A buzina do machismo soa alto demais

Eram férias de 2023. Um desses dias quentes em que o tempo parece mais elástico e a gente resolve andar sem pressa, como se o mundo fosse um pouco menos hostil. Eu e meu filho, 12 anos recém-completos, caminhávamos pelo calçadão da Norte-Sul em direção à praia de Camburi. A cidade passava rápido ao nosso lado: carros, motos, escapamentos barulhentos, a pressa de sempre.

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Nós íamos no nosso ritmo. Eu de calça de malha, top confortável, roupa de caminhar, nada chamativo, nada performático. Nem tenho esse estilo “gostosona” que parece justificar, na cabeça de alguns, qualquer invasão. Eu estava só sendo um corpo em movimento, uma mulher caminhando com o filho.

A primeira buzina soou alta. Depois outra. E mais uma. Algumas longas, outras insistentes, dessas que parecem querer dizer algo que nunca pedimos pra ouvir. Meu filho olhava em volta, confuso, tentando localizar de onde vinha o barulho e se era dirigido a nós.

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Depois de algumas quadras, ele perguntou, genuinamente intrigado:

— Mãe… você conhece essas pessoas?

A pergunta veio limpa, sem malícia, sem o código oculto que a gente aprende cedo demais. Eu respirei fundo antes de responder.

— Não, meu filho. Eles estão buzinando pelo simples fato de eu ser mulher.

Ele franziu a testa. O mundo, até então, ainda fazia sentido demais pra aceitar aquilo.

— Mas por quê?

E ali, no meio do calçadão, com o sol batendo no asfalto e o mar ainda distante, eu tive que dar uma aula que não estava no roteiro das férias. Expliquei que muitos homens crescem achando que o corpo de uma mulher é público, comentável, acionável. Que buzinar, chamar, olhar de cima a baixo, invadir, faz parte de um costume velho e persistente chamado machismo. Que não é elogio. Que é importunação. Que é assédio.

Ele ouvia atento, ainda tentando encaixar aquela informação num mundo que, pra ele, deveria ser mais justo. Talvez também o tenham lido como uma menina porque o cabelo dele é comprido. Mais um corpo disponível ao olhar atravessado, ao barulho sem consentimento.

Seguimos caminhando. Eu, um pouco mais cansada do que antes. Ele, um pouco mais consciente. As buzinas agora não explicavam apenas o trânsito. Explicavam uma estrutura inteira.

Chegamos à praia. O mar estava lá, indiferente, bonito, como se dissesse que o problema nunca foi a roupa, nem o caminho, nem o horário. O problema é ensinar meninos a não buzinar e poupar mães de terem que explicar, nas férias, porque ser mulher ainda custa tanto.

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

4 COMENTÁRIOS

  1. Parabéns, Carol, por traduzir tão bem alguns dos tantos pensamentos e sentimentos que nos atravessam diariamente! Chega a doer quando leio e então me vejo.

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