Vi um post no Instagram sobre frases que nós, pessoas LGBTQIAPN+, escutamos muito na infância e adolescência.
Rolando as imagens do post para o lado e lendo as 20 frases ali listadas, eu gabaritei, infelizmente!
Fui transportado para um cenário que dói menos hoje, a ponto de eu poder descrevê-lo sem que as lágrimas caiam. Um cenário que trago às sessões de análise com certa frequência nestes últimos nove anos em que as sessões com psicólogos passaram a fazer parte da minha existência.
Foi na análise que encontrei em mim mesmo as ferramentas para suportar certos pesos e superar feridas ainda abertas.
Minha infância e adolescência em Barra de São Francisco foi de resistência para sobreviver aos diversos atentados homofóbicos que sofri, desde xingamentos a agressões físicas.
Eu era um garoto de família vulnerável, morava em um dos mais favelizados e esquecidos bairros da cidade, a “Vila Luciene”. Eu era alvo fácil! Sem familiares ricos e importantes, a cidade me virava as costas.
Por lá, fui expulso de lojas, tive que correr para me desvencilhar de pedradas (sim, estou falando no sentido literal) e tive que ter uma força extraordinária que, confesso, até hoje o desgaste que fiz para tê-la ainda não foi recuperado. Ainda sinto-me cansado do peso de ter vivido em um lugar tão hostil e cruel para pessoas LGBTQIAPN+.
Das coisas boas que extraí da minha infância e adolescência, uma foi a conexão muito forte com a minha mãe e alguns vizinhos e frequentadores da minha comunidade católica. Eles viam o meu fervor e dedicação, e isso me dava um certo lugar de conforto.
Era rezando para Santa Bárbara, ou acendendo velas para Maria e rezando o terço todas as quartas, que eu me reconfortava e organizava as minhas emoções e sentimentos.
Foi dentro de uma igreja que segue colocando a mim e à minha comunidade em um lugar de pecado que eu encontrei certa paz. Contraditório, né?
Sim, por ali minha sexualidade era velada e foram muitos os desafios para mantê-la em segredo. Eu temia muito perder o suporte daquela comunidade onde dezenas de pessoas, que viviam na mesma pobreza que eu, podiam confraternizar e, em união, sentir-se fortes.
Eu sempre gostei de música e dança, por isso cantava na igreja. Descobri cedo que, como dançarino, sou um ótimo cantor. Foi ali, em meio ao medo e à insegurança, que aprendi grande parte do que sei sobre canto.
Eram o canto, os ensaios, os cultos que eu dirigia e os salmos que cantava que me confortavam; entendi que não precisava estar ali o tempo todo para me conectar com o Divino. Mais tarde, a espiritualidade me conduziria a uma comunidade maior; enfim, eu teria a vitória em Vitória.
Apesar das muitas barreiras e preconceitos que sofri, Vitória foi a cidade que me permitiu crescer, ter espaço, estudar e me tornar o grande homem gay que sou.
Esse passado também me ensinou a ter olhar crítico e muito tato para as questões políticas. Na UFES me fiz geógrafo e mestre; lá entendi melhor as questões estruturais da minha terra.
Passei a lutar por cidades inclusivas e que sejam feitas para todos. Meu TCC, minha monografia de pós-graduação e minha dissertação de mestrado tiveram Barra de São Francisco como objeto de estudo.
Fui criticado por professores por escolher um local “irrelevante” do ponto de vista acadêmico, mas minhas propostas foram aceitas quando deixei claro que queria, de alguma forma, contribuir para um lugar que me fez tanto mal.
Nos tempos na cidade que me rejeitou, vivi a hipervigilância e a insegurança diariamente. Quanto mais eu tentava me adequar, me esconder e passar despercebido, mais a violência escalava.
Na adolescência me vi completamente só; os coordenadores e diretores das escolas, homofóbicos e despreparados, sempre “passavam pano” para os algozes.
