Subjetividade e violência

“…a terra está cheia da violência” – Marcos. 5:1-20, Genesis 4:8, 6:13

“Violência é um ato de brutalidade, sevícia e abuso físico ou psíquico contra alguém e caracteriza relações intersubjetivas definidas pela opressão e pela intimidação,

pelo medo e pelo terror.”

Marilena Chaui

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  • O que está por detrás da violência?
  • As situações diversificadas da violência levam a loucura, a incapacidade e a impotência?
  • Na prática da violência, onde está a dimensão da realidade ou o delírio alucinante imaginário da sociedade?

Modos contemporâneos de subjetivação

“De modo geral, conceitua-se como sendo o uso de palavras ou ações que machucam as pessoas. É violência também o uso abusivo ou injusto do poder, assim como o uso da força que resulta em ferimentos, sofrimento, tortura ou morte.”

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Os problemas ligados à violência são numerosos, macros complexos e de natureza distinta.

A Violência é uma construção social e pessoal e não faz parte da natureza do ser humano. 

MODOS 

  • Formação da Personalidade de modo astuto, o ideal seria de modo sábio com internalização de princípios, valores, referências e exemplos.
  • Comportamentos adictos que precisam de sucedâneos compensatórios para aplacar a subjetividade irritante de um conflito psíquico.
  • O EGO inconsciente que evita o desprazer que seria produzido pela liberação do reprimido.
  • Efeito e causa das políticas ideológicas de exclusão social e econômica.
  • Cultura de morte, medo, intimidação e insegurança.
  • Uma sociedade voltada para a gratificação imediata de um impulso, gerando:
    • Uma vida inteira de angústia.
    • Vida estéril, que expulsa os relacionamentos que mais alimentam.
    • Mecanismo de defesa, projeção nos outros a nossa total falta de controle.
    • Neurose, onde o mundo exterior é hostil, ameaçador e povoado por assassinos (há um leão lá fora, por isso, não posso sair…)
    • Indelevelmente e infelizmente, uma alma marcada pela tristeza, feridas emocionais, culpa e vergonha

Farta Diversificação 

  1. Violência Criminal – Tráfico de drogas, armas, de pessoas e de influências. Crime organizado, quadrilhas e facções.
  2. Violência Pública – Delinquência e violências que implementam o medo na sociedade brasileira. Nos últimos vinte anos, a violência passou a ser discutida por todas as esferas da sociedade e deixou de ser um tema apenas relacionado às periferias dos grandes centros urbanos.
  3. Violência Política – Exercida pelo poder, é contrária ao ideário democrático, pois não respeita seus adversários e nem tem compromisso com o diálogo para resolver conflitos. Isto é comum nas ditaduras de ideologias.  
  4. Violência Policial – Consiste no uso intencional de força excessiva, geralmente física, mas também na forma de ataques verbais e intimidação psicológica, por um agente público.
  5. Violência Social das desigualdades (injusta repartição de tarefas e privilégios), conhecida como violência branda e branca, ledo engano.
  6. Violência Sexual – Questões de identidade de gênero, promiscuidade, perversões e institucionalização da iniquidade.
  7. Violência Urbana – Caos no trânsito, transporte urbano deficitário, deslocamento urbano social comprometido e insegurança.
  8. Violência Estrutural – forma de violência enraizada nas desigualdades e injustiças das estruturas sociais, políticas e econômicas, que afeta sistematicamente grupos vulneráveis sem a necessidade de um agressor direto. Ex. racismo, sexismo, homofobia, xenofobia e outras formas de discriminação.
  9. Violência Institucional – conjunto de atos, omissões ou procedimentos de instituições públicas ou privadas que causam sofrimento, violam direitos humanos ou vitimizam novamente pessoas já afetadas por crimes ou injustiças.
  10. Violência Sistêmica – prática do autoritarismo, profundamente enraizada, apesar das garantias democráticas tão claramente expressas na Constituição de 1988.
  11. Violência Doméstica – A Violência doméstica (mulher, idoso, criança) é um problema universal que atinge milhares de pessoas, em grande número de vezes de forma silenciosa e dissimuladamente. Trata-se de um problema que acontece em ambos os sexos e em qualquer nível social, econômico, religioso ou cultural. A sua importância é relevante sob dois aspectos: 
    1. Devido ao sofrimento indescritível que vivem às suas vítimas, muitas vezes silenciosas. 
    2. Porque, comprovadamente, a violência doméstica, incluindo aí a negligência precoce e o abuso sexual, podem impedir um bom desenvolvimento físico e mental da vítima.
  12. Violência da Permissividade – Refere-se à aceitação de limitações e violações de direitos como normais e aceitáveis, em vez de lutar contra elas.
  13. Violência Judicial (frequentemente associada ao termo “lawfare”) ocorre quando as estruturas, processos e rituais do próprio Poder Judiciário são instrumentalizados para causar dano, silenciar, constranger ou neutralizar alguém, em vez de garantir a justiça. A lei está sendo utilizada como arma de ataque, e não como escudo de proteção.
  14. Violência da Omissão (violência passiva) – Refere-se à incapacidade do Estado de proteger as vítimas de violência doméstica e familiar, resultando em consequências graves para as vítimas.
  15. Violência Simbólica – Natureza psicológica que atua sobre a consciência, exigindo a adesão irrefletida, só aparentemente voluntária. Manipulações ideológicas. A desumanização violenta e robotização do ser humano. Ex. Informações distorcidas, manipulações da Imprensa, fakes News e propaganda enganosa
  16. Cultura da Violência – Onde hierarquias e oligarquias que prevalecem. Desprezo pelos direitos humanos fundamentais são práticas excludentes. Justiça com as próprias mãos são presentes. Aceitação passiva do que é imoral, errado e marginal. Ovacionadas nos meios de comunicação, redes sociais, mídias digitais, canais pagos e gratuitos de filmes e séries etc.

