Crítica: Terra que acaba

O Fim do Mundo tem Plateia? Não sei, mas se tivesse uma trilha sonora oficial, esqueça as trombetas apocalípticas. Talvez ele soasse como um misto de silêncio profundo, num processo sensorial insistente e aquele suspiro coletivo de quem percebeu que esqueceu o ferro ligado (mas, no caso, o “ferro” pode ser o aquecimento global). É nesse clima, entre a poesia do desastre e o alerta urgente, que a Cia Teatro Urgente ocupou a Casa da Música Sônia Cabral com o espetáculo de distopia sensorial “Terra que Acaba”.

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Sabe aquela sensação de abrir o portal de notícias e não saber se o que você lê é um roteiro do “Black Mirror” ou de “Duna” ou apenas uma terça-feira comum no Brasil? Pois bem. Eu venho falando muito a cada semana sobre a “cultura do atraso”, mas, aqui, pela primeira vez em semanas, tudo começou exatamente no horário. E já fomos recebidos por projeções de notícias bizarras, cômicas e estranhas e, ao mesmo tempo, reais. Confesso que, como um bom amante de uma fofoca, me deixei levar por aquele universo, mas, só nos primeiros minutos… depois aquilo ficou massivo demais. A imersão inicial é poderosa, mas flerta com o cansaço ao nos manter tanto tempo mergulhados naquela “vibe” antes da ação propriamente dita.

Terra que Acaba | Foto: Daniel Bones

Somos apresentados a uma bela projeção em ambos os lados da parede do teatro, e ao centro o “ATO I”. Já adiantando, isso me ocorreu lindamente com algo do futuro, que é a “Quebra de Expectativa” (que eu tanto amo), pois na mente já está estabelecido que quando me aparece um Ato 1, provavelmente virá um Ato 2, e um 3 (começo, meio e fim). Mas, o Ato 1 dura praticamente dois terços da peça, e quando somos apresentados ao Ato 2, ele é curto e não tem mais Atos. E eu, que quando apareceu um Ato 2, já estava esperando mais meia hora de peça. Isso meus caros, é algo surpreendente e positivo, pois, a minha expectativa estava em um caminho e foi quebrada.

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Para entender a alma de “Terra que Acaba”, precisamos olhar para o espelho rachado que Samuel Beckett nos deixou no século XX. Se Beckett escreveu sobre o vazio após as grandes guerras, a Cia Teatro Urgente escreve sobre o vazio de um futuro que estamos devorando no café da manhã.

Quando o personagem de Marcelo Ferreira (que aqui batizarei carinhosamente de “Monge do Tempo”) surge em cena, a atmosfera muda. Há algo de Beckett ali, e não é pouco. Marcelo é para mim, sem dúvida, o nosso “Beckett Capixaba”. Para quem não sabe, Beckett foi o mestre do Teatro do Absurdo, aquele sujeito que nos ensinou que esperar por algo que nunca vem (alô, Godot!) é a definição da existência humana.

Em “Terra que Acaba”, o tempo não corre; ele se arrasta, se dilata, tal qual as geleiras que derretem (assunto que, inclusive, Freud explicaria como nossa negação coletiva diante da morte). Ferreira segura uma ampulheta. Eu, na plateia, me vi em um conflito neurótico: queria que a areia caísse para o sofrimento acabar, mas tinha um medo pavoroso de que, se ela caísse de vez, o mundo realmente desse tchau. Ao fundo, a iluminação em cone e a fumaça criavam figuras monstruosas, místicas na fumaça, não sei se foi a soma do sensorial com tudo, mas, meu inconsciente estava gritando coisas e essas imagens monstruosas, que me chamavam a atenção, como se figuras místicas apareciam durante a execução do tempo.

O personagem ali parece aos poucos “construir uma presença cênica”, numa experiência que acredito sem algo além de uma interpretação racional, porque ali não apenas entendi (eu achei que entendi) o que estava ocorrendo, mas a sonora, a luz e a forma que o personagem entra em cena, é emocionante… Assim como vemos em obras de arte em uma galeria, ou belas jogadas no futebol, vimos algo bonito, mas, que a primeira vista não conseguimos entender, mas, achamos belo e de alguma forma emocionalmente nos afeta. É como tentar explicar uma piada: perde a graça. O espetáculo é para ser sentido, e o sentido não é único.

A presença do “monge do tempo”, acredito que não é totalmente capturada porque desaparece quando tento analisá-la racionalmente, são tantos “sentidos” que não sei se o que senti está cero ou errado. Mas, me deixei levar, pensando que talvez seria menos decifrar, mais sentir; menos sentido, mais presença a emergir.

Sei que a peça foi inserida na Cultura do estranhamento, então, reações estranhas e adversas ao cotidiano, são algo proposto pela produção, o tempo dilatado das cenas, também pode ser uma proposta. Mas, o estranhamento não foi apenas impactante, na minha opinião, foi repetitivo e cansativo em algumas cenas. Em outras, ficaram muito dilatadas e repetitivas numa mesma situação, não só o áudio e as projeções do início, mas, também todas as cenas individuais ficaram muito longas. O “estranhamento” brechtiano é ótimo para nos fazer pensar, mas quando a cena se repete além da conta, o espectador começa a pensar se trancou o carro lá fora, se tirou a roupa do varal, ou você vê leves cochilos.

