Perguntas que não cabem na cueca

Meu filho sempre foi desses que não engolem o mundo pronto. Desde muito cedo, ainda tropeçando nas palavras, ele tropeçava nas injustiças. Aos três anos, numa caminhada qualquer, me puxou pela mão e perguntou, com a naturalidade de quem pergunta por que o céu é azul:

Continua após a publicidade

— Mamãe, por que as pessoas que ficam na rua pedindo são de cor marrom?

Ali, naquele instante, entendi que a maternidade não vinha com manual, mas vinha com prova surpresa. Daquelas que não admitem resposta decorada. O mundo que pra mim já estava explicado, ainda que mal explicado, precisava ser desmontado e remontado em versão infantil, honesta e, principalmente, cuidadosa. Eu me reinventei muitas vezes desde então. Às vezes com palavras. Às vezes em silêncios. Muitas vezes dizendo “isso não é justo” antes de tentar explicar o porquê.

Continua após a publicidade

Numa manhã apressada de escola, eu me trocava no quarto quando ele, sentado na cama, observava o mundo como quem analisa um experimento. Foi quando lançou outra daquelas perguntas que não pedem licença:

— Mamãe, por que a cueca do homem cobre o bumbum todo e a da mulher deixa uma parte de fora? Isso não é desconfortável?

Meu primeiro impulso foi rir. Da pergunta, da lucidez, da obviedade. Quis dar um beijo grande nele, daqueles que misturam orgulho e espanto. Porque, convenhamos, ele tinha razão. Biologicamente, bunda é bunda. Não existe justificativa anatômica, evolutiva ou de sobrevivência da espécie que explique por que uma deve ficar inteira protegida e a outra estrategicamente exposta.

Enquanto ele aguardava a resposta, eu pensei em como explicar para uma criança algo que nós, adultos, muitas vezes aceitamos sem questionar. Como dizer que, desde cedo, o corpo das mulheres é treinado para “existir para fora”. Para ser visto. Avaliado. Desejado. Comercializado. Mesmo que isso custe conforto. Mesmo que não faça o menor sentido.

Respirei fundo e tentei traduzir o mundo sem dourar a pílula. Falei sobre costumes, sobre ideias antigas, sobre como algumas roupas não são feitas pensando no nosso bem-estar, mas no olhar do outro. Falei também que isso pode e deve ser questionado mesmo. Que sentir desconforto não é frescura. Que estranhar o que está posto é um tipo raro de inteligência.

Ele ouviu, pensou por alguns segundos e seguiu a vida. Como fazem as crianças quando o mundo ainda não conseguiu endurecê-las.

Eu fiquei ali, vestindo minha roupa, com a sensação de que, mais uma vez, era ele quem tinha me ensinado alguma coisa. Que talvez educar seja isso: tentar responder perguntas grandes demais, enquanto aprende, junto, a não aceitar respostas pequenas demais.

Continua após a publicidade
Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
25ºC
Máxima
25ºC
Mínima
20ºC
HOJE
05/05 - Ter
Amanhecer
05:58 am
Anoitecer
05:16 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
3.09 km/h

Média
23ºC
Máxima
25ºC
Mínima
21ºC
AMANHÃ
06/05 - Qua
Amanhecer
05:59 am
Anoitecer
05:16 pm
Chuva
0.24mm
Velocidade do Vento
4.26 km/h

Solidão, Alienação e Isolamento – como tornar útil e saber lidar?

Sidnei Vicente

Leia também