Com o avanço da inteligência artificial, muitos estudantes estão descobrindo formas práticas de integrar essas plataformas à sua rotina de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e demais vestibulares. Essa tecnologia já influencia diretamente a maneira como os candidatos organizam seus estudos e desenvolvem a escrita de uma redação.
Utilizar a IA de forma adequada permite encontrar um ponto de equilíbrio entre a praticidade digital e o esforço intelectual necessário no momento da prova, evitando que o aluno se torne passivamente dependente da ferramenta.
“A inteligência artificial deve ser vista como qualquer outra ferramenta ou oportunidade de aprendizado”, explica Cláudio Hasen, professor e gerente pedagógico da plataforma Descomplica.
“A IA jamais pode escrever por você. Assim como um aluno que cola na prova não absorve o conteúdo, pedir um texto pronto para a ferramenta é um erro da mesma natureza”, afirma Hasen.
A relevância de escrever à mão no processo de aprendizado
A comodidade oferecida pela IA traz um alerta para o desempenho final do estudante. É fundamental que o candidato não abandone a prática com lápis e papel. O educador Sandro Bonás, CEO da Conexia Educação (Grupo SEB), compara o aprendizado a um treinamento de alta intensidade.
“Já existem robôs humanoides, mas não os levamos à academia para se exercitar por nós. Se a IA redige a redação, seu cérebro não se desenvolve. O progresso cognitivo exige estresse, desconforto e tensão”, destaca Bonás.
Os especialistas enfatizam que o aluno não consolida o conhecimento se solicitar que a IA escreva um parágrafo em seu lugar. Amanda Rassi, coordenadora pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, também adverte para o risco de bloqueio criativo no momento em que o estudante se depara com a folha de prova.
“O aluno não aprende a escrever apenas lendo. Lendo, você aprende a ler. Escrevendo, você aprende a escrever”, afirma a coordenadora, que defende a prática no formato manuscrito.
O uso da IA na preparação e na correção da redação
A tecnologia pode potencializar os estudos quando o aluno a utiliza nas fases que precedem e sucedem a escrita.
Na etapa de planejamento, por exemplo, a IA auxilia na organização das ideias principais ao sugerir repertórios socioculturais pertinentes, como referências históricas e indicações de livros e filmes.
Depois de concluir a redação manualmente, o estudante tem a oportunidade de buscar refinamentos de vocabulário e correções de erros gramaticais e ortográficos.
“Suponha que o tema seja violência e o aluno repita essa palavra diversas vezes. Ele pode, após terminar o texto, enviá-lo para uma IA e pedir sugestões de sinônimos”, exemplifica Rassi.
A variação das notas e a busca por erros
Apesar dos benefícios na revisão textual, a coordenadora alerta para uma possível “ilusão” gerada pelas notas atribuídas por plataformas abertas que não são específicas para esse tipo de correção. Um estudo interno do Redação Nota 1000 submeteu um mesmo texto cinco vezes à mesma inteligência artificial, como o ChatGPT, e o resultado mostrou uma variação aleatória na pontuação.
“Enviamos a mesma redação com o mesmo comando e repetimos o processo cinco vezes. Alguns modelos de linguagem alteram a nota a cada tentativa. O ponto central é que não se pode confiar cegamente”, alerta Rassi.
A especialista reforça que depender dessa avaliação pode gerar falsas expectativas. “É preciso ter sempre um pé atrás, principalmente quando se trata de nota.”
Para contornar essa limitação técnica, Cláudio Hasen sugere uma mudança de foco na hora de interpretar os resultados. “Mais relevante do que a nota final é identificar um padrão. A nota pode variar, mas o candidato perde pontos nos mesmos critérios. Essa é uma informação extremamente valiosa.”
A identificação de uma falha recorrente em uma competência gramatical, por exemplo, permite que o estudante direcione seus estudos exatamente para sanar essa deficiência.
A participação dos pais no estudo com a IA
O equilíbrio na adoção dessa rotina digital de estudos também exige o envolvimento da família. Sandro Bonás afirma que a IA de acesso livre age como “batata frita” para o cérebro, enquanto o estudo tradicional representa o “brócolis”.
O educador recomenda um modelo de estudo conjunto entre pais e filhos para minimizar os riscos. “A sugestão é o uso compartilhado. Costumo dizer que o adulto funciona como um córtex pré-frontal auxiliar — enquanto o do aluno ainda não está totalmente formado —, ajudando a frear o estudante.”
Os especialistas reforçam os cuidados ao lembrar que as ferramentas reproduzem vieses e preconceitos, como os raciais, de gênero e de classe presentes na internet. “A IA também carrega preconceitos embutidos na linguagem. Por isso, mais uma vez, é essencial ter capacidade de raciocínio crítico sobre as informações recebidas”, explica a coordenadora.
O educador compara o acesso irrestrito ao ambiente virtual com deixar uma criança sozinha em uma grande metrópole. “Estou liberando meu filho em uma cidade livre, sem um adulto por perto. Não faria isso no mundo físico, tampouco farei em uma IA”, conclui Bonás.







