Ainda é possível ter esperança no Centro de Vitória?

Esse questionamento surgiu em um passeio pelo bairro com a minha amiga Giovana, que além de ser apaixonada pelo Centro é uma referência na promoção do turismo no ES através do trabalho que desenvolve nas páginas da sua marca, o Guia Capixaba.

Continua após a publicidade

Ao levá-la à Praça Getúlio Vargas, fiquei envergonhado. Constatei que a pavimentação feita recentemente já estava deteriorada! A praça foi completamente descaracterizada e perdeu a beleza de um espaço que completou 70 anos em 2025.

​A Getúlio Vargas foi praticamente varrida do mapa: sua pedraria portuguesa e seus belos mosaicos foram arrancados. O belo pátio cercado de gramados, árvores e bancos — que davam vida ao local e permitiam que trabalhadores e passantes sentassem, fizessem suas refeições, jogassem cartas e conversassem sobre a vida ao longo destes últimos 70 anos — simplesmente desapareceu. No lugar, a prefeitura instalou uma quadra descoberta, onde o calor do cimento e das ferragens impossibilita qualquer tipo de lazer ao longo do dia, podendo ser usada apenas à noite.

Continua após a publicidade

As árvores outrora frondosas e de copas largas foram tosadas, e suas raízes, comprimidas, cercadas por blocos de concreto. A estátua de bronze que dá nome ao local foi pintada de verde; temos agora um Getúlio Vargas com a estética Marvel, bem a cara do Hulk.

Abaixo da escultura, o trecho da carta testamento de Getúlio, bem como o granito, seguem sujos e sem restauro. O que era para ser uma homenagem, virou uma cena angustiante aos olhos.

A praça, antes tinha um bosque encantador, sombreado, fresco… um respiro em meio ao Centro de Vitória! Tornou-se um grande pátio sem vida, quente e repleto de concreto e elementos artificiais.

​Saímos dali e fomos ao Parque Gruta da Onça. Sabíamos que uma pessoa com muitos seguidores havia visitado o parque recentemente e feito considerações sinceras sobre a experiência que teve, mas não imaginávamos que, à medida que subíssemos, iríamos concordar com ela. Sim, nos decepcionamos, evidente não Com. A existência do parque, mas, com o tratamento que estão dando a ele.

Ao passar pela administração, tivemos uma recepção calorosa pelo fiscal que estava ali. A casa de madeira foi substituída por um mausoléu pesado de concreto que, apesar de recém construído, já possui infiltrações e luzes piscando no melhor estilo poltergeist!

Resolvi levar meus amigos até o mirante, porém, quando retornamos, o tratamento mudou! Um dos seguranças do parque (não foi o simpático que nos recebeu) constrangeu a minha amiga perguntando, insistentemente, onde seriam publicadas as imagens dos vídeos e fotos que fizemos.

Ela, evidentemente, disse que não tínhamos que dar satisfações, uma vez que o parque é um lugar público.

​Nosso objetivo era divulgar a beleza natural do local, mas fomos abordados de forma inapropriada por agentes da Prefeitura de Vitória, que, por algum motivo, estão abordando pessoas nos parques municipais para evitar que elas publiquem possíveis críticas, opiniões e/ou apontamentos sobre suas experiências.

Logo depois o segurança simpático me acordou também e fez as mesmas perguntas, evidentemente me recusei a responder. Apesar de não termos sofrido nenhum tipo de intervenção grave, tal tratamento foi o suficiente para azedar o clima de lazer e descontração de um dia que havíamos reservado para passear e divulgar as belezas do bairro.

​Pois bem, fizemos os nossos vídeos e vimos um parque com muito lixo. O primeiro mirante ao qual fomos teve sua obra concluída há pouquíssimo tempo e, mesmo assim, já estava completamente deteriorado: o piso estava enferrujado e esburacado, e a escada, quebrada.

Haviam também pessoas em situação de rua usando drogas no local e uma sensação de insegurança muito grande. Fiquei chocado com a preocupação dos seguranças em obter informações sobre quem visita e divulga o parque, em vez de se preocuparem realmente com o bem-estar dos frequentadores, com a organização e com a segurança física de quem acessa um mirante sob o risco de cortar a perna em ferros enferrujados ou cair de um degrau quebrado e
​Saindo do Parque ou mesmo com a questão do lixo e seus impactos ambientais. Sem contar na quantidade absurda de plantas exóticas que estão dominando a vegetação nativa e nada é feito.

De lá fomos até a Casa Porto das Artes Plásticas, onde está acontecendo a exposição “Sonhar”, com aquarelas de Alice Beraldi, que valem muito serem contempladas.

Amei a exposição! Porém, preciso falar da edificação, em estilo eclético, que no passado foi a capitania dos portos em Vitória e tem uma arquitetura e história de extrema importância para a nossa cidade!

Constatei que foram feitas diversas mudanças no interior daquela edificação histórica, e a que mais chamou a minha atenção foi a alteração no piso. Ao sair, observei que o banco do quintal estava quebrado. O clima geral era de falta de investimento e abandono: o ar-condicionado estava desligado e o mobiliário externo estava danificado.

Conversando com pessoas no local, entendemos que aquele edital foi uma excepcionalidade e que a abertura de editais por parte da Prefeitura de Vitória para espaços como a Casa Porto é praticamente inexistente. Portanto, tivemos ali uma oportunidade rara de ver o espaço aberto com uma exposição em curso, aproveitem, pois quando a exposição terminar, é impossível prever se levará meses ou anos para ter outra.

