A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou um novo relatório alertando que praticamente toda a humanidade sentirá, direta ou indiretamente, os efeitos do câncer. Segundo o documento, produzido pela Agência Internacional para a Investigação do Câncer (Iarc), embora cerca de uma em cada cinco pessoas desenvolva algum tipo de câncer ao longo da vida, aproximadamente 92% da população mundial será afetada pela doença pelo menos uma vez, seja como paciente, familiar ou cuidador.
O levantamento projeta um crescimento expressivo no número de diagnósticos nas próximas décadas. O relatório prevê quase 35 milhões de novos diagnósticos por ano até 2050. Atualmente, a estimativa é de 20,6 milhões de novos casos e quase 10 milhões de óbitos por ano, o que mantém o câncer como a segunda principal causa de morte no mundo, atrás apenas das doenças cardiovasculares. De acordo com a agência da ONU, a doença tira mais de 26 mil vidas por dia. O tipo mais letal continua sendo o mesmo: o câncer de pulmão segue como a principal causa de morte por câncer no mundo. Entre os homens, os tipos mais frequentes são os de pulmão, próstata e colorretal, enquanto entre as mulheres predominam os cânceres de mama, pulmão e colorretal.
Um dos pontos centrais do relatório é a disparidade entre países ricos e pobres. Nos países de alta renda, onde os tumores costumam ser identificados mais cedo e o acesso ao tratamento é maior, a sobrevida líquida em cinco anos supera 85%, enquanto nos países de baixa renda esse índice fica abaixo de 45%. O peso da doença também é desproporcional entre continentes: em 2024, a Ásia concentrou a maior parcela dos casos e mortes, respondendo por 50,7% dos novos casos e 56,5% das mortes, refletindo sua grande população, enquanto a Europa apresentou uma carga desproporcionalmente elevada, representando 21% dos casos globais e 20% das mortes, apesar de abrigar apenas cerca de 9% da população mundial.
O câncer também tem se tornado uma causa cada vez mais relevante de mortes precoces. Em 2021, a doença foi a principal causa de mortalidade prematura em 41 países, a segunda principal em 37 países e a terceira em 47 países. Apesar das metas globais de redução, apenas 12 países estão atualmente no caminho para atingir, até 2030, a redução de um terço da mortalidade prematura por câncer, enquanto 48 países apresentam aumento dessas taxas.
A OMS também investigou pela primeira vez as consequências sociais e emocionais da doença sobre pacientes e suas famílias. A pesquisa revelou que pelo menos 45% enfrentam dificuldades financeiras, mais da metade relata problemas de saúde mental e quase todos os cuidadores relatam sobrecarga, incluindo trabalho não remunerado e isolamento social. Além disso, aproximadamente metade dos pacientes e de suas famílias enfrenta gastos catastróficos com saúde, mesmo em países com cobertura universal, somando-se a despesas indiretas como perda de renda, transporte e cuidados com crianças.
Para especialistas ouvidos por veículos internacionais, o aumento de casos está ligado a fatores demográficos e comportamentais. Segundo Eduard Teixidor, professor de oncologia no Hospital Universitário de Girona, na Espanha, o crescimento dos casos está relacionado ao crescimento exponencial da população e à melhoria da esperança de vida, enquanto a sobrevivência está mais associada ao diagnóstico e ao tratamento precoces. Freddie Bray, chefe da Seção de Vigilância do Câncer da Iarc/OMS, reforçou que a distribuição desse fardo não será igual entre as nações: os países com menos recursos para gerir o problema suportarão o peso do fardo global do câncer.
Para a OMS, ainda há espaço para reverter parte desse cenário. A organização defende que o conhecimento científico disponível hoje já permite reduzir significativamente o impacto do câncer, desde que haja investimento em diagnóstico precoce, tratamento acessível e redução de fatores de risco como tabagismo, consumo de álcool, obesidade e poluição atmosférica.







