Quem canta seus males espanta!!!

Se o provérbio popular faz esta afirmação, quem somos nós para negar? Mas…, o que realmente há de verdade nesta frase incansavelmente repetida por séculos? Sim, por séculos, pois sua origem remonta à cultura  greco-romana. Virgílio, considerado o maior poeta da Roma Antiga,  viveu de 70 a.C. a 19 a.C., portanto, séc. I a.C., ao escrever sua obra Geórgicas, escrita entre 37 e 30 a.C., trouxe a expressão  “quem chora ou canta, fadas más espanta”. 

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Mas é com Cervantes, autor do clássico Dom Quixote de la Mancha no início do séc. XVII, que o personagem principal, ao dialogar com prisioneiros, diz a célebre frase: “quien canta sus males espanta”. A partir desse momento, a obra literária  consolida o provérbio em vários idiomas, alcançando sua consagração e popularização.  

Atualmente, ao se dizer que quem canta seus males espanta, estamos nos referenciando à possibilidade que a música traz ao proporcionar bem estar afastando a tristeza, o pessimismo e o desânimo dentre outras emoções e sentimentos indesejáveis. Lembrando que os efeitos da música sobre o ser humano não são absolutos mas que estão no campo da possibilidade de provocar bem-estar … ou não. 

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Os efeitos que algo provoca sobre nós são da ordem da relação construída com este algo, como a música por exemplo e neste caso mais específico, com o canto. Cantar pode sim fazer muito bem a quem canta. A exigência básica é o trabalho respiratório em entradas e saídas de ar proporcionam trocas energéticas que por si alteram nosso estado de consciência. A respiração também exige a participação dos músculos que, à medida que são acionados regularmente, podem ser fortalecidos dando melhor capacidade de controle na deglutição, fato para a vida das pessoas idosas.  

O ato de cantar exige  envolvimento com a letra e a melodia criando um estado de foco e atenção criando conexões profundas e nos distanciando de distrações momentâneas bem como afetos desordenados. Além disso, cantar tem relação com os nossos modelos de cantores e lida com o desafio de nos aproximar daquilo que admiramos, seja um cantor ou uma música especial e, nesse sentido, são momentos de desafio de nós mesmos, que nos faz sentir capazes de cantar como alguém que admiramos ou nos expressar por meio de uma música que nos encanta. 

Sim, quem canta pode espantar seus males mas, como toda medicação, é preciso fazer na dose correta respeitando todas as indicações para que não se espante alguns males e se adquira outros. Como toda moeda tem dois lados, também a ação de cantar precisa ser bem cuidada respeitando os limites do nosso corpo. Tal qual um atleta, o exercício de sua atividade precisa ser realizado de forma consciente observando a segurança do corpo. Ao cantar é essencial compreender como esse fazer deve ser confortável sem ocasionar desconfortos, dores, rouquidão ou outros aspectos indesejáveis que podem comprometer a voz e a musculatura envolvida no ato de cantar. Assim, é preciso sempre estar atento às respostas do corpo e às possibilidades que ele oferece. 

Para Sloboda, psicólogo britânico, referência essencial na área da psicologia cognitiva da música, o ser humano é artista ao nascer. Para ele, dançamos e cantamos muito antes de andar e falar. Mas, como sociedade, ainda somos apegados à ideia de que a arte exige talento antes do aprendizado e da dedicação. Uma concepção romântica que não colabora com a aproximação da arte e a permanência do artista que existe em nós desde o nosso nascimento.

Com o canto não é diferente. Ainda que  cantamos “naturalmente” graças à nossa vida em sociedade, pois aprendemos a cantar uns com os outros. Sabemos que algumas pessoas vão cantar mais e melhor que outras, o que é comum em qualquer atividade. Mas o fato é que podemos aprender a cantar mais e melhor, refinando as nossas percepções, além de buscar o domínio de técnicas de canto que nos oferecem possibilidades de nos descobrir como pessoas e encontrar meios de obter maior eficiência na ação de cantar, com pouco esforço, maior conforto e sem correr riscos de stress muscular ou qualquer tipo de trauma.

Desse modo, sim, podemos espantar os nossos males por meio do canto. Buscando alcançar uma objetividade conceitual, cantar é realizar uma atividade que pode trazer alteração de consciência, autoconhecimento, extravasamento de emoções e sentimentos represados, ampliação do conhecimento da nossa cultura, compreensão do trabalho muscular envolvido e a entrada sistemática no maravilhoso mundo do conhecimento musical. E ainda precisamos pontuar que o canto é energia e frequência vibracional ocasionando entrar no fluxo do universo do qual fazemos de modo harmonioso. 

A possibilidade de cantar e espantar os males é para todas as pessoas. A voz cantada é uma descoberta acessível a todo aquele que se dedica a encontrá-la. O aprimoramento do ato de cantar deve ser diário e ao longo de toda a vida para que possamos desfrutar dos benefícios que estão ao nosso alcance. Assim, chegando ao fim de nossas reflexões, deixo um convite: vamos cantar?

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Gina Soares
Gina Soares
Gina Soares é musicista, professora e pesquisadora. Doutora e Mestra em Música, Bacharel em piano. Ex-violoncelista da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo (OSES) e professora da Faculdade de Música do Espírito Santo (FAMES). Interessada em arte, cultura e movimento ... das ondas do mar principalmente.

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