​Saindo da exposição, passamos no Mercado Capixaba. Lá, vimos empreendedores dedicados e se esforçando para manter esse lugar recentemente restaurado aberto e vivo. Vimos também uma exposição de artesanato muito bonita, com artesãos capixabas. Essa exposição termina em poucos dias e fomos informados que o espaço onde ela acontece será fechado por tempo indeterminado para reforma. Ficamos nos questionando: por que reformar um espaço tão interessante, que pode abrigar tantas atividades, se faz tão pouco tempo que o Mercado Capixaba foi inaugurado? Achamos no mínimo estranho que um local recém-restaurado já precise fechar uma de suas salas para reformas.

​Em frente ao Mercado Capixaba, passamos na Escadaria Djanira Lima. Esse monumento homenageia Djanira, que foi professora, escritora e uma das primeiras ativistas feministas do Espírito Santo, tendo feito parte da Federação das Feministas Capixabas. Lutou pelo direito ao voto feminino e pela inserção das mulheres no mercado de trabalho. Djanira Lima merece um pouco mais de respeito, a escadaria em sua homenagem deveria ser, no mínimo, um lugar cercado de vida, bem cuidado e valorizado, com uma placa contando a sua história e importância para as mulheres! Um ponto turístico da nossa cidade!

​Depois de tudo isso, fomos almoçar na Oca. Durante o almoço, não pude deixar de transparecer a minha decepção e desesperança com relação ao Centro da cidade. Estou muito cansado, preciso desabafar!

Como coisas tão básicas são negadas a nós, moradores e empresários deste bairro? Estou cansado de ver o pouco patrimônio histórico que restou sendo tratado como se não fosse nada.

O que percebemos aqui é que o patrimônio histórico parece ser apenas um obstáculo para a atual gestão — e não apenas para esta, pois todas as gestões anteriores, nos últimos 30 anos, pelo menos, sempre desprezaram o Centro da cidade.

​A diferença é que a atual gestão faz obras que descaracterizam, mudam e matam o pouco que sobrou da história e da memória deste bairro.

São obras frias e violentas, feitas de qualquer forma, que deixam o bairro mais cinza e não consideram o bem-estar, a qualidade de vida ou o meio ambiente. Essa é uma violência simbólica. É a violência do apagamento histórico; uma borracha passada no que restou da história de Vitória, uma das capitais mais antigas do país.

Ao ser transformada em uma cidade cinza e fria, com casas que parecem cada vez mais consultórios e clínicas odontológicas, Vitória vai perdendo a sua essência.

​A prefeitura vai retirando e cortando verbas direcionadas à cultura, ao turismo, ao patrimônio e ao meio ambiente. Estamos vendo o Parque Moscoso literalmente morrer; seus peixes, que viviam em chafarizes históricos de mais de 100 anos, precisaram ser removidos para consumo pela própria população porque estavam sufocando na água barrenta que não é limpa há muitíssimo tempo! Os chafarizes não são ligados, e as árvores vão desaparecendo aos poucos em podas drásticas ou remoções que acontecem na calada da noite.

​Aos poucos, o Centro de Vitória vai se tornando um bairro comum, qualquer. Ao passar pela Getúlio Vargas de hoje, vê-se apenas uma praça genérica, igual a qualquer outra praça de uma cidade recém-construída em qualquer parte do Brasil. É a mesma arquitetura, o mesmo tipo de concreto, o mesmo desenho, o mesmo tipo de luminária. Nada bonito, nada belo, nada poético. E isso é o que está dando lugar à nossa história!

​Preservação e restauro são palavras que não existem na atual gestão, e isso me deixa muito desesperançoso e triste. Afinal, o que me trouxe ao Centro — e o que trouxe centenas de pessoas que vivem aqui — é justamente a sua história, a sua identidade, o seu patrimônio e a sua cultura.

As expressões e as subjetividades que existem aqui são o que faz com que o Centro ainda valha a pena. Mas a pergunta que me faço é: até quando o Centro terá alguma história para contar? Até quando restarão memórias de um Centro Histórico? Será que o Centro resistirá o suficiente para aguentar mais essa fase? São décadas de destruição e esse ciclo não encerra, porquê? Enfim, fica aqui o meu relato, desabafo e provocações, espero que contribua para uma mudança de postura por parte do poder público e que ative um desejo de cobrança e luta por dias melhores por parte dos moradores da nossa cidade.

Continua após a publicidade
Fabrício Costa
Fabrício Costa
Geógrafo e mestre pela UFES, Fabrício é o coração d'A Oca, no Centro de Vitória. Entre mapas e afetos, trocou o rigor técnico pela potência da arte e gastronomia. Bruxo, poeta e múltiplo, faz do seu território um espaço de acolhida, resistência e evolução constante.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
27ºC
Máxima
28ºC
Mínima
22ºC
HOJE
15/05 - Sex
Amanhecer
06:02 am
Anoitecer
05:12 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
5.14 km/h

Média
23.5ºC
Máxima
25ºC
Mínima
22ºC
AMANHÃ
16/05 - Sáb
Amanhecer
06:03 am
Anoitecer
05:11 pm
Chuva
1.44mm
Velocidade do Vento
3.93 km/h

Morre Jürgen Habermas, mas permanece o desafio da esfera pública nas...

Igor Vitorino da Silva

Leia também