O invisível que sustenta o mundo: os desafios da política nacional de cuidados no Brasil

O Brasil discute hoje um tema que, embora central para a sobrevivência de qualquer sociedade, permaneceu por séculos relegado ao silêncio das esferas domésticas: o cuidado. Recentemente, a tramitação da Política Nacional de Cuidados no Senado Federal colocou sob os refletores o trabalho de milhões de mulheres que, sem remuneração ou reconhecimento, sustentam a reprodução da força de trabalho no país.

Continua após a publicidade

Contudo, para compreender o alcance, e os limites, dessa nova política social, é preciso olhar para além das leis e mergulhar nas raízes do que sociólogos chamam de capitalismo dependente.

A herança de um passado colonial

A formação social brasileira não é um espelho das democracias europeias. Como aponta a literatura clássica de autores como Florestan Fernandes e Ruy Mauro Marini, o Brasil desenvolveu um capitalismo marcado pela dependência externa e pela superexploração do trabalho.

Continua após a publicidade

Nesse cenário, as políticas sociais não nascem como “presentes” do Estado, mas como frutos de duras lutas de classes. No caso brasileiro, o Estado frequentemente atua para gerir a pobreza sem, no entanto, alterar as estruturas que a produzem. É nesse contexto de desigualdades profundas e herança escravocrata que a Política de Cuidados tenta se estabelecer.

O cuidado tem rosto de mulher

O debate sobre o cuidado ganhou fôlego global em 2020, com o relatório “Tempo de Cuidar” da Oxfam, mas no Brasil a realidade é crua: segundo o Censo 2022, as mulheres são 51,5% da população e protagonistas absolutas do trabalho doméstico.

Historicamente, o sistema capitalista se beneficia da invisibilidade do trabalho doméstico gratuito. Ao garantir que a casa esteja limpa, a comida pronta e os filhos criados, as mulheres “produzem” a mercadoria mais valiosa do sistema: o trabalhador. A teórica Nancy Fraser descreve isso como uma contradição inerente: o capital precisa da reprodução social para existir, mas faz de tudo para não pagar por ela, tratando-a como uma “obrigação natural” feminina.

Avanços necessários, limites estruturais

A criação da Secretaria Nacional da Política de Cuidados e Família marca um novo momento após anos de retrocessos e cortes de verbas. O objetivo é tirar o fardo exclusivo das costas das mulheres e transformar o cuidado em uma responsabilidade compartilhada entre Estado, sociedade e famílias.

Entretanto, a análise crítica deste cenário revela um alerta importante. No capitalismo dependente, as reformas costumam ser “revoluções dentro da ordem”. Isso significa que, embora uma política de cuidados possa aliviar a jornada exaustiva de muitas mulheres e oferecer algum suporte financeiro ou institucional, ela dificilmente romperá com a lógica da superexploração se não houver uma mudança estrutural no modo de produção.

Conclusão: entre a assistência e a transformação

A Política Nacional de Cuidados é um passo fundamental para dar dignidade a quem cuida e garantir direitos a quem é cuidado. No entanto, o texto de Mantovani nos lembra que a verdadeira emancipação das mulheres brasileiras exige mais do que uma nova secretaria. Exige o reconhecimento de que a desigualdade de gênero é um dos pilares que sustentam o lucro no Brasil.

Enquanto o ato de cuidar for visto apenas como “amor” ou “dever biológico”, e não como trabalho essencial, o sistema continuará operando sob a lógica da espoliação. A luta pela política de cuidados é, em última instância, uma luta pela disputa do fundo público e por uma nova forma de sociabilidade que coloque a vida acima do lucro.

Continua após a publicidade
Ludimila Nunes Mantovani
Ludimila Nunes Mantovani
Mulher, mãe de três filhos, sendo um deles autista, Assistente Social da UFES

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
24ºC
Máxima
29ºC
Mínima
21ºC
HOJE
03/05 - Dom
Amanhecer
05:58 am
Anoitecer
05:17 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
6.17 km/h

Média
23.5ºC
Máxima
25ºC
Mínima
22ºC
AMANHÃ
04/05 - Seg
Amanhecer
05:58 am
Anoitecer
05:17 pm
Chuva
2.23mm
Velocidade do Vento
7.9 km/h

Privacidade: até onde vai o limite do meu vizinho?

Marcos Paulo Bastos

Leia também