A Herança da Liberdade

Quando penso na minha avó materna, percebo que ela era uma mulher muito à frente do seu tempo. Na verdade, hoje entendo que ela fazia parte de uma linhagem de mulheres que aprenderam cedo que tinham o direito de existir para além dos limites que a sociedade costumava impor.

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Minha avó tinha nove irmãs. Eram dez mulheres em uma época em que o destino feminino parecia já estar escrito: casar, obedecer e cuidar da casa. Mas elas eram diferentes. Eram mulheres livres. Falavam besteira, riam alto, se reuniam para conversar e pareciam carregar uma alegria genuína de estar vivas.

Duas delas nunca se casaram, por escolha. Uma foi ainda mais longe: mudou-se para o Rio de Janeiro sozinha, algo que para uma mulher daquela época exigia uma coragem enorme. Quando ela voltava para visitar a família, todos paravam para ouvir as histórias. Era descrita como uma mulher elegante, alta, de fala firme e doce ao mesmo tempo. Eu cresci ouvindo essas narrativas sem compreender completamente o que elas significavam. Hoje entendo que aquela mulher representava uma possibilidade rara: a de viver a própria vida segundo suas próprias regras.

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Com o passar dos anos, fui entendendo de onde vinha tudo isso.

Vinha do meu bisavô, Antônio da Rós.

Em uma época em que muitas famílias priorizavam os meninos, ele colocou todas as filhas para estudar. Os estudos vinham antes do trabalho na roça e das tarefas domésticas. E, quando chegou o momento de dividir o patrimônio da família, fez algo ainda mais incomum: deu às filhas mulheres o mesmo direito à herança que deu aos filhos homens.

Pode parecer algo simples hoje, mas não era.

Tanto não era que outras famílias da mesma época agiam de forma muito diferente. Minha avó paterna, por exemplo, viu os irmãos receberem as terras da família quando se casaram. Para ela, o presente foi uma máquina de costura.

Não era uma profissão nem uma forma de independência financeira. Era um instrumento para continuar cumprindo aquilo que se esperava das mulheres: costurar as roupas da família, cuidar do marido, dos filhos e da casa.

A mensagem era clara. Os homens herdavam patrimônio. As mulheres herdavam responsabilidades.

Por isso, olhando para a história da família da minha avó materna, percebo o quanto meu bisavô era diferente de muitos homens de sua geração. Enquanto tantas mulheres eram preparadas para servir, ele preparou suas filhas para pensar, estudar, decidir e ocupar o próprio lugar no mundo.

Minha mãe conta que ele também era um homem alegre. Tocava concertina e organizava bailes quase todos os finais de semana em frente à sua casa. As pessoas dançavam no terreiro onde ele e os filhos secavam o café que colhiam. Gosto de imaginar aquelas noites cheias de música, risadas e gente reunida. Talvez tenha sido ali que suas filhas aprenderam que a vida também precisava ser celebrada.

A casa dele ainda está lá. Sempre que passo pela estrada a caminho da minha cidade, consigo vê-la. E toda vez que ela surge na paisagem, minha imaginação faz o resto. Penso nos bailes, nas danças, na música ecoando pela noite, nas gargalhadas atravessando o terreiro. Penso na minha avó e suas irmãs ainda jovens, dançando ao som da concertina do pai, ocupando o mundo com a alegria e a liberdade que ele ajudou a cultivar.

Talvez seja por isso que, mesmo sem ter conhecido aquele tempo, ele me parece tão familiar. Como se um pedaço de mim também tivesse dançado naquele terreiro.

Minha avó herdou muito disso.

Era uma mulher inteligente, excelente em matemática. Mas era ainda melhor em ser feliz.

Sofreu com o machismo do meu avô, como tantas mulheres da sua geração. Ainda assim, quando chegou o seu limite, tomou uma decisão corajosa. Não se separou legalmente, mas se separou fisicamente. Escolheu não continuar vivendo sob as mesmas regras que a faziam sofrer.

Sem discursos grandiosos, ela nos ensinou o significado da liberdade.

Era ela quem trançava meus cabelos e me mandava comprar pão durante as férias. Era ela quem contava histórias e reunia os netos na cozinha para fazer capeletti. Esticávamos a massa, preparávamos o recheio, fechávamos os pequenos chapéuzinhos e depois nos sentávamos todos à mesa para comer algo que tinha sido preparado com muito mais do que farinha e ovos. Tinha afeto, diversão e pertencimento.

Ela ensinou suas netas a lutar pelo que queriam. Sempre nos defendeu. Sempre esteve do nosso lado.

Nos verões, passávamos até três meses na praia com ela. E existe uma cena que jamais saiu da minha memória.

Eu devia ter no máximo nove anos quando aconteceu.

Chegamos certa vez à casa da família na praia. Entrei com a minha avó e encontramos meu avô deitado ao lado de uma mulher. Eu era apenas uma criança, mas percebi imediatamente que algo estava errado.

Minha avó olhou para aquela situação e disse apenas:

“Na minha casa, não.”

A mulher saiu correndo. Meu avô eu nem lembro o que fez. O que ficou guardado na minha memória foi a força da minha avó e eu, uma menina de nove anos, tentando acalmá-la e puxá-la para fora dali.

Durante muito tempo, essa foi apenas uma lembrança confusa da infância. Hoje, olhando para trás, entendo que aquela cena não falava apenas sobre uma traição. Falava sobre uma mulher que conhecia o próprio valor e que se recusava a aceitar qualquer coisa em silêncio.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquela reação não nasceu naquele momento. Ela foi construída durante toda uma vida.

Foi construída por um pai que ensinou suas filhas a estudarem, a terem patrimônio, opinião e autonomia. Foi construída por um homem que acreditava que mulheres mereciam as mesmas oportunidades que os homens. Foi construída por uma família que, mesmo vivendo em outro tempo, ousou imaginar um futuro diferente para suas meninas.

No fundo, meu bisavô criou filhas que souberam reconhecer o próprio valor. Filhas que aprenderam que respeito não é favor. Que dignidade não é prêmio. Que amor não exige submissão.

E talvez seja por isso que, tantas décadas depois, eu ainda consiga enxergar nele a origem de uma herança muito maior: a herança da liberdade.

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

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