FATORES ESTIMULADORES / INIBIDORES DE VIOLÊNCIA

A psicanálise trata a violência (ou a agressão) como impulsos que são desferidos contra o outro e contra si mesmo, na tentativa de se livrar de alguma angústia interna, especialmente nos casos em que as frustrações em se adaptar a um novo (relacionamento, espaço, ambiente ou ideias) forem excessivas e inadequadas.

  • Fator individual (biografia, condições físicas e psíquicas, momento da vida, força física diferenciada …) – vulnerabilidades.
  • Fator individual/conjuntura (Exemplo: abuso de álcool) – liberador das inibições.
  • Fator relacional – padrões culturais, acoplagens neuróticas (conflitos internos entre desejos e valores morais e sociais, histórico, condições de vida social) – redução do repertório comunicativo/afetivo.
  • Fator comunitário (recursos, linguagens, redes de pertencimento, institucionalidade, níveis de violência e segurança) – contexto de reforço. Ex: denúncia (tráfico, milícias) – linguagem-violência
  • Fator social (normas, valores e padrões culturais – estrutura de reforço. Ex: machismo, patriarcalismo ou naturalização da violência.

O QUE FAZER DIANTE DESTE QUADRO HORRIPILANTE, GROTESCO E DANTESCO?

  1. Autocontrole para os impulsos agressivos que requer introspecção, reflexão, disciplina, honestidade e ação de superação. Isto é recomendado pelo Dr. Paulo de Tarso em sua cartilha comportamental enviada aos Efésios no primeiro século da Era Cristã: Efésios 4:26-27
    1. Distinção entre pensamento obscuro e ato obscuro
    2. Distinção entre reprimir (apagar antes da consciência) impulsos ou subjugar (reconhecer, confrontar, avaliar consequências) impulsos.
    3. Subjugar os impulsos destrutivos e canalizá-los para resultados criativos e construtivos. – I Coríntios 9:27
  2. Disponibilidade para resolver conflitos pessoais internos e confrontos interpessoais sem hostilidade impulsiva, abuso verbal, ameaças ou ações violentas.
  3. Distinguir com muita sabedoria, desapego, desprendimento e determinação, a diferença entre reação e resposta comportamental, optando pela resposta.
  4. Deixar de ser criança incapaz de controlar impulsos porque não possui ferramentas para lidar com coisas do sentimento e coração.
  5. Conversões, empatia, compaixão e mutualidade.
    1. São necessárias onde há rupturas, distanciamento e intolerância mútua.
    2. São necessárias onde há tragédias descortinadas, diante dos nossos olhos de luta titânica e tirânica com o outro. O outro não é nosso inferno e não lutamos contra carne e sangue.
    3. Necessárias onde há poder destruidor do “duálogo” (duelo de palavras, argumentos, pontos de vistas ou de quem fala mais alto ou tem o poder da fama e do vil metal), feridas, mágoas e ressentimentos.
    4. Necessárias onde há narcisismo exacerbado (empáfia, prepotência, arrogância, orgulho, vaidade e superioridade).
    5. Necessárias onde há falsas ideologias que aprisionam mente e corações. A verdade liberta.
    6. Necessárias onde há injustiças, decisões monocráticas e interpretações particulares para o código constitucional.
  6. Buscar a Deus ou a Divindade como concebida para a sensibilização do espelho do outro, adquirindo equidade, outridade, compaixão, graça e mutualidade.

CONCLUINDO… “Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-lho também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas.” – Mt 7:12

Felizes são aqueles que promovem a paz (superação da cultura da violência e da morte) Construindo a igualdade e a inclusão social, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz dos valores universais e principalmente da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência.

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Sidnei Vicente
Sidnei Vicente
Carioca, cientista da religião e filósofo dedicado ao estudo das dimensões existenciais da vida. Psicanalista, investiga as complexidades da mente e da subjetividade humana. Especialista em comportamento emocional e compreensão das relações entre razão, fé, emoção e comportamento.

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