Vi professora de Língua Portuguesa chamar pastor neopentecostal para fazer culto de exorcismo em horário de aula. Aquele dia foi pavoroso! Aquela mulher arrogante era chamada de “sargentona” e fez um inferno na escola. Era coordenadora e professora de Língua Portuguesa, e o Estado não via o desserviço que ela praticava. Certamente, hoje, ela seria banida dos cargos que ocupava.
No tal “culto”, quatro foram as palavras-chave: aids, “homossexualismo”, demônio e drogas. O tal pastor discorreu por duas horas que gays são “aidéticos”, têm pacto com o diabo e usam drogas. De repente, vi alguns colegas e eu virando alvo de bolinhas de papel.
Naquele dia começou uma caça às bruxas contra mim e meus colegas que tivessem o mínimo do que a sociedade coloca como “comportamento gay”.
Certa vez, um colega de classe e vizinho resolveu colocar seu hiperfoco homofóbico em mim; diariamente ele me insultava com frases como: “você e todo veado vai pro inferno”, “olha lá o veadinho”, “a mocinha”, etc.
Essa espécie de “mantra diabólico” quase diário me fez procurar a coordenação.
A coordenadora disse: “Ele não está errado, quem pratica o ‘homossexualismo’ vai para o inferno! Porém, você, Fabrício, jamais faria uma abominação dessas, porque você é um jovem abençoado. Quanto a você, fulano, nunca mais fale assim com o Fabrício.”
Eu era um aluno exemplar e católico dedicado, e essa coordenadora (não confunda com a tal do exorcismo; essa era bem católica e um pouco mais moderada nas atitudes) adorava me ver cantando salmos na Matriz. Essa “defesa” me resguardou por um tempo desse rapaz; porém, não tirou de mim o som da voz dela — uma mulher adulta e com autoridade fazendo uma validação de que homossexuais são rejeitados por Deus.
Os dogmas religiosos destroem o emocional de milhões de crianças e adolescentes no Brasil, e a laicidade do Estado é banalizada e desrespeitada. Mudou um pouco, mas bem pouco. O Brasil ainda insiste em dar voz a fanáticos, lunáticos e cretinos escondidos atrás de livros religiosos.
Hoje eu olho para os homofóbicos e tenho pena! São caricaturas, são pessoas deploráveis e vazias, que precisam se utilizar do ódio e da demonização dos mais vulneráveis para se sentirem superiores. Alimentam-se da dor alheia.
Por lá, na cidade que ainda tento superar, poucos foram os que valeram a pena e muitos foram os que tive que enfrentar e vencer. A gente até vence, mas o custo é alto! Porém, o karma dessas pessoas sempre chega e, a nós, resta o psicólogo e a luta diária para nos tornarmos minimamente respeitados e termos direitos CIVIS em uma sociedade que ainda insiste em acreditar que discurso de ódio é “liberdade de expressão”.
Se o Estado brasileiro tivesse que indenizar todos aqueles com quem falhou, a conta seria muito alta.
Os séculos de escravidão, os mortos nos porões da tortura das ditaduras, os milhares de homens e mulheres LGBTQIAPN+ mortos, feridos, desaparecidos ou ignorados.
As milhares de crianças trans que foram rejeitadas e sequer conseguiram atingir a maioridade.
O Brasil ainda é o país que mais mata mulheres cis e trans. De acordo com dados de 2025 do Observatório de Mortes Violentas do Grupo Gay da Bahia (GGB) e da ANTRA, o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIAPN+ no mundo, sendo uma morte a cada 34h.
Em meio a tantos esforços, ainda temos que ouvir piadas e suportar pessoas que minimizam a nossa dor.
Portanto: gays, lésbicas, trans… falem, escrevam, gritem e contribuam para que no futuro nenhuma criança, adolescente, jovem ou adulto passe pelo que nós passamos. A luta precisa ser diária. Vencer é cansativo, mas necessário! Portanto, unamo-nos!