A presença e influência do vídeo na arte cênica faz reflexões sobre as relações do atuante cênico — na fronteira entre as artes ao vivo e mediada eletronicamente — e a composição em rede que se tornou essa manifestação artística contemporânea. O objetivo principal é aproximar as perspectivas de atuação e polissemia, considerando que ambas circundam a arte contemporânea e evidenciando a rede de criações que se cruza na imagem como conceito criativo tanto para o corpo quanto para o espaço da cena.

As inclusões dos filmes e projetos de Marcelo Ferreira e Magno Godoy são interessantes de misturar dança, teatro e cinema. Onde as simbologias se complementavam e víamos um contexto, nem tanto em cenas que só havia a projeção em vídeo, mas, bem fortes e impactantes em cenas que combinavam as projeções e as encenações.

O espetáculo se recusa a entregar o “be-a-bá” mastigadinho. Estamos falando de um espetáculo “performativo” (o que já ouvi algumas pessoas dizerem que é pós-dramático), que se baseia na ação e produção de arte visual e sensorial e na criação de signos, numa narrativa que não é fixa. Aqui, a hierarquia da história bonitinha morre para dar lugar ao caos organizado, onde o sentido não é único, ou fechado, ele escorrega e que o espectador tenha um olhar ativo, sempre se ajustando, as suas percepções e ações sensoriais. Em vez de contar uma história linear, o espetáculo aposta na fragmentação, na mistura de referências e na sobreposição de significados. A cena deixa de ser organizada de forma hierárquica e passa a ser caótica, aberta ao risco e ao inesperado. O foco não está no resultado final, mas no processo em si.. Não há palavras. E quer saber? Ainda bem. Como sempre digo nesta coluna: o corpo fala.

Terra que Acaba | Foto: Daniel Bones

Diferente do teatro tradicional, que busca criar ilusão e narrativa, o teatro performativo valoriza o jogo, o ato de mostrar e a experiência direta. A teatralidade, então, não é mais representar algo, mas colocar em jogo a própria presença das coisas, fazendo com que o que aparece em cena seja, por si só, o acontecimento. “Terra que acaba”, não conta, desmonta; não diz, faz sentir; não ilude, expõe; no jogo da cena, o sentido se recompõe.

A pesquisa cênica de Marcelo Ferreira com a Dança Butô é nítida. O Butô nasceu no Japão pós-guerra como a “dança das trevas”, focada no corpo que se contorce sob o peso do trauma. Quando as atrizes interpretam os “Seres da Floresta”, a dor da vegetação sendo dizimada não é encenada; ela é sentida. Eu vi ali a dor e o sofrimento da vegetação que estava sendo “morta”, a dor que as ações humanas demandavam sobre elas, as atrizes se empenharam e mostraram expressões muito fortes. É uma estética da carne, do plano baixo, da terra. Bertolt Brecht estaria orgulhoso do caráter político, mas talvez desse um peteleco na direção pelas cenas excessivamente dilatadas.

Terra que Acaba | Foto: Daniel Bones

A relação entre o espetáculo “Terra que Acaba” e a gênese da Dança Butô não é apenas estética; é uma conexão visceral de propósitos. Enquanto o Butô nasceu das cinzas e do trauma nuclear do Japão pós-guerra, a obra de Marcelo Ferreira parece emergir das “cinzas” ambientais e da angústia do Antropoceno.

“a distopia não é um cenário ficcional futurista, mas a realidade atual vivida pela humanidade, caracterizada pelo divórcio entre os seres humanos e a natureza”. – Ailton Krenak

A peça bebe na fonte de Ailton Krenak, que nos lembra que a distopia não é o futuro, é o agora. É o divórcio entre o humano e a terra. O uso do videomapping pela PixxFluxx transforma o palco em um organismo vivo. Quando as projeções se fundem aos corpos dos atores, temos o ápice da obra. É o Teatro Urgente em sua essência: se o assunto está no palco, é porque ele já passou da hora de ser resolvido na rua.

“Terra que Acaba” é um exercício de percepção. É um teatro que não te faz cafuné; ele te cutuca com uma vara curta. A potência visual e a coragem de fazer um teatro puramente sensorial em tempos de dancinhas de TikTok é louvável.

Como diria o mestre do improviso Augusto Boal, o teatro é o primeiro ensaio da revolução. E se a revolução for para adiar o fim do mundo, que comecemos olhando para esses seres que rastejam no palco, implorando por um pouco de verde em meio ao caos digital.

Marcelo Ferreira utiliza a gramática do Butô para alfabetizar o público sobre o fim do planeta. Ele não quer que você assista a uma coreografia; ele quer que você testemunhe a metamorfose da vida em ruína, transformando o palco do Sônia Cabral em um espaço de ritual e luto ecológico. O Diretor atua como um mediador entre o existencialismo clássico e a urgência contemporânea. Se Beckett via o homem como um ser perdido no vácuo do universo, “Terra que Acaba” o vê como um ser perdido nas ruínas do seu próprio planeta. O espetáculo é, em última análise, um “Ato sem palavraspara o século XXI, onde a resistência humana não é apenas esperar Godot, mas tentar sentir a terra antes que ela realmente acabe.

Em ‘Terra que Acaba’, o martelo bate forte no compasso do coração da floresta. A peça nos mostra exatamente isso: o mundo começou sem o homem e, se continuarmos nesse ritmo de “consumo logo existo”, terminará sem ele rapidinho. O espetáculo não oferece respostas fáceis. E talvez esse seja seu maior acerto. Em vez disso, deixa perguntas no ar, como quem planta sementes no concreto. Se o mundo está mesmo em transformação, a questão não é só quando ele muda… mas quem a gente escolhe ser durante essa mudança. E aí, vai assistir ou vai esperar o planeta dar spoiler?

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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