Viver em Vitória há mais de duas décadas me ensinou muito sobre raízes. Daqui, entre o cheiro do café e o corre-corre do dia a dia, observo o tempo passar de um jeito muito particular. Hoje, ao olhar para minha filha de 18 anos, percebo que habitamos mundos que, embora compartilhem o mesmo teto, vibram em frequências diferentes. Ser artesã me dá essa perspectiva do “fazer manual”, enquanto ela navega na velocidade do digital.
O que melhorou: A voz e o horizonte
Não há como negar que o mundo se abriu para ela. Aos 18 anos, minha filha tem acesso a informações que eu levaria meses para descobrir na sua idade. A facilidade de aprendizado e a liberdade para expressar sua individualidade são conquistas maravilhosas. Ela questiona, busca propósito e tem uma consciência sobre o mundo e sobre si mesma que a minha geração demorou muito mais para amadurecer. A moda hoje é mais livre, o acesso às artes é imediato e as fronteiras parecem não existir.
O que mudou: O ritmo da presença
A maior mudança que sinto está na aceleração do tempo. Na minha época, a espera era parte do encanto. Esperar as fotos revelarem, esperar o café passar, esperar a visita chegar. Hoje, tudo é instantâneo. A conexão é constante, mas, às vezes, sinto que essa “hiperconexão” rouba um pouco do silêncio necessário para a reflexão. O “estar presente” mudou de significado; muitas vezes estamos no mesmo sofá, mas em mundos digitais distintos.
O que faz falta: O valor da pausa e do processo
Sinto falta do tempo do processo. Como artesã, sei que um amigurumi ou uma peça de crochê não nasce num clique; cada ponto exige paciência e presença. Sinto que essa nova geração, por ser tão imediata, às vezes perde a doçura de ver algo ser construído lentamente. Faz falta aquele ócio criativo onde a gente simplesmente observava o movimento da vida, as artes da casa e os detalhes fofos do dia a dia sem a necessidade de postar ou registrar tudo.
Resgatando o que é Essencial
Acredito que o caminho para unir nossas tradições à modernidade dela passa pelo afeto. Existem coisas que a tecnologia não substitui, e é nosso papel como mães e guardiãs do lar trazer isso de volta:
A Mesa Posta e a Partilha: O momento das refeições, sem celulares, é onde a família se fortalece. É o lugar de contar histórias, rir com os amigos que são nossa família escolhida e reforçar nossos valores cristãos através da convivência.
O Trabalho Manual como Terapia: Incentivar o contato com as artes e as manualidades. Ensinar que criar algo com as mãos é uma forma de expressar amor e cuidar do lar. Isso ajuda a acalmar a ansiedade e focar no “aqui e agora”.
A Curadoria do Lar: Mostrar que a decoração da casa não é sobre tendências, mas sobre memórias. Um porta-retrato, uma caneca de café especial, um objeto que pertenceu à avó… são esses fios que tecem a nossa identidade.
O Cuidado com a Vida: Envolver a nova geração no cuidado com os animais e com as pequenas coisas. Isso gera responsabilidade, empatia e senso de cuidado.
Ao final do dia, entre uma xícara de café e um ponto de crochê, percebo que o segredo não é lutar contra a tecnologia, mas usá-la como moldura para o que realmente importa: a nossa fé, o amor que transborda em cada detalhe da casa e a certeza de que as tradições de família são as borboletas que colorem o jardim da nossa alma, não importa a geração.






