De quatro em quatro anos, o mundo simplesmente para para ver a Copa do Mundo de futebol masculina. Está acontecendo agora a maior Copa de todos os tempos, com a maior quantidade de países participantes. Ao mesmo tempo, mostra-se uma das edições mais preconceituosas: está barrando árbitros e impondo condições flagrantemente desiguais de logística para as seleções, como vemos no exemplo do Irã e no tratamento dado pelos Estados Unidos. Mas, ainda assim, o mundo inteiro se posta na frente da televisão. Seja em casa, seja num boteco ou espiando ao passar na rua, todo mundo para pra ver.
O jogo entre Inglaterra e Croácia foi um embate clássico. Independentemente de sermos ingleses ou croatas, paramos para assistir e torcemos por aquele com quem temos mais afinidade. Essa atmosfera me trouxe uma reflexão profunda, motivada inclusive por uma conversa que tive com uma amiga, sobre as nossas imensas diferenças.
Falo da diferença gritante que ainda temos entre o apoio, a visibilidade e o dinheiro que rola entre a Copa do Mundo de Futebol Feminina e a Masculina. A última Copa Feminina até teve os jogos do Brasil transmitidos pela TV Globo, e acredito que alguns confrontos de outras seleções também tenham ido ao ar, mas com certeza não teve, e demorará muito tempo para ter a visibilidade que a masculina ostenta. A disparidade na quantidade de patrocínio e no próprio interesse do público em assistir aos jogos ainda é brutal.
Estava vendo um vídeo muito legal que fala justamente sobre essa caminhada. Uma belíssima trajetória que o nosso futebol feminino tem construído, mesmo sem o devido reconhecimento ou apoio. O vídeo traz uma curiosidade fantástica: o jogador que mais marcou gols em Copas do Mundo, na realidade, não é um jogador. É uma jogadora: a nossa maravilhosa Marta.
Ela, que voltou recentemente, jogando os últimos amistosos preparatórios para a próxima Copa Feminina, e que, graças ao seu talento, deu uma visibilidade inédita à modalidade. Marta contaminou, no melhor dos sentidos, muitas meninas e jovens a jogarem futebol, seja nas ruas, seja nos clubes.
Os times brasileiros, de um tempo para cá, também vêm investindo mais no futebol feminino. O Corinthians, por exemplo, detém hoje a hegemonia, tendo vencido as últimas edições do Campeonato Brasileiro Feminino. Enfim, essa é a nossa realidade. Uma realidade que nos mostra que ainda precisamos não apenas de políticas públicas de incentivo nas prefeituras, para que as mulheres possam fazer aulas de futebol nos municípios, onde historicamente só se vê espaço para o masculino, mas também que as escolinhas particulares garantam esses espaços para as mulheres no mesmo pé de igualdade que os meninos têm.
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As oportunidades precisam ser dadas a homens e mulheres, meninos e meninas, da mesma forma. Quem sabe, daqui a alguns anos, a gente não tenha o “Brasil País do Futebol” e o “Mundo do Futebol” parados para assistir, com o mesmo entusiasmo, tanto à Copa masculina quanto à Copa do Mundo de Futebol Feminino.
Para que esse futuro chegue, e espero que não demore, vale uma observação muito séria: nós precisamos de uma Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que realmente esteja preocupada com o esporte, e não apenas com politicagem e a caça por patrocínios, como ela tem se mostrado nos últimos tempos. E digo isso pensando, principalmente, na convocação de um jogador cuja ética e honestidade carregam sérios abalos, com investigações por evasão de divisas e sonegação de impostos. Falo de Neymar. Convocar um jogador que estava lesionado, que já nem vinha jogando pelo seu time, para uma Copa do Mundo…
Provavelmente, o que ele continuará fazendo é o que vimos nesses últimos dois dias, nos quais o país parou para assistir a bobagens: “Neymar colocou a chuteira”, “Neymar tomou um corredor polonês dos amigos”, como se fosse um menino novo estreando na seleção. Eu rezo, prezo e vou lutar para que a gente tenha uma Confederação que realmente honre esse nome, e que deixe de ser uma indústria de patrocínios, de enriquecimento e de corrupção. Especialmente após o afastamento de presidente e dirigentes por episódios de assédio, não podemos mais tolerar a gestão vergonhosa que temos agora.
É isso. Vamos que vamos, país da Copa! Temos ainda uns 20 dias de torneio pela frente. Como boa brasileira e amante do futebol que sou, será impossível não torcer pelo Brasil. Mas, infelizmente, diferentemente do que diz a cervejaria que está bancando a “galera do passado” e a “galera nova” à frente da seleção, apesar de termos sido “liberados para acreditar”, está bem difícil de acreditar.
Mas vamos que vamos. Beijos e tchau!







