“A tirania da melhor versão nos aprisiona em ideais inalcançáveis; a verdadeira liberdade está em aceitar o movimento imperfeito da alma que insiste em avançar.”
Essa ideia provoca reflexão: em vez de perseguirmos uma versão idealizada e rígida de nós mesmos, podemos valorizar o processo, o caminho e a autenticidade do nosso crescimento.
Será que podemos viver sem sucumbir a tirania obcecada da melhor versão?
Será que conseguimos superar, encarar e ressignificar essa obsessão?
Esta busca desesperada e desenfreada na melhor versão tem nos levado para os braços do hedonismo inesgotável?
Como seres humanos devemos abandonar a ambição ou aceitar a mediocridade?
É possível imaginar uma existência que desfruta do lúdico e do lazer sem culpa valorizando a iniciativa, a criatividade, a responsabilidade e a produtividade, não seu potencial do conhecimento adquirido, midiático e mercadológico?
Como fazer o nosso melhor, sem que este melhor seja perfeito, cheio de excelência e qualificação? Aliás, o que é perfeito?
SEJA VOCÊ MESMO (A), diz o ser humano comportamental psíquico pós-moderno. Uma rigidez e crítica impiedosa de si mesmo. Cobrando-se mais do que é capaz de dar, ou se recriminando por não ter feito (ou por não conseguir fazer) alguma coisa. Pessoas que exageram e hiper dimensionam emoções negativas, como raiva ou a tristeza que nascem na frustração. Dessa forma, são possíveis um bloqueio e uma estagnação por conta da resistência em aceitar a realidade.
Por esta razão, o desafio de consumir-se a si mesmo sucumbiu à força do genérico e sem identidade. Sequestrado e violentado pela força do objeto que lhe faz ter para ser importante e melhor. Um padrão comportamental psíquico assintomático e inatingível. Uma ditadura da emoção. A lógica da otimização diante da síndrome fantástica e fantasmática da obsessão pela perfeição.
A melhor versão de si mesmo, neste tempo, tem sido uma fonte inesgotável, subjetiva irritante e objetiva inquietante de incertezas, dúvidas, insatisfações, ansiedades, angústias, tristeza profunda, pensamentos acelerados, memórias infelizes e mesmice exacerbada.
O ser humano está em busca distorcida, deformada, desenfreada e desesperada da otimização de seus “sistemas” e “engrenagens”, como consequência, perdendo a capacidade de empatia, compaixão, pensamento crítico, prático e ético. Seu existir no tempo, estar na vida e ser no mundo estão comprometidos. O ser humano tenta se reinventar e cada vez mais está vulnerável.
Na pós-modernidade, a obsessão pela qualificação, excelência e perfeição está simbioticamente enraizada no ser, em suas relações sociais, nas instituições e no modo de ver e conceber o sucesso e a importância do ser humano.
PERFIS ESCRAVIZADORES
Uma mentalidade perfeccionista traz estresse e só pode levar ao descontentamento, tirania, escravidão e frustração. O perfeccionismo frequentemente envolve elevar as expectativas pessoais a alturas absurdas e lutar em nossos próprios esforços por algo que somente Deus pode realizar.
Marta, que estava “inquieta e preocupada com muitas coisas”, provavelmente enfrentou o perfeccionismo enquanto servia ao Senhor (Lucas 10:40-41). Enquanto preparava o jantar e arrumava a mesa, ela queria que tudo estivesse correto. O problema era que ela estava estabelecendo um padrão mais alto para si mesma do que Jesus estava estabelecendo para ela. “Pouco é necessário ou mesmo uma só coisa”, Jesus disse a ela. Então Ele apontou para o exemplo de paz e descanso de Maria (mas uma só é necessária; e Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada.), (Lucas 10:42).
PERFIS
- O fake do “faz o que gostas” – Uma expressão tirânica e escravizadora. Uma obsessão subjetiva irritante potencialmente prejudicial que impede o ser humano de desenvolver uma relação mais saudável e equilibrada com o labor em si. A ideia de “faça o que gosta” parece libertadora, mas pode ser uma armadilha quando vendida como regra absoluta. Em vez de perseguir cegamente o “faça o que gosta”, talvez seja mais saudável pensar em “faça o que tem sentido” ou “faça o que permite avançar”, porque o movimento da alma não depende apenas de prazer, mas de significado, crescimento e liberdade.
