Festa junina precisa ser vivenciada

Não gosto de fogueira, tampouco da fumaça que a fogueira gera, mas acho importante e de uma necessidade imensa preparar e compartilhar um quentão, uma panela de milho cozido com manteiga, paçoquinha, pamonha, pé de moleque, cural (que aqui no Espírito Santo chamam de papa) e muitas outras coisas maravilhosas que nem espero essa data pra consumir, se depender de mim, festa junina é estado de espírito. 

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Festa junina, para mim, sempre foi mais sobre essa sensação de pertencimento, de compartilhar com os outros, de vivenciar no coletivo. Há um conceito que Jung importou do antropólogo Lucien Lévy-Bruhl, chamado participação mística (participation mystique), que descreve exatamente esse fenômeno: um estado psíquico em que o sujeito perde, ainda que temporariamente, a fronteira entre si e o objeto, ou o grupo ao qual pertence.

Jung retoma essa ideia da participação mística em seu livro Tipos Psicológicos, para explicar como, mesmo em sociedades “civilizadas”, continuamos vivendo esse tipo de fusão em rituais coletivos: um culto, um jogo de futebol, uma festa popular. A psique adulta não está regredindo a algo “primitivo” e inferior, ela só está reabrindo acesso a esse modo mais antigo de se experimentar, que sempre esteve lá, só que normalmente fica encoberto pelo “eu” separado que cultivamos no dia a dia. 

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É por isso que explicar festa junina para alguém que nunca foi em uma sempre soa meio que incompleto, porque precisa vivenciar, precisa se relacionar, precisa comer, cantar, jogar bingo, ganhar brinde de pescaria, precisa sentir! Dá até pra descrever os elementos da festa, como a fogueira, a comida, as danças típicas, os costumes… Mas vai faltar a parte que só o corpo entende, tipo o calor da fogueira no rosto, a mão que te oferece uma pamonha sem perguntar se você está com fome, o ritmo da sanfona puxando todo mundo para o mesmo passo errado, hehehe, vivenciar mesmo que imperfeito, é fundamental.

Essa é a diferença entre saber sobre o pertencimento e vivenciar pertencimento. Posso escrever sobre arquétipos a tarde inteira, mas nada disso importa e nenhuma teoria substitui o instante em que alguém parte um bolo de fubá com cubinhos de goiabada e entrega o primeiro pedaço para você, de propósito, esperando apenas o sim como resposta, porque não existe a possibilidade de dizer não pra isso.

Talvez seja por isso que festa junina resista tão bem ao tempo, mesmo nas cidades grandes, mesmo fora do calendário correto, até porque brasileiro faz festa julina pra estender a data que era de um único mês… Porque a festa junina proporciona o que mais perdemos no piloto automático do dia a dia, que é comer junto, dançar errado junto, ficar perto do fogo junto, participar de brincadeiras (mesmo sem ser crianças) junto. Participar, no sentido mais literal da palavra. Vivenciar!

Se você puder, aproveite todas as festas juninas existentes este ano. Vá comer o milho, beber quentão (mesmo morando em um lugar quente como Vitória), aceite todos os pedaços de bolo possíveis, de milho, fubá, e se não tiver as festas que a gente compartilha, não faz mal, compre o que mais gostar na quermesse da igreja católica, na festa junina que o povo monta barraquinha, não importa… Se for chegado em dança, vai pra quadrilha, se não for, vai mesmo assim e erre o passo, não faz mal! Se permita vivenciar o coletivo e depois me conta como foi.

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Cínthia Aguiar
Cínthia Aguiar
Minha vida é marcada pela curiosidade e pela busca por conhecimento. Tenho uma trajetória acadêmica e profissional bem diversificada. A psicologia junguiana, no entanto, ocupa um lugar especial em meu coração. Sou especialista em psicologia junguiana, estudante assídua de símbolos e arquétipos. Sempre com uma xícara de café na mão, buscando respostas para as grandes questões da existência. Acredito que o autoconhecimento é a chave para uma vida mais plena e autêntica.

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