Before I Go une plataforma excelente e exploração existencialista

Com o lançamento recente no mercado, Before I Go se apresenta como um caso singular no universo dos games. É pouco comum encontrar um metroidvania desenvolvido por uma única pessoa, que chega simultaneamente a PC e consoles sem o respaldo de uma publicadora para os ports, e que ainda assim entrega uma experiência técnica estável e livre de bugs durante a jogatina no PS5.

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Claro que o essencial é que o título se mostre um ótimo jogo, especialmente para entusiastas de plataforma e exploração, mesmo que tropece nos confrontos contra chefes. Devo confessar que a qualidade geral me causou boa impressão, tornando a obra uma recomendação válida para os fãs do gênero. Vamos aos detalhes.

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“Espinhos-vania”

Vou explorar os dois pilares centrais que aparecem na descrição do game nas lojas digitais: “um metroidvania punitivo onde você incorpora a inocência de uma criança interior em uma odisseia alegórica rumo à aceitação da morte”.

Para começar, classificar Before I Go como punitivo me soa exagerado. O termo mais apropriado seria desafiador, pois a derrota não acarreta punições além de retornar ao ponto de salvamento e tentar novamente. Nada se perde com a morte e, conforme avançamos, acumulamos pontos de vida suficientes para que ela se torne menos comum. Não há itens de cura, mas existe um acessório que promove cura automática com o passar do tempo.

A dificuldade maior reside no forte foco em plataforma, que se torna gradualmente mais intrincado. Espinhos estão por toda parte e, para escapar deles, precisamos pular nas paredes, executar investidas no ar, utilizar diferentes ícones propulsores, pisar em inimigos, ativar plataformas e, nos momentos certos, combinar tudo isso em sequência. Some a isso projéteis disparados por oponentes e lasers móveis, e a receita está completa.

O mérito de Before I Go está em oferecer controles extremamente precisos e responsivos; notei que qualquer erro cometido foi sempre por minha conta. Também vale destacar como o design de fases emprega bem a lógica de abrir atalhos para evitar retrabalhos desnecessários, sem nunca se estender demais em sequências exigentes sem um pouco de chão firme para servir de ponto de apoio nas tentativas de travessia pelos abismos de espinhos.

Como apreciador de plataforma 2D, minha experiência com Before I Go foi exigente de um jeito divertido, nunca extenuante. Muitos segmentos se resumem a acertar o timing, forçando-nos a nos movimentar sem parar por uma sucessão de perigos sincronizados.

Existem alguns pontos de salvamento temporários, ativados ao custo de um recurso que também pode ser usado para obter bônus temporários de vida, energia ou dano, até a morte. Utilizei o salvamento extra apenas uma vez, justamente no trecho de plataforma mais rigoroso da reta final.

No quesito combate, temos alguns ataques de tiro distintos e inimigos de comportamento básico, com pouca variedade. Os chefões representam o ponto fraco de Before I Go, pois são escassos e pouco interessantes.

A dificuldade do combate depende quase exclusivamente da velocidade com que se consegue esmagar o botão, já que a cadência de tiro é ilimitada e permite usar uma intensidade que derrete a barra de vida dos chefes. Chegou a um ponto em que derrotei o antepenúltimo chefe sem me importar em receber dano direto enquanto metralhava a criatura. Apenas os dois últimos me deram algum trabalho, e o último me obrigou a aprender seus movimentos para sobreviver enquanto descarregava projéteis.

Uma Odisseia

As qualidades de plataforma se estendem à exploração, repleta de caminhos ramificados e cantinhos secretos para descobrir. O mapa serve como uma ferramenta à altura, sendo moldado à medida que percorremos os cenários e sempre deixando as pontas soltas bem evidentes.

