A gestora de Turismo e Economia Criativa do Sebrae da Paraíba, Regina Amorim, integra agora o quadro de articulistas do DIÁRIO DO TURISMO, apresentando uma visão estratégica e atual sobre desenvolvimento regional, cultura e inovação. No seu artigo inaugural, a profissional propõe uma análise aprofundada acerca do papel da economia criativa como motor de transformação econômica, social e ambiental, sobretudo no âmbito do turismo e das novas dinâmicas de consumo e experiência.
Com uma perspectiva que relaciona biodiversidade cultural, sustentabilidade e modelos econômicos emergentes, Regina aponta direções possíveis para impulsionar territórios criativos, fortalecer comunidades e fomentar negócios baseados em identidade e propósito.
O papel da economia criativa no desenvolvimento
A economia criativa deve ser interpretada como uma das vias para gerar valor e conferir significado a negócios inovadores. Ela representa uma estratégia de desenvolvimento que prioriza o patrimônio cultural e a biodiversidade, promove a sustentabilidade ambiental, cultural, social, econômica e política, além de captar recursos financeiros para os territórios. Quando associada à economia da cultura e à economia do lazer, transforma-se em um dos motores mais vigorosos para a economia do turismo.
O turismo criativo, de experiência e o esportivo estão entre as tendências que impulsionam o crescimento das viagens domésticas e fomentam a economia. É inegável que, no turismo e em qualquer outra atividade econômica, a busca por aprendizado é fundamental, pois amplia a capacidade empresarial de enxergar possibilidades e obstáculos que outros não percebem.
A biodiversidade cultural conecta a economia criativa à bioeconomia, um modelo econômico sustentável que emprega recursos biológicos renováveis (como plantas, animais, microrganismos e resíduos orgânicos) aliados ao conhecimento científico para gerar alimentos, energia, materiais e produtos.
Essa conexão também liga a economia criativa à economia circular, à economia verde e ao consumo consciente, definindo a maneira como as comunidades utilizam os territórios, os biomas e os ecossistemas. O turismo de base comunitária é um exemplo de comunidades que defendem a biodiversidade cultural e formam redes de ajuda mútua. Atuar em rede significa ter a capacidade de solucionar os próprios desafios.
Diversos produtos artesanais só terão continuidade se houver equilíbrio na relação entre patrimônio natural e cultural, que compõem os principais ativos da biodiversidade cultural brasileira. A UNESCO tem colaborado para expandir os sentidos da cultura no desenvolvimento dos países, por meio da proteção do patrimônio cultural dos povos. O direito à cultura está previsto no artigo 1º da Declaração dos Princípios da Cooperação Cultural Internacional da UNESCO, que afirma que “toda cultura possui dignidade e valor que devem ser respeitados e protegidos” (1966).
A economia criativa favorece uma governança territorial baseada em engajamento, envolvimento e cooperação, estimulando novas práticas econômicas e valorizando o papel estratégico das comunidades tradicionais e ancestrais com suas expressões culturais.
Desafios e caminhos para territórios criativos
Em cada negócio bem-sucedido existe uma visão que ultrapassa o senso comum ou o convencional, apta a confrontar receios e barreiras. Quem reconhece os obstáculos também consegue superar as dificuldades e convertê-las em oportunidades.
Adotar hábitos culturais saudáveis é um desafio fundamental para a produção, distribuição e consumo sustentáveis de bens e serviços criativos. O grande desafio das comunidades atuais é valorizar a cultura local e eleger novos patrimônios baseados nos princípios do bem comum e do bem viver. Como preceito da economia criativa, o bem viver prioriza sentimentos de afetividade e vivências de felicidade, para o corpo e o espírito. Quando combinado ao bem comum, o bem viver estimula conexões e consolida culturas participativas, por meio de novas economias: criativa, colaborativa, circular e compartilhada, que colaboram para o desenvolvimento de territórios criativos, com novas vivências, novos saberes, a ânsia de aprender e a aptidão para interpretar a realidade e os anseios.
Nos territórios, as artes, a cultura e a criatividade são fundamentais para reforçar o senso de pertencimento, a cidadania e novas maneiras de observar, experimentar e aprender. Territórios criativos são aqueles que enxergam a cultura e a criatividade como recursos para o desenvolvimento sustentável e protegem os bens comuns. Colocar a cultura no centro das políticas de desenvolvimento significa focar no ser humano, de maneira inclusiva e equitativa. Como componente do desenvolvimento sustentável, a cultura atua como mediadora de conflitos e demandas entre os diferentes grupos sociais, que se definem por seus valores e modos de vida.







