Festa da Penha: Até onde a identidade que o estado projeta de si consegue incluir a diversidade de fé, corpos e territórios que o constroem?

O chão da Prainha, em Vila Velha, guarda uma memória que as placas oficiais não narram. Muito antes de ser porto, aquele solo já sentia o peso dos passos de quem buscava sentido para a vida. No balanço das bandeiras e no suor que se mistura ao incenso, o Espírito Santo ensaia sua maior coreografia de pertencimento. A Festa da Penha é o ponto de encontro que suspende as distâncias entre o litoral e o interior, entre as luzes da capital e a poeira das estradas de terra. É o momento em que o corpo capixaba se desloca, fazendo da cidade um texto vivo de reencontros.

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Essa conexão revela um povo feito de travessias. O romeiro que desce de Afonso Cláudio ou de Ecoporanga traz uma visão de mundo que, ao encontrar o urbano, redefine o que é ser daqui. É nessa mistura de sotaques e histórias que a identidade local se atualiza, revelando um território que se reconhece no movimento de caminhar em direção ao mesmo morro.

O reconhecimento dessa festividade como manifestação da cultura nacional pela Lei nº 15.362, de 27 de março de 2026, é um gesto que altera a importância do estado no cenário nacional. Sair da margem para o centro do inventário do país é um passo firme na defesa da dignidade e identidade local. Foram necessários mais de 400 anos para que esse selo oficial fosse concedido a uma tradição que remonta ao século XVI.

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Contudo, como quem lê o mundo através das fissuras, percebo que essa oficialização coloca a sociedade diante de um espelho incômodo. Se o Estado agora confirma essa manifestação como o “rosto” do Espírito Santo, é preciso perguntar: quais outras faces continuam empurradas para o silêncio? A identidade é um campo de disputa. Enquanto uma fé ganha leis, outras experiências — de matrizes africanas, indígenas, expressões evangélicas periféricas, as vivências camponesas, os corpos dissidentes — seguem produzindo identidade sem o direito de dizer o que ela é.

Afinal, a identidade não se produz apenas no silêncio das preces; ela explode na vibração do couro. Quando as bandas de congo iniciam a subida da ladeira, o que vemos não é um “anexo” cultural da fé católica, mas uma tecnologia social de resistência. A casaca dá ritmo à alma desse povo. É a presença ancestral reivindicando seu direito de existir em um espaço marcado pela herança colonial. Se o Convento é a sentinela de pedra, o Congo é o rio que corre por baixo, lembrando que o que define este lugar é feito de memórias que nem sempre coincidem com as versões oficiais.

A “capixabidade” não pode ser uma mordaça. Uma identidade robusta reconhece que o sagrado do outro, mesmo fora dos holofotes, sustenta a estrutura da existência coletiva neste chão. Ao fim da romaria, quando os tambores calam e a rotina volta, resta a certeza de que a memória é uma escolha. A escrita, como o toque do tambor, é um gesto de escuta das camadas profundas. A festa une oficialmente, mas a história real é escrita no entrelugar: entre o sino na torre e o tambor na baixada, entre a proteção da “Iaiá” e a construção de um lugar onde todos possam ser “capixaba”.

Se a Festa da Penha agora é patrimônio de todos, quem ainda permanece órfão de reconhecimento nos mapas que desenhamos para dizer quem somos?

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Aingrid Fabiane de Souza
É geógrafa, musicista, compositora e escritora, bacharela em Música com ênfase em trilhas para cinema. Atua no Bloco Coisas de Negres como coordenadora musical, cantora e violonista, e integra a Independentes de Boa Vista como ritmista, com trajetória como diretora de ala e autora de enredo. Na Geografia, pesquisa território, disputas de memória e territórios negros; na Música, investiga paisagem sonora, som para cinema e música popular.
Identidades
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Este caderno especial é um espaço de vozes. O Capixaba abre suas páginas para autores externos expressarem suas opiniões e análises sobre as lutas que moldam nosso tempo. Aqui, as lutas por dignidade e justiça ganham nome, rosto e história. Um canal para o debate vivo e necessário. Os textos publicados nesta seção são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do jornal.

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