Crítica: As Centenárias

“No palco da vida, a morte é apenas uma vizinha fofoqueira que espera pacientemente o café passar.”

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 Dizem que a morte é a única certeza da vida, mas no sertão, a segunda certeza é que alguém vai ganhar um trocado para chorar por você. Imagine o cenário: duas mulheres que já sopraram cem velinhas vivendo da desgraça alheia. Pois bem, Zaninha e Socorro não só estão lá, como trazem o lenço, a reza e uma fofoca atualizada na sala do vório.

A montagem do grupo Artífices de Teatro, com direção de Ci Mello, adapta o texto de 2007 de Newton Moreno e nos joga nesse “Sertão-Tempo”, onde o relógio não bate, ele rasteja. Para o público jovem, ver essas carpideiras é um choque de realidade: aqui, a permanência é a regra. No palco do Ifes, a liquidez só aparecia no suor dos atores, porque a história é densa como rapadura.

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Vamos falar de técnica, pois nem só de reza vive um espetáculo. A sonoplastia funciona como uma “voz oculta”, ecos do passado que assombram o presente. É um recurso brilhante, quase uma personificação do inconsciente freudiano, onde o que não é dito ressoa nas paredes. Mas é aqui que entra o meu lado “crítico chato”: de que adianta o som do além ser bom se o som do aqui não chega ao ouvido?

O teatro possui um proscênio com tratamento acústico excelente, mas o elenco parece ter ignorado esse presente da engenharia. Faltou imposição vocal. Em certos momentos, a dicção era engolida pelo sotaque exagerado. Faltou a percepção de que o “sotaque” deve ser um tempero, não o prato principal. Quando o barulho dos pés batendo forte no chão atropelava as falas, a experiência de “escutar” o texto se perdia.

A fala dos atores era difícil de compreender, ora pelo sotaque, mas principalmente pela dificuldade de colocar a voz em algum local específico. O roteiro é difícil, tem muitas alternâncias entre passado e presente. Algumas das passagens de tempo não são boas e demorei a entender onde se passava cada tempo. Mas as aventuras divertidas das duas amigas carpideiras são incríveis, principalmente em um núcleo específico de atores, que levava à comicidade, boa dicção, e dava para entender mais da história que se ia contando.

Abro um parêntese para a etiqueta teatral: o fotógrafo da produção estava usando flash. Flash! Isso é terminantemente proibido, principalmente para não ofuscar os atores e atrapalhar a visão do público. A luz repentina cega os artistas e atrapalha a concentração. A iluminação da peça, que por sinal estava muito bem desenhada para intensificar as ações, mesmo com poucos recursos que o teatro do IFES apresentava, era constantemente assassinada por esse clarão externo. Fica o toque: em teatro, a luz deve vir dos refletores, não do smartphone ou da câmera fotográfica alheia.

Se, por um lado, a voz falhou, o corpo compensou em algumas cenas, mas agora vou destacar a cena do parto. Ali, vimos o puro suco do teatro de palhaçaria. O uso de gags musicais feitas no palco trouxe um frescor cômico que a peça pedia. A insinuação sexual, trabalhada com vibrações nos tapumes e chapéus voando, foi de uma elegância técnica louvável. Não precisamos ver o ato; a vibração do cenário já nos diz que o sertão também tem seus calores.

O “menino” que nasce sem nome é um símbolo potente. Nascer no sertão de 1930 era entrar num tabuleiro onde as peças já estavam movidas pelo patriarcado e pelo cangaço. Não dar nome é quase uma proteção mística. No palco, um obituário de uma mulher chamada “Coisinha” já nos avisava: aqui, a identidade é diluída pela sobrevivência.

A peça foi dividida em núcleos de duplas que revisavam as mesmas personagens. Uma escolha ousada, mas perigosa. Quatro atrizes para o mesmo papel exigem uma costura invisível que nem sempre aconteceu. Em alguns momentos, as transições eram bruscas, e a diferença de “assinatura” entre as atrizes quebrava a continuidade da história. O terceiro núcleo, no entanto, merece um “parabéns” especial: jogo de cena, carisma e uma dicção que finalmente fez as pazes com a plateia, tanto em emoção quanto na evolução da história e num primor de comicidade. As transições cênicas não são boas; tentaria “esconder” ou dar uma técnica melhor entre uma troca e outra de personagens.

