Tornar-se humano não é algo gravado naquilo que poderíamos chamar de “natureza humana”. A humanidade não é uma condição inata, um destino comum a todas as criaturas-pessoas, mas uma conquista difícil, um esforço contínuo sobre si mesmo, que avança e recua, mas jamais se encerra.
Humanizar-se significa ser capaz de amar, trabalhar e empregar a palavra como uma via de conexão integradora, capaz de suavizar os inevitáveis desamparos da existência.
Somos distintos dos animais, que nascem com seus instintos gravados e determinados. Um cavalo já nasce cavalo, um peixe já nasce para ser peixe. Apenas as pessoas nascem para se conectar com as palavras que traduzem seus sonhos.
Construímos nosso aparato linguístico na busca pela realização de sonhos e no enfrentamento de nossas frustrações, e, ao longo desse processo, nos tornamos mais ou menos capazes de nos humanizar.
A palavra que fere e a que integra
Criaturas desumanas, por outro lado, utilizam a palavra como uma arma, para desintegrar, ferir, segregar e dominar o próximo. A palavra pode curar, mas também pode machucar.
A desumanização é um mal silencioso, que pode crescer dentro de nós, sorrateiro como um câncer não detectado, e nos desvia rumo à regressão psíquica.
Em certos casos, direcionada a outros, é um processo perverso praticado por criaturas já desumanizadas que buscam privar o outro de seu status de dignidade, coisificando esse outro e se empenhando em reduzi-lo a mercadoria ou a uma subespécie.
Exemplos nítidos são a escravização de povos, os genocídios do passado e do presente, e os discursos sintomáticos da polarização violenta que afeta parte da política contemporânea.
Contudo, o que causa espanto é o processo pelo qual algumas criaturas se tornam desumanas por vontade própria, dedicando enorme esforço para agir contra si mesmas. Observar indivíduos que se engajam ativamente nesse processo desumanizador, que acarreta o abandono de um possível desenvolvimento psíquico, é sempre estarrecedor.
O custo psíquico de se desumanizar
Não é possível desumanizar-se sem renunciar ao contato com uma parte substancial da realidade e, nessa medida, sem sofrer uma boa dose de fragmentação mental e estreitamento cognitivo.
A criatura desumana pode não saber ou não reconhecer, mas é uma criatura limitada e em profundo sofrimento. Seu ódio é sofrimento. Sua palavra perdeu a capacidade de unificação e se transformou em palavra-coisa, palavra-míssil, que é lançada contra qualquer um que possua uma moral diferente da sua.
As guerras morais, tão frequentes em ano de eleição, são perigosas porque costumam usar as palavras como discursos, como testemunhas de uma suposta superioridade absoluta. E esses discursos eliminam o diálogo. Excluem a possibilidade de conversa e utilizam as palavras como projéteis contra qualquer divergência, mesmo as mais razoáveis.
A humanidade é fruto da linguagem, não uma natureza prévia. A humanidade é um destino trabalhoso que não está garantido, pois depende do uso edificante da palavra para que se possa empregar o esforço de transformar impulsos primitivos em sonhos compartilhados.
Portanto, diante de um novo período eleitoral que promete inúmeros convites à desumanização, é preciso lembrar que o que está em jogo, em um mundo polarizado, não é apenas quem será eleito, mas se vamos abdicar da nossa capacidade de nos humanizarmos.







