Adeus a um gigante: morre Paulo De Paula, mestre do teatro capixaba

Ator, diretor e fundador do Teatro da Barra deixa legado histórico nas artes cênicas do Espírito Santo e uma vida dedicada à cultura

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Dizem que o teatro é a arte do efêmero, aquilo que morre assim que a cortina se fecha. Mas, se para Lacan, o desejo é o que nos move, e o desejo de Paulo De Paula era, claramente, o de permanecer. Tem gente que passa pela vida. E tem gente que constrói um palco inteiro nela. Paulo De Paula foi desses. No último dia 14 de maio, o “diretor-geral” do universo resolveu pedir um bis e Paulo, aos 94 anos, atendeu ao chamado, e, como diriam os mais íntimos, saiu de cena sem apagar a luz. Porque artista de verdade nunca vai embora por completo, ele só troca de palco.

A notícia da morte do ator e diretor capixaba reverberou como um silêncio pesado após um grande espetáculo. Daqueles que ninguém quer levantar da cadeira, sabe? Segundo familiares, Paulo passou por uma cirurgia, mas não resistiu. A coincidência tocante é que a data marca também o quinto ano da morte de sua filha, Lillian. Coincidência ou roteiro escrito por algum dramaturgo cósmico? Fica a reflexão.

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Um menino que nunca saiu de cena

Nascido em Ipanema (MG), em 1932, e criado no Espírito Santo desde os primeiros meses de vida, Paulo começou cedo. Bem cedo mesmo. Aos quatro anos já estava no palco. Enquanto outras crianças brincavam de esconde-esconde, ele já brincava de interpretar a vida.

Formado em Comunicação e Expressão, com especialização em direção teatral, ele também mergulhou fundo na pesquisa acadêmica. Seu mestrado sobre o teatro cubano no exílio mostra que sua inquietação ia além das cortinas.

E não parou por aí. Atuou, dirigiu, escreveu. Teatro, cinema, televisão. Se tinha palco, ele estava lá. Entre seus trabalhos estão peças como “Anchieta: Depoimento” e “Auto dos Reis à procura do Rei”, além de participações em filmes como “Passo a Passo com as Estrelas”.

Paulo De Paula, nos anos 50, foi para os Estados Unidos e se casou no programa Bride and Groom. Ele foi o pioneiro do reality show antes mesmo da televisão brasileira saber o que era um “paredão”. Isso revela a faceta curiosa e cosmopolita do nosso crítico e diretor. Ele transitava entre o regionalismo profundo do congo e a vanguarda internacional. Paulo usou o tablado do mundo. Ensinou idiomas, ensinou teatro, dirigiu cinema e ainda teve tempo de ser um “gentleman” (como disse atriz Verônica Gomes em um comentário).

 

O guardião da memória teatral capixaba

Se o teatro capixaba tivesse um coração físico, provavelmente bateria na Barra do Jucu. Foi lá que Paulo fundou o Grupo Teatro da Barra, em 1974. Mais do que um espaço de ensaio, o local virou um verdadeiro santuário cultural.

O acervo do grupo, com documentos que atravessam décadas, é hoje uma das principais fontes de pesquisa sobre a história do teatro no Espírito Santo. Um verdadeiro “HD emocional” antes da nuvem existir.

Paulo também foi secretário da Confederação Nacional de Teatro e da Federação Capixaba de Teatro, contribuindo ativamente para a estruturação da cena artística local.

Em 2013, recebeu a Comenda Rubem Braga, reconhecimento do Governo do Estado por sua contribuição cultural. Um prêmio justo para quem fez da arte sua missão de vida.

 

Um legado que não fecha as cortinas

A comoção entre artistas foi imediata. O diretor Wyller Villaças afirmou que “Paulo é, sem dúvidas, o nome mais importante do teatro no Espírito Santo”. O ator e escritor Duillio Kuster Cid diz “Grande mestre…. Formador de toda uma geração de teatro”. Já o ator e cenógrafo, Dudu Guimarães destacou: “Perder Paulo é como perder parte da memória do nosso teatro”.

E talvez seja isso mesmo. Alguns artistas deixam obras. Outros deixam escolas. Paulo deixou gerações.

Paulo de Paula não era só artista. Era formador, provocador, articulador cultural. Um daqueles raros nomes que fazem a arte acontecer mesmo quando falta dinheiro, palco ou plateia. Porque, no fim, a arte e o espetáculo sempre foram maiores que qualquer obstáculo.

Seu legado permanece vivo, não só no Teatro da Barra, mas tambem nos alunos que formou, nos artistas que inspirou e nas histórias que ainda serão contadas por gerações.

E se existe mesmo um palco do outro lado, dá pra imaginar ele chegando, ajustando a luz e dizendo: “Vamos ensaiar”. Porque artista assim não descansa. Ele só muda de ato.

 

Viva Paulo de Paula. Viva ao Teatro da Barra!

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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