Mulher no volante, julgamento constante

Outro dia, parada no trânsito, me deparei com uma cena que não era nova, mas ainda assim me atravessou. Um carro à minha frente carregava aquele aviso colado no vidro traseiro: “motorista recém-habilitada, tenha paciência”.

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Não era só um pedido de cuidado. Era quase um pedido de desculpa por existir ali.

Fiquei olhando aquilo e pensando em quantas vezes nós, mulheres, fazemos exatamente isso, colocamos uma plaquinha invisível na testa antes mesmo de dar qualquer passo. Tenha paciência. Desculpa qualquer coisa. Eu estou aprendendo. Como se a gente precisasse suavizar a própria presença no mundo, avisar antes que não somos ameaça, que não vamos atrapalhar, que, por favor, não nos julguem tão rápido.

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E nem é só no volante.

A gente se justifica quando fala alto demais, quando fala de menos, quando ocupa espaço, quando decide não ocupar. Se explica por não querer filhos, por querer filhos, por priorizar a carreira, por largar tudo. Se antecipa ao erro como quem pede perdão por algo que nem aconteceu. Porque, no fundo, fomos ensinadas a não incomodar.

E dirigir, curiosamente, é um dos lugares onde isso fica mais escancarado. O velho ditado popular “mulher no volante, perigo constante” não é só uma piada ruim. É um lembrete de que estamos sob observação. De que qualquer falha nossa não será só nossa: será coletiva, será prova, será estatística inventada.

Isso pesa.

Eu mesma sempre tive muito medo de dirigir. Mas não era só medo da rua, dos carros, da velocidade. Era medo do olhar do outro. Da buzina impaciente que parece dizer: eu já sabia. Era como se, ao volante, eu não pudesse simplesmente ser iniciante, eu representava um grupo inteiro.

E não sou só eu.

Mulheres da minha família e amigas carregam esse mesmo receio, essa mesma tensão silenciosa. Como se, ao segurar o volante, seguramos também uma expectativa antiga: de errar menos, de provar mais, de justificar sempre. Como se nenhuma de nós tivesse o direito simples de aprender no próprio tempo.

E, curiosamente, dentro da mesma família, a régua nunca foi a mesma.

Meu irmão, por exemplo, com 11 anos, já sabia dirigir. Eu só fui tirar carteira com 21. Não era sobre capacidade. Era sobre autorização.

Para eles, o volante chega como extensão natural do corpo. Para nós, como conquista, e, ainda assim, sob suspeita.

Mas tem uma coisa que quase não se conta: o que acontece depois que a gente atravessa o medo.

O que mais me alegra é que, quando eu perdi o medo da direção e me tornei uma motorista segura, eu ganhei gosto. E hoje, eu adoro dirigir. Aliás, uma das coisas que mais me dão prazer é dirigir sozinha, ouvindo música, sendo eu ali com meus pensamentos. Indo para lugares que eu escolho ir. Seguindo normas que são iguais para todo mundo: mulheres, homens, pedestres, motoristas.

Na direção, finalmente, existe uma regra que não pede justificativa.

E talvez seja por isso que dirigir tenha deixado de ser só um medo e tenha virado um espaço de liberdade.

Outro dia, minha mãe estava comigo no carro. Para ela, dirigir sempre foi um lugar de insegurança, ainda é, de certa forma. Mesmo assim, aos 75 anos, ela segue dirigindo. Isso, por si só, já diz muito.

Precisei fazer uma manobra apertada para estacionar. Dessas que exigem calma, precisão, presença. Ela ficou me olhando, atenta. Quando terminei, disse, quase orgulhosa:

— Você é uma ótima motorista… a quem você puxou, será?

Aquilo me atravessou de um jeito diferente. Porque ali não tinha uma linhagem óbvia. Meu pai não dirige. Minha mãe começou tarde, entre medos e insistências. Não havia exatamente um “de quem herdar”.

E talvez por isso a resposta tenha vindo tão simples quanto inteira:

— Acho que puxei a mim mesma. Eu me descobri dirigindo.

E talvez seja isso que a gente vá esquecendo no meio de tantas justificativas: que nem tudo precisa vir de fora.

Que tem coisas que nascem quando a gente insiste, atravessa o medo, ocupa o lugar mesmo tremendo, e fica.

Talvez esteja na hora da gente experimentar isso fora do carro também.

Viver sem aviso. Falar sem prefácio. Existir sem rodapé explicativo.

Errar como quem tem o direito de estar aprendendo, e não como quem está prestes a ser desmascarada.

Porque a verdade é que a gente não nasceu para pedir desculpa por ocupar espaço.

E, com o tempo, talvez a única placa que valha a pena carregar seja aquela que não se vê, mas que sustenta tudo:

“Em processo, mas, dessa vez, por escolha própria”.

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

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