A velhice, nesse contexto, não é decadência pura. É resistência. É quase um ato político continuar vivo onde tudo insiste em morrer: a terra seca, os vínculos frágeis, a morte sempre envolvida na trama, as lamentações e a esperança rarefeita. A Morte deveria ser uma presença cotidiana, e não entrar em cena como vilã dramática, porque mesmo “disfarçada de mulher (viúva)”, ela sempre estaria lá, mesmo que sentada num canto, quieta, paciente, esperando a sua hora. No universo da peça, morrer não é o fim do percurso, é só mais uma dobra do caminho. A morte convive com as personagens principais como uma vizinha antiga, dessas que você não gosta, mas já se acostumou.

Essa naturalização lembra traços do imaginário nordestino, onde o misticismo popular transforma o fim em continuidade. Um pé aqui, outro no além. Ser “centenária” num lugar onde a vida é curta é quase um castigo poético. Elas viram tudo sumir, menos a própria obrigação de chorar. Elas fofocam sobre os mortos, discutem as técnicas de choro e mostram que, para suportar o peso da finitude, só mesmo com uma dose de ironia e um bocado de reza.

O grande plot do filho, infelizmente, ficou um pouco nublado dentro de uma história fragmentada; não ficou bem definido e as quebras de cena não se davam bem à continuidade da história. Mas, quando se chega ao ápice, o impacto é interessante, mas poderia ser mais bem executado; faltou carga dramática no ápice. Mesmo sendo uma comédia, a morte de um filho no sertão exige um peso que a fragmentação da cena não permitiu alcançar plenamente. Ainda mais que, em todos os momentos da cena, eles lidavam com a morte, mesmo que muitas das vezes fossem em situações cômicas, mas podiam lidar melhor com a morte de um filho. O teatro é o ensaio da revolução, e aqui faltou revolucionar o luto para que o público sentisse o soco no estômago antes da piada.

Ver uma montagem desse porte surgir de uma oficina de teatro é de uma coragem épica. Quanto menos naturalista é um desenho de espetáculo, mais exigente é o trabalho do ator na convocação e fabulação das emoções mais profundas, e esse é um desafio muito grande de se analisar. Alguns atores conseguiram, outros nem tanto, mas, ainda assim, bato palmas para a coragem dessas pessoas se predispondo a esse desafio, porque experiências como essas nos fazem crescer como atores. O elenco é extenso, unido (pelo menos pareceu para mim) e enfrentou um texto que alterna passado e presente com a rapidez intensa (embora as passagens de tempo na peça não fossem bem identificadas).

As “incelenças” (os cantos de velório) estavam lá, mas não arrepiaram. No panfleto, víamos as músicas bonitas, que combinavam muito com a cena, mas faltou aquela “vontade de cantar junto” que o lirismo nordestino costuma provocar (e que no panfleto pedia). Talvez a carga cômica tenha atropelado a solenidade do canto. Ainda assim, a essência do texto original de Newton Moreno resistiu: a ideia de que essas mulheres não são apenas velhas, são como “arquivos” de memórias. Como elas mesmas sugerem: “não sou velha, sou antiga”. O antigo tem valor, tem história.

Não se trata apenas de cantar, mas de entoar um cântico, e auxiliava e ganhava a produção… No panfleto, as músicas eram boas, mas, na peça, não souberam utilizar muito bem esse recurso, que até que para a produção passou despercebido, mas, se tivesse ganhado força, iria ser mais um ponto potente e inesquecível da trama.

“As Centenárias” nos ensina que, no sertão e na vida, o tempo não é uma linha reta, mas um rio temporário. Ele seca, vira pó, mas a alma insiste no mesmo ponto. A amizade de Zaninha e Socorro é o que as mantém vivas enquanto tudo ao redor insiste em morrer.

As nossas carpideiras acertam ao rir da própria tragédia. Elas administram a morte como quem cuida de uma horta. No fim, a peça é um lembrete de que, para suportar o peso da finitude, você precisa de uma boa dose de ironia e de alguém para segurar sua mão, ou seu lenço.

Na minha última fala, eu digo que, no geral (depois de toda a coisa técnica), gostei muito de ter ido ver essa apresentação. Foi de uma coragem absurda para uma oficina fazer um texto como esse, e eles conseguiram apresentá-lo. Eu ri, me diverti, tiveram boas sacadas e eu, como um produtor cinematográfico, vi ali boas atuações e atrizes que, melhor trabalhadas, poderiam chegar a um nível alto. Saí bem positivamente, então, acho que é isso, uma “catarse”. Foi divertido, me distraiu e me fez esquecer um pouco dos meus dias. Ir assistir a espetáculos como esse te inspira e eleva seu humor. Parabéns à Ci Mello, ao grupo Artificies de Teatro e aos envolvidos nessa oficina.

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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