Festival de Guaçuí denuncia abandono do Estado e luta para não desaparecer

Festival de Teatro de Guaçuí denuncia falta de apoio e acende alerta para o futuro da cultura no ES: Após 25 anos de história, um dos mais tradicionais eventos de artes cênicas do Espírito Santo afirma enfrentar dificuldades crescentes para sobreviver sem políticas públicas voltadas a festivais consolidados

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Imagine organizar uma festa que reúne gente de vários estados, movimenta a economia local, atrai turistas, forma público, fortalece artistas e ainda sobrevive por mais de duas décadas. Agora imagine fazer isso quase todos os anos sem saber se haverá dinheiro suficiente para pagar as contas. Parece roteiro de tragicomédia, mas é a realidade vivida por muitos festivais culturais brasileiros.

No sul do Espírito Santo, um dos festivais de teatro mais longevos do Estado está em risco. O Grupo Teatral Gota, Pó e Poeira, criador e coordenador do Festival Nacional de Teatro de Guaçuí, publicou nota pública de repúdio à Secretaria de Estado da Cultura (Secult-ES), denunciando o abandono sistemático de festivais com trajetória consolidada nas políticas culturais do Estado, especialmente pela ausência de mecanismos específicos voltados para festivais com um percurso consolidado.

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O posicionamento repercutiu entre artistas, produtores culturais e grupos teatrais capixabas, reacendendo um debate antigo: como garantir a sobrevivência de eventos culturais históricos em um cenário onde os recursos públicos nem sempre alcançam quem já comprovou sua relevância?

Veja a nota completa:

NOTA DE REPÚDIO
O Festival Nacional de Teatro de Guaçuí nasceu há quase 26 anos, e veio como opção de fortalecer as artes cênicas no sul do Espírito Santo e implementar as atividades do Teatro Municipal Fernando Torres, inaugurado no ano de 2000. Foram 25 anos de realizações só interrompidas uma vez por conta da pandemia e mesmo assim foi feita uma transmissão comemorativa em seu canal na plataforma de streaming. Nesses anos muitas vezes contamos com o apoio de editais do Estado e em outras vezes só com recursos da municipalidade ou do próprio Gota, Pó e Poeira – como vai ser nesse ano de 2026.
Ao longo de 25 anos estivemos em luta solicitando ao Estado mecanismos de apoio para a realização do festival, quer seja por termo de fomento ou editais. Muitas foram as promessas, inclusive de algumas gestões de colocar os grandes festivais em lista de prioridades no calendário estadual. Vieram os editais da LPG e PNAB, e nada! Em uma reunião sobre os editais na Hurb+ na Praça Costa Pereira, em Vitória, solicitamos mais uma vez um edital para festivais e mostras, e para nossa surpresa ele veio, porém para uma nova cena, para eventos de zero a dois anos. Ficamos de fora do processo!
Mas tem a LICC – Lei de Incentivo à Cultura Capixaba, muitos vão dizer! No entanto, ela não ampara como deveria. No interior do Estado são poucas empresas com lucro real ou presumido; muitas têm resistência com relação ao incentivo ou desconhecem; e algumas empresas têm um limite pequeno de recursos autorizado pela Sefaz para disponibilizar, o que torna mais difícil atingir os 35% para realização do projeto. Outro agravante é que quando se consegue atingir essa captação, o orçamento do Estado já está esgotado com projetos bem maiores, como neste ano, e se deixa para o ano seguinte.
O Grupo Teatral Gota, Pó e Poeira – criador e coordenador do 26º Festival de Teatro de Guaçuí – vem a público manifestar seu REPÚDIO à Secult-ES, à política que segrega os eventos de trajetória e os coloca numa situação frágil para futuras realizações. Queremos uma política cultural de proteção aos festivais, respeitando e apoiando sua história como fomentador da cultura e das artes e facilitando o acesso aos recursos que lhe são de direito para que continue a elevar o nome de nosso Estado no campo das artes cênicas. Que esse apelo também chegue aos nossos futuros representantes ao Governo do Estado, nessa nova configuração para o ano de 2027, para que nosso Festival não desapareça como outros por falta de incentivos!