- O mito do “super” – O perfeito, o visionário, o capaz de inspirar, motivar e equipar-se visando o impossível. Um conceito mitológico e contraproducente do ser humano. Ou seja, o Super humano, profissional, superprodutivo ou Super feliz, é sedutor, mas também perigoso. Ele cria uma narrativa de perfeição inalcançável que cobra caro em termos de saúde mental e autenticidade. O mito do Super nos convence que só vale quem excede; mas é no humano imperfeito que a alma encontra espaço para se mover.
- A robotização do automático e tecnológico. A revolução cibernética da artificialidade sem sentimento e sem coração com a lógica digital do positivismo (é preciso de ordem para progredir), do hedonismo e do relativismo exagerado que falsificam a liberdade (libertinagem e licenciosidade), onde tudo é permitido. O perigo da robotização do automático, digital e tecnológico está em transformar o humano em extensão da máquina, apagando nuances da vida real. O risco da robotização é esquecer que a alma não é programável; ela precisa de movimento, pausa e presença.
O RETORNO AO SER
Somos um ser, num constante vir a ser, num constante tornar-se. Somos um ser em descoberta.
- Introjetados pela castração.
- Neuróticos pela busca de sucedâneos compensatórios que preencham a falta.
- Sofredores pelo suposto saber.
- Desordenados pela queixa.
- Exploradores da verdade e reconstrutores de si. Com possibilidades, oportunidades de escolhas, ações e poder transformador.
PORTANTO, o retorno ao ser é a mais fantástica e mística viagem do ser (autoconhecimento). Esta viagem em aventura de autodescobrimento e autotranscendência é sobre tudo que existe e tudo que você percebe através dos 05 (cinco) órgãos dos sentidos e da imaginação. Assim:
- O ser pode desfrutar do pode ser e viver a expressão mais autêntica do ser.
- O ser em sua versatilidade X o ser em sua individualidade (protagonismo, singularidade e assertividade), podem coexistir juntos.
- O ser que não deve ser apenas o outro do ente e ficar no esquecimento.
CONCLUSÃO
A verdadeira excelência e qualificação do ser, não está no ser perfeito. Quem é normal? Machado de Assis no seu livro O Alienista afirma: “De médico e louco, todo mundo tem um pouco. ”
Somos e podemos ser com clareza, transparência a realidade autêntica, imperfeita e maravilhosa como humanos. Sabemos chorar, calar, falar e ouvir. Temos capacidade de aprender, crescer, amadurecer e contribuir significativamente para o mundo ao nosso redor.
Podemos e precisamos desconstruir estigmas e paradigmas da obsessão pela perfeição que traz uma subjetividade irritante e a tirania da melhor versão. Onde o sucesso é medido pelo ter ou por tudo que alcançamos e conquistamos. Precisamos ser quem somos e como somos, humanos concebidos para a melhora e a maturidade em Cristo, por meio Dele e através Dele. – Cl 4:12b, Ef 4:14a 15b. Sem Ele nada podemos fazer!
Não há uma “Receita de bolo” ou uma fórmula “mágica” ou “pré-fabricada”. Mas, sim um processo contínuo de aprendizagem e desenvolvimento (Fp 1:6), reflexão e determinação prática. Um processo possível que respeita a complexidade dos “tempos trabalhosos” (I Tm 3:1) e honra a profundidade da experiência humana.
Um excelente e extraordinário desafio. Imobilismo e quadro estático não existem. Portanto, nos movamos da imaginação para a criação.
Somos um ser no mundo, ser ao mundo que existe no tempo e está na vida em movimento. Um ser que se permite avançar, não como quem corre atrás de uma meta rígida, mas como quem se abre ao fluxo da existência, deixando que cada passo revele novas possibilidades.
Essa ideia valoriza o ser em processo, em constante transformação, sem a tirania da perfeição ou da pressa. É o convite para viver o presente como movimento, onde o avanço não é obrigação, mas permissão.







