me tocou profundamente, acredito ser uma ode a artistas: o vício e o sofrimento da revisão. Rosa expressa o gosto pelo escrever, mas aponta a tortura das “revisões”. Eu tenho gosto por escrever, mas às vezes por limitações eu preciso reduzir, cortar, diminuir, e revisar, e de tanto que reviso, outras coisas aparecem; então reviso novamente várias vezes. Não sei até quando vou escrever, mas, vou tentar ser sempre assim.

Foto: Pormenor Ausência by Daniel Bones

A obsessão de Rosa pela farda da Academia e pela cadeira de imortal nada mais é do que a tentativa desesperada de fixar uma âncora sólida em um mundo que ele já percebia como transitório e fugaz. Ele queria o respeito duradouro, algo que vencesse a liquidez do tempo. Na peça, Rosa revela uma angústia antes de sua posse: mesmo recebendo a visita do Presidente da República, nada o animava. No momento culminante de receber a honra pela qual tanto lutou, ele foi tomado pelo sentimento de não ser merecedor, uma manifestação clássica do conflito entre o “Eu Ideal” e a realidade crua do sujeito fragmentado. Acredito que como eu, muitos artistas pensam assim também.

Ele busca a imortalidade, mas que imortalidade é essa?

No geral, um artista, para colocar o bloco da arte na rua, precisa abrir mão de três de algumas coisas. Para escrever o “Grande Sertão de Veredas”, ele teve de abrir mão de fumar. Pelo bem da arte algumas coisas temos de abrir mão.

Ai me faz pensar sobre qual o papel do crítico? Como posso criticar se tem algo que não vejo? Porque um escritor constrói pontes entre aquilo que existe e aquilo que poderia existir, não está preso aos fatos, mas à verdade humana. Uma história pode ser fictícia e ainda assim revelar muito sobre uma sociedade. Já um jornalista tem a responsabilidade de registrar o presente enquanto ele acontece, lutando contra o esquecimento coletivo, sua matéria prima é o fato. Já o crítico teatral ocupa uma posição onde a função não é apenas dizer se algo é bom ou ruim. Eu aprendi que um crítico atento revela camadas invisíveis e faz os seus leitores pensarem e discutirem.

“Teria ele que morrer para se tornar imortal?”

A imortalidade artística costuma exigir a mortalidade física, pois, enquanto o artista vive, ele ainda está competindo com seu próprio presente, preso ao seu tempo.

Depois que morre, a obra se separa e se transforma em concluída. Entenda: o corpo desaparece, mas a palavra permanece. É uma ironia antiga: Só quando a voz silencia completamente é que ela pode ecoar através dos séculos.

Quantos artistas você conheceu mais depois de sua morte? Foi o que aconteceu com Van Gogh, por exemplo, durante a vida, era visto como um fracassado. Após sua morte, a história passou a enxergar aquilo que seus contemporâneos não conseguiam ver. Não porque a pintura mudou, mas porque o mundo mudou. Então para um artista, morrer, talvez seja um novo recomeço.

Pormenor de Ausência não se resume a um veredicto simplista de “bom” ou “ruim”. É um acontecimento teatral, uma experiência, um pensamento. A peça prova que o universo “vintage” e a literatura clássica não são peças de museu mofadas, mas espelhos afiados que continuam refletindo nossas maiores crises modernas. Ao final da sessão, quando as luzes finalmente se apagam por completo, fica o gosto pelo encantamento e a certeza de que a palavra resiste ao tempo.

A grande piada cósmica (e terrivelmente real) é que ele passou anos ansiando pela pompa, adiou a posse por quase três anos por puro receio supersticioso ou angústia existencial, e, quando finalmente sentou na cadeira 2, o destino fechou as cortinas. Em apenas três dias, o escritor mudou da cadeira acadêmica para a urna número 13 do cemitério. Ele precisou morrer para virar, oficialmente, imortal.

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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