A nota de repúdio pede uma política cultural específica de proteção aos festivais de trajetória e dirige um apelo aos futuros representantes do Governo do Estado para a gestão 2027, “para que nosso Festival não desapareça como outros por falta de incentivos“. Essa nota de repúdio foi assinada pelos principais grupos teatrais do Espírito Santo, em apoio ao manifesto.

Signatários da nota

Gota, Pó e Poeira (Guaçuí)
Coletivo Du Beco (Vitória)
Anônimos de Teatro (Cachoeiro)
Circo Teatro Capixaba (Colatina)
Grupo Vira Lata (Vitória)
Cia Versáteis (Vila Velha)
Grupo Árvore (Vitória)
Grupo HB (Cariacica)
Imprópria Trupe (Serra)
Cia Euforia (Serra)
Assoc. Cultural Cadoz (Baixo Guandu)
Cia Teatral JC (Vitória)
Coletivo Mão Na Massa (Vila Velha)
Grupo HB de Teatro (Cariacica)
Centro Cultural Eliziario Rangel (Serra)

Criado no ano 2000, junto à inauguração do Teatro Municipal Fernando Torres, o Festival Nacional de Teatro de Guaçuí tornou-se uma das principais vitrines das artes cênicas no interior capixaba. Ao longo de sua trajetória, o evento recebeu companhias de diversos estados brasileiros, promoveu intercâmbio artístico, formação de público e ajudou a consolidar Guaçuí como referência cultural na região do Caparaó.

Segundo o diretor do grupo organizador, Carlos Ola, a luta por financiamento acompanha praticamente toda a história do festival.

“A nota vem de todo um processo de anos em busca de recursos para a realização do festival. Muitas edições foram realizadas sem apoio direto do Estado, contando com parcerias locais, colaboração dos grupos e apoio da Prefeitura de Guaçuí”, explicou Ola.

Mesmo quando havia acesso a editais, os recursos eram frequentemente insuficientes para cobrir os custos de um evento de grande porte.

O principal ponto de crítica apresentado pelos organizadores é a ausência de editais específicos para festivais já consolidados. De acordo com Carlos Ola, representantes da classe artística solicitaram diversas vezes a criação de uma linha de financiamento voltada a mostras e festivais tradicionais. Quando um edital para festivais finalmente surgiu, criado pela Secult-ES — via Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) —, a surpresa foi amarga: o recurso foi destinado apenas a mostras novas, com até dois anos de existência. A situação se agravou nos últimos anos.

Na prática, festivais históricos ficaram de fora. Outra dificuldade apontada é a Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC). Embora seja considerada uma importante ferramenta de fomento, sua aplicação encontra obstáculos para projetos realizados fora dos grandes centros econômicos. A alternativa oferecida, a Lei de Incentivo à Cultura Capixaba (LICC), também se mostrou insuficiente para o interior do Estado. Pouquíssimas empresas locais operam com lucro real ou presumido — base legal para usufruir do incentivo —, e mesmo quando a captação mínima de 35% é atingida, o orçamento da lei já costuma estar esgotado. Em 2026, o grupo conseguiu três termos de compromisso, mas foi informado de que os recursos já haviam sido destinados a outros projetos.

No interior, o número reduzido de empresas aptas a realizar aportes por incentivo fiscal dificulta a captação dos recursos mínimos necessários. Em alguns casos, mesmo após conseguir empresas parceiras, os produtores enfrentam outro problema: o esgotamento do orçamento disponível.

“Neste ano conseguimos três termos de compromisso, mas fomos informados de que o orçamento da lei já estava comprometido”, relatou o diretor Ola.

Apesar das dificuldades, o festival continua acontecendo. Mas isso tem um preço. Sem recursos suficientes, muitos grupos participantes deixam de receber ajuda de custo ou cachês. Algumas companhias acabam desistindo da participação por não conseguirem arcar com despesas de transporte, alimentação e hospedagem.

Em termos práticos, a escassez de recursos se traduz em ausência de cachês e ajudas de custo para os grupos participantes. Companhias de outros estados — algumas de oito diferentes por edição — frequentemente vêm por solidariedade ao festival, sem qualquer remuneração. O resultado é uma programação mais vulnerável a cancelamentos e limitações. Segundo a organização, uma edição padrão reúne entre 15 e 20 espetáculos durante sete dias, envolvendo companhias de aproximadamente oito estados brasileiros. O custo total gira em torno de R$ 200 mil, valor considerado modesto quando comparado ao impacto cultural e turístico gerado pelo evento.

Cultura também é desenvolvimento econômico. Mais do que eventos artísticos, os festivais de teatro desempenham um papel estratégico no desenvolvimento cultural e social das cidades. Essas iniciativas ampliam o acesso da população às artes cênicas, promovem o intercâmbio entre artistas e criam espaços para debates sobre temas relevantes da sociedade. Além de contribuir para a formação de público e o fortalecimento da produção teatral, os festivais também movimentam a economia local, gerando impacto em setores como hotelaria, transporte e alimentação.

Para o artista e diretor Wyller Villaças, do Grupo Casa da Árvore, a discussão ultrapassa os limites do setor cultural. Segundo ele, festivais movimentam cadeias produtivas inteiras, gerando renda para artistas, técnicos, produtores, comerciantes, hotéis, restaurantes e prestadores de serviços.

“Investir em festivais não é apenas apoiar eventos culturais. É fomentar desenvolvimento, educação, cidadania, economia criativa e qualidade de vida”, afirmou Wyller.

Villaças também destaca que os festivais funcionam como espaços de encontro e troca em uma época marcada pela crescente digitalização das relações humanas. Ele defende que os governos assumam um compromisso mais efetivo com os festivais culturais por meio de políticas públicas e investimentos permanentes. O diretor também critica o que considera uma falta de compreensão da classe política sobre a importância da arte. Na avaliação dele, quando a produção cultural não está associada ao lucro, seu valor para o bem-estar individual e coletivo acaba sendo subestimado.

“Os festivais são espaços de encontro, convivência e troca de experiências presenciais”, afirma villaças.

Em ano eleitoral, Villaças acredita que o momento é oportuno para que artistas e agentes culturais apresentem suas demandas e cobrem dos candidatos propostas concretas para garantir a continuidade e a expansão dos festivais culturais.

Um alerta para o futuro: A preocupação dos organizadores não se limita à edição atual. Carlos Ola admite que já considerou encerrar o festival após a celebração dos seus 25 anos, em 2025. O que mantém o evento de pé é a parceria com a Prefeitura de Guaçuí, que oferece infraestrutura, e a fidelidade de um público que vem de toda a região do Caparaó. O desgaste provocado pela busca permanente por financiamento e pela insegurança orçamentária tem levado diversos eventos culturais brasileiros a reduzir atividades ou desaparecer.

O Festival de Teatro de São Mateus, citado pelo diretor, é um exemplo frequentemente lembrado quando o assunto é a dificuldade de manter iniciativas culturais longe dos grandes centros. Enquanto isso, o Festival de Guaçuí continua resistindo graças ao apoio municipal, à fidelidade do público e ao comprometimento de grupos que seguem participando mesmo sem garantias financeiras.

Mas a pergunta que ecoa entre artistas e produtores permanece no ar: até quando? Num ano marcado pelo debate eleitoral e pela formulação de novos projetos de governo para 2027, o apelo dos realizadores vai além de um pedido de recursos. Trata-se de uma reivindicação por políticas culturais capazes de reconhecer o valor daquilo que já provou sua importância ao longo do tempo. Porque criar novos festivais é fundamental. Mantê-los vivos depois de 25 anos talvez seja ainda mais.

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