Recentemente descobri a série “Não Importa”, do Porta dos Fundos. É um bate-papo solto sobre aleatoriedades com João Vicente e Gregório Duvivier. Eles falam sobre tudo e, ao mesmo tempo, sobre nada muito específico.
Em um desses vídeos, entre piadas soltas, reflexões rápidas e comentários aleatórios, Duvivier lançou uma frase que achei genial, apesar de simples: a pessoa que mais te fez rir na vida, provavelmente, foi um amigo, não um comediante.
Confesso que me emocionei. Todas as minhas lembranças com meus amigos são rodeadas de dentes à mostra. Inclusive, quando quero ser feliz, é para eles que eu corro. É fantástico perceber que os nossos amigos são donos de algumas das sensações mais gostosas da nossa vida.
“Quem mais te faz rir? Quem você acha que é a pessoa mais engraçada?” Acho que nunca ouvi alguém responder o nome de um amigo, nem eu mesma. Como não? Ao revisitar momentos de muitas risadas e falta de ar, nenhum grande nome da comédia sobe ao pódio; pelo menos não ao meu.
A pessoa que mais me fez rir durante todo o meu ensino fundamental e médio não foi o Fábio Porchat (apesar de eu ser fã e acompanhá-lo muito na época), mas um amigo chamado Nathan. Lembro de uma vez em que, literalmente, fiz xixi nas calças de tanto rir com ele. Nesse mesmo dia, fui expulsa da sala; eu ria tanto que atrapalhava a aula.
Ele foi o meu comediante do ensino fundamental e médio. Sem contar tantas outras figuras da escola que me arrancaram gargalhadas inesquecíveis.
Hoje, com os amigos que herdei da faculdade, rir se tornou a única certeza quando estamos juntos. E é justamente por isso que acredito que o riso desperta na gente um tipo muito específico de saudade: a saudade da gargalhada que só existe ao lado dos nossos. Diariamente, sinto falta do meu riso quando estou longe dos meus amigos; porque existem versões da nossa felicidade que só determinadas pessoas conseguem arrancar de nós.
Parafraseando a comediante Mônica Martelli, em entrevista para a CNN Brasil: o riso te expande, muda a sua energia. Você dá uma gargalhada e, ao final, está transformada.
E rir, genuinamente rir, com os nossos amigos é quase um processo de revitalização da alma, de cura. É revigorar quem somos. É lembrar da nossa essência. É a capacidade profundamente humana de compartilhar a existência e o pertencimento.
O riso é quase como um afeto social. O riso mais verdadeiro não nasce de um roteiro, mas da intimidade.
Nossos amigos conhecem nossos códigos, nossas vergonhas, nossos exageros, nossas histórias. O humor entre amigos nasce de algo profundamente humano. Profundamente próprio do homem.
A ideia de que o riso é uma das características mais genuinamente humanas atravessa séculos da filosofia.
Isidoro de Sevilha, bispo, teólogo e enciclopedista espanhol, em sua teoria antropofilosófica do homo risu capax (o homem como ser capaz de rir), presente em sua principal obra, Etimologias, ressalta: “Incorporamos [ao homem], por fim, algo que lhe é exclusivo: sua capacidade de rir, já que o riso só é próprio do homem.”
A teoria do homo risu capax tem origem em reflexões atribuídas a Pitágoras de Samos (570 a.C.–490 a.C.). Segundo Jâmblico (245–325), ao interpretar o pensamento pitagórico, rir é aquilo que diferencia o homem dos demais seres vivos. O riso seria, portanto, não apenas uma reação espontânea, mas um traço essencial da condição humana.
Já Aristóteles (384 a.C.–322 a.C.) reforça essa percepção em Das Partes dos Animais, ao afirmar que o ser humano é o único animal capaz de rir. Mais do que uma simples observação biológica, a afirmação aristotélica revela uma dimensão profundamente social e afetiva do riso: ele nasce da sensibilidade, da percepção e, sobretudo, da convivência.
Quando Isidoro de Sevilha afirma que “o riso só é próprio do homem”, ele ajuda a compreender que rir talvez seja uma das maneiras mais sinceras de existir coletivamente. Afinal, as melhores risadas quase nunca acontecem sozinhas.
Se rir é uma exclusividade humana, então as pessoas que nos fazem rir participam diretamente da construção da nossa humanidade. Elas não apenas divertem; elas nos expandem, nos aliviam, nos ajudam a existir.







