A cosmogonia de um moleiro: Por que você precisa ler O Queijo e os Vermes

Se você pudesse viajar no tempo e conversar com um trabalhador comum do século XVI, o que acha que ele diria sobre a criação do mundo? Provavelmente, imaginamos que ele repetiria piamente os dogmas da Igreja Católica ou que seria completamente analfabeto. Mas o historiador italiano Carlo Ginzburg, na sua obra-prima O Queijo e os Vermes, nos prova que a realidade da cultura popular era infinitamente mais rica, complexa e rebelde do que os manuais de história costumam contar.

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Longe de ser uma dissertação acadêmica árida e cansativa, o livro é uma narrativa biográfica fascinante e profundamente envolvente. Ginzburg resgata dos arquivos empoeirados da Inquisição a história real de Domenico Scandella, mais conhecido como Menocchio, um moleiro do norte da Itália que viveu no final do século XVI. Menocchio não era um nobre, nem um teólogo refinado; era um homem do povo que sabia ler e que possuía uma mente assustadoramente original.

O ponto alto da obra, e o que dá título ao livro, é a espantosa teoria que Menocchio desenvolve para explicar a origem do universo. Diante dos inquisidores, com uma coragem (ou ingenuidade) impressionante, ele explicou que, no início, tudo era um caos primordial onde terra, ar, fogo e água estavam misturados. Dessa massa, formou-se um bloco, “do mesmo modo como o queijo é feito do leite”. E assim como os vermes surgem espontaneamente no queijo maduro, dessa massa nasceram os seres vivos e os primeiros foram os próprios anjos, incluindo Deus.

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Essa analogia laticínia pode parecer absurda à primeira vista, mas o que torna a leitura de Ginzburg tão apaixonante é a forma como ele investiga as origens desse pensamento. Menocchio não inventou tudo do nada. Ele teve acesso a um punhado de livros, desde a Bíblia até versões do Decameron de Boccaccio e, possivelmente, fragmentos do Alcorão, e os leu de uma forma totalmente sua. Ele filtrou a cultura erudita dos livros através da lente de uma cultura popular ancestral, oral e camponesa. O resultado foi uma heresia única, poética e profundamente humana.

Por que esta leitura é imperdível?

  • Uma História de Detetive Histórico: Ginzburg atua como um verdadeiro detetive. Ele não reconstrói apenas os interrogatórios, mas tenta entender o mecanismo da mente de Menocchio. Como aquele homem lia? Por que ele grifava certas partes e ignorava outras?

  • O Confronto de Dois Mundos: O livro retrata de forma dramática o choque entre a cultura oral/popular (representada pelo moleiro) e a cultura escrita/erudita do poder institucional (representada pelos juízes da Inquisição). É um vislumbre vívido de como a Igreja via com pavor a autonomia intelectual das classes mais baixas após a invenção da imprensa.

  • Empatia com o Personagem: É impossível não se afeiçoar a Menocchio. Ele é teimoso, orgulhoso de sua inteligência, tagarela e incapaz de se calar, mesmo sabendo que sua vida corria perigo. Ele queria debater, queria que os grandes senhores entendessem a sua verdade.

O Queijo e os Vermes é um clássico da chamada Micro-história a ciência de olhar para um detalhe minúsculo (a vida de um único moleiro) para compreender as grandes engrenagens de uma época inteira (a Reforma, a Contra-Reforma e a transição para o mundo moderno).

Se você procura um livro que desafie sua visão sobre o passado, que se leia com o ritmo de um romance de mistério e que preste uma bela homenagem à força do pensamento livre e da leitura popular, esta obra de Carlo Ginzburg é um achado indispensável para a sua estante. Prepare-se para olhar para um pedaço de queijo com olhos completamente diferentes.

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