O Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) conduz um projeto pioneiro de pesquisa focado no cultivo de lúpulo — ingrediente essencial para a fabricação de cervejas — no Espírito Santo. Instalado na Fazenda Experimental Mendes da Fonseca, vinculada ao Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação Serrano (CPDI Serrano), localizado em Domingos Martins, o estudo tem como propósito analisar o comportamento agronômico, fitoquímico e fitossanitário de diferentes variedades da planta cultivadas em áreas de altitude na região serrana capixaba.
Sob a coordenação da pesquisadora Alessandra de Lima Machado, do Incaper, o projeto teve início em outubro de 2025 e constitui o primeiro experimento científico da instituição com essa cultura no estado. Nesta fase inicial, estão sendo testadas as variedades Cascade, Comet e Chinook, amplamente utilizadas na produção de cervejas artesanais por suas propriedades de aroma e amargor.
“Nosso principal objetivo é identificar as variedades de lúpulo mais adaptadas às condições climáticas e de solo do Espírito Santo, além de produzir informações técnicas sobre manejo, produtividade, fitossanidade e qualidade química”, explica a especialista.
O lúpulo é uma planta perene de grande importância para a cadeia produtiva cervejeira. Suas flores femininas, denominadas cones, contêm glândulas de lupulina — estruturas ricas em compostos bioativos como alfa e beta-ácidos e óleos essenciais —, que são responsáveis por conferir aroma, sabor, amargor e estabilidade à bebida.
Embora o Brasil seja um protagonista na produção mundial de cerveja, praticamente todo o lúpulo consumido pela indústria nacional ainda é importado. Essa realidade tem estimulado investigações voltadas à adaptação da cultura às condições brasileiras, especialmente em regiões de clima tropical e subtropical.
“O cultivo de lúpulo no Brasil é algo relativamente novo, e enfrentamos muitos desafios no manejo da planta em condições tropicais, especialmente em relação ao fotoperíodo e à necessidade de suplementação luminosa. Por isso, é fundamental desenvolver pesquisas adaptadas à realidade de cada região”, ressalta a pesquisadora.
De acordo com Alessandra de Lima Machado, o avanço do mercado de cervejas artesanais e o interesse crescente de produtores rurais motivaram a criação do estudo no Espírito Santo.
“O estado possui um setor cervejeiro bastante ativo e ocupa a terceira posição no país em número de cervejarias artesanais por habitante. Isso gera uma demanda significativa por matérias-primas e abre caminhos para a diversificação da produção agrícola”, afirma.
Alternativa para a agricultura familiar e potencial para o agroturismo
Além de suprir a cadeia cervejeira, o lúpulo desponta como uma opção promissora para a agricultura familiar e para iniciativas ligadas ao agroturismo.
“Trata-se de uma cultura de alto valor agregado, que pode ser plantada em pequenas áreas e, em condições favoráveis, produzir mais de uma safra por ano. Isso possibilita otimizar o uso da propriedade e gerar novas fontes de renda no meio rural”, observa Alessandra.
O cultivo do lúpulo também atrai atenção pela estrutura característica da lavoura. Por ser uma planta trepadeira, necessita de sistemas de condução com treliças ou caramanchões que podem alcançar entre cinco e sete metros de altura, criando corredores verdes semelhantes a vinhedos verticais, um aspecto que também enriquece experiências ligadas ao turismo rural.
No experimento conduzido pelo Incaper, adota-se o sistema de condução em “V”, que otimiza a entrada de luz solar e a circulação de ar entre as plantas, contribuindo para maior produtividade e menor incidência de doenças. Essa estrutura também organiza o crescimento da cultura e facilita o manejo e a colheita dos cones.
As pesquisas avaliam tanto o desenvolvimento das plantas no campo quanto a qualidade química dos cones produzidos. Entre os aspectos analisados estão produtividade, manejo nutricional, fitossanidade, poda, adaptação das variedades e composição química voltada à produção cervejeira.
As análises laboratoriais são conduzidas em parceria com o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (Ifes) – Campus Venda Nova do Imigrante. O projeto conta ainda com apoio da Biohope, da Brazuca Lúpulos e de pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).
“Nosso objetivo é produzir conhecimento técnico que reduza os riscos para produtores interessados na cultura e auxilie na construção de uma cadeia produtiva do lúpulo no Espírito Santo”, destaca a pesquisadora.
A perspectiva é de que os resultados obtidos no futuro contribuam para fortalecer a produção rural, fomentar o turismo de experiência associado às cervejarias artesanais e impulsionar o desenvolvimento de produtos com identidade regional.
“Existe um potencial enorme para integrar produção agrícola, cerveja artesanal e agroturismo. Futuramente, isso pode até resultar em cervejas com o terroir capixaba”, conclui Alessandra de Lima Machado.






