A ideia de organizar a rotina profissional de acordo com as fases do ciclo menstrual, conhecida como produtividade cíclica, tem ganhado espaço nas redes sociais e até entre executivas. Mas, apesar do apelo inicial, a prática não passa de uma farsa baseada em pseudociência, que resgata velhos estereótipos sobre a capacidade feminina no ambiente de trabalho.
O conceito, que adapta para o trabalho a prática de autocuidado chamada cycle syncing, propõe dividir o mês em quatro fases com tarefas específicas. Planejamento durante a menstruação, adiantamento de trabalho na fase folicular, negociações e pedidos de aumento na ovulação, e tarefas que exigem atenção aos detalhes na fase lútea.
O grande problema é que esse modelo pressupõe um ciclo hormonal fixo e previsível que a maioria das mulheres, na verdade, não possui. Duas grandes revisões sistemáticas recentes, incluindo uma meta análise de 2025, não encontraram evidências robustas de que o desempenho cognitivo, como atenção, memória ou função executiva, sofra alterações significativas ao longo do ciclo. Estudos sobre desempenho físico também apontam que o efeito do ciclo é, na melhor das hipóteses, insignificante.
Além da falta de base científica, a produtividade cíclica carrega uma mensagem profundamente problemática. A de que a competência das mulheres oscila conforme os hormônios, o que reforça estereótipos e reduz a mulher à sua biologia. Como alerta a endocrinologista Carme Valls, a ideia reduz a mulher à sua biologia, a meros animais.
Isso não significa que a menstruação não impacte a vida das mulheres ou que a TPM não exista. O ponto é que o ciclo hormonal não serve como uma ferramenta confiável para o planejamento de tarefas no dia a dia. Mais de 40% das mulheres não sentem praticamente nada durante o ciclo, o que torna qualquer tentativa de padronização um ruído desnecessário.
Falar sobre menstruação no trabalho é importante e necessário. Mas transformar esse debate em uma promessa de produtividade que não encontra respaldo na ciência é, no mínimo, um desserviço, tanto para as mulheres quanto para o ambiente profissional como um todo.







