Para quem tem aversão a agulhas, passar por uma ressonância magnética com contraste, por exemplo, pode ser um martírio. No entanto, escutar música pode reduzir a dor no momento da instalação do acesso venoso (a cânula), indispensável para a realização do exame. A ressalva é que não serve qualquer canção: tem de ser a preferida do paciente.
A descoberta vem de um novo estudo realizado por pesquisadores do Hospital Universitário de Zurique, na Suíça, e divulgado no periódico científico Frontiers in Pain Research.
De que forma, então, esse efeito acontece?
Música e dor
Para o anestesiologista Plínio da Cunha Leal, diretor do Departamento Científico da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA), o resultado não é exatamente uma novidade. “A própria sensação de bem-estar que a música proporciona pode ser benéfica. Vários fatores podem estar associados a esse efeito”, afirma.
Conforme o médico, ao escutar música e praticar atividades de lazer em geral, o organismo produz substâncias como dopamina e serotonina, ligadas à melhora do humor e a um controle maior da dor.
Além de aliviar a dor, a música pode distrair o paciente do desconforto e da apreensão comuns em intervenções clínicas, acrescenta o médico. Segundo Cunha Leal, também se sabe que ela reduz a ansiedade e a depressão em pacientes submetidos à quimioterapia.
Além das canções
Cunha Leal lembra que existem outros recursos capazes de trazer alívio durante procedimentos médicos. Para crianças, uma alternativa é priorizar ambientes temáticos e lúdicos. Conforme o médico, salas decoradas e pintadas com super-heróis ou personagens infantis deixam o hospital menos intimidante.
Outra possibilidade é exibir vídeos em realidade virtual, pois isso pode desviar a atenção do paciente durante o exame. O uso pontual do celular ou de vídeos direcionados também pode servir como ferramenta de distração.
A pesquisa
Na pesquisa, os cientistas tocaram músicas para 204 pacientes que receberiam uma cânula intravenosa antes de uma ressonância magnética não emergencial de cérebro, coluna ou cabeça e pescoço.
Um quarto dos participantes formou o grupo de controle, que não escutou música. Os demais foram separados em três grupos: um ouviu a canção favorita; outro, uma faixa criada especificamente para relaxamento; e o terceiro, a Sonata KV448, de Mozart, à qual vários estudos atribuem propriedades terapêuticas.
“Das quatro condições que examinamos, apenas a música favorita e Mozart mostraram efeito positivo”, revelou Meritxell Garcia Alzamora, pesquisadora do Hospital Universitário de Zurique e autora sênior do artigo, em comunicado divulgado pela instituição.
“A música favorita apresentou efeito significativo de redução da dor tanto em pacientes com dor basal (que o paciente já sentia antes da punção com agulha) quanto sem ela. Mozart só mostrou alívio significativo da dor em pacientes com dor preexistente”, acrescentou.
Os participantes que escutaram a música favorita sentiram alívio tanto 30 segundos quanto dois minutos após a introdução da agulha. Entre os que já sentiam dor, a canção também ajudou no momento da picada. No caso de Mozart, o efeito apareceu somente dois minutos após a colocação da agulha. Os dados, porém, não permitem conclusões sobre essas diferenças.
Uma possibilidade, segundo os autores, é que o incômodo inicial tenha desviado a atenção das pessoas da música. Outra é que a música precise de um tempo para fazer efeito contra a dor.
Já os pacientes que ouviram a música de relaxamento ou não escutaram nada não apresentaram qualquer alteração na percepção da dor.
“Diante dos nossos resultados, vamos ampliar o uso de música em punções venosas realizadas para procedimentos radiológicos, especialmente em pacientes ansiosos ou claustrofóbicos”, afirmou Meritxell.







