A chama mulher

Tem coisas que a gente aprende antes mesmo de saber que está aprendendo. Tipo atravessar a rua olhando pros dois lados. Ou mandar a localização em tempo real pra uma amiga antes de entrar no Uber.
Ou aquele clássico: “se eu te mandar um emoji específico, me liga fingindo uma emergência”.

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A gente nem lembra quando começou, mas já fazia.

Chama mulher.

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Esse pacto silencioso que não tem ata, não tem estatuto, não tem grupo oficial, mas funciona melhor do que muito sistema por aí.

Você já tirou uma amiga de uma roubada? Já combinou de ir “por coincidência” no mesmo bar que ela? Já ficou de olho de longe, como quem não quer nada, mas querendo tudo: que ela esteja bem, que ela esteja segura, que ela não precise te chamar?

Isso é mais velho que vento sul. Não nasceu com aplicativo, não nasceu com hashtag, não nasceu com discurso pronto.

Sempre existiu. Porque sempre foi necessário.

Outro dia lembrei de uma situação que resume bem esse código invisível. Uma amiga marcou de encontrar um cara que conheceu no Tinder. Conversa boa, fotos ok, aquele roteiro básico que a gente já sabe de cor.

Coincidentemente, ou nem tanto, eu estava no mesmo lugar.

Vi ela chegar. Vi o sorriso meio travado. Vi o corpo que não relaxava. E aí, no meio de um abraço que parecia casual demais pra ser só coincidência, ela encostou e sussurrou:

“Amiga, me tira daqui. Eu conheço esse cara do app… e ele é totalmente diferente do que aparentava”.

Não teve drama.
Não teve escândalo.
Não teve explicação longa.
Teve ação.

Um “nossa, você aqui! Preciso muito da sua ajuda agora”, um puxão leve pelo braço e a gente saiu.
Simples assim.

Depois, já longe, ela respirou de verdade.

E eu fiquei pensando como é curioso, e ao mesmo tempo tão óbvio, que a gente precise criar estratégias quase coreografadas pra existir no mundo com um mínimo de tranquilidade. Mas também fiquei pensando na potência disso.

Porque, se por um lado existe o risco, por outro existe essa rede invisível que a gente constrói umas com as outras.

Uma rede que não julga o encontro ruim.
Não diz “eu avisei”.
Não pergunta por que você foi.
Só pergunta: “você tá bem?”
E, se não estiver, age.

E tem também as versões mais sutis dessa rede. Durante um término complicado, daqueles de idas e vindas que deixam a gente meio sem norte, eu baixei um aplicativo de relacionamento. Não exatamente pronta, mas tentando. E aí criei meu próprio protocolo de segurança emocional: os encontros eram marcados no café de uma amiga.

Ali, entre um café e outro, eu tinha mais do que um lugar confortável.
Tinha território conhecido.
Tinha olhar cúmplice.
Tinha retaguarda.

Ela passava, fingia que estava só trabalhando, mas observava. Depois, no intervalo ou no banheiro, vinham os relatórios:

“Amiga… ele pareceu meio estranho”.
“Amiga, cuidado, ele fala muito de si e não te escuta”.
E, o mais importante de todos:
“Amiga… deu pra sentir que ele tem bafo”.

E a gente ria.

Porque a rede de proteção também tem isso: ela não serve só pra te tirar de perigo.
Ela também te ajuda a não romantizar o desconforto, a perceber o que você talvez ignoraria sozinha, a rir do que poderia virar frustração.

No fim, é sobre isso.

Sobre não atravessar certas situações sozinha.
Sobre saber que, se precisar, tem alguém ali, por perto, no celular, no olhar.

Porque, no fundo, o “chama mulher” nunca foi só um chamado.

É uma chama.

Uma chama que acende quando uma mulher olha pra outra e entende sem precisar explicar.
É o que aquece nos dias em que a gente duvida.
É o que ilumina quando o cenário não está claro.
E, quando precisa, vira incêndio.

Incêndio que interrompe, que protege, que tira a gente de onde não é seguro.

Porque, no fim, a gente chama.
Mas também é chama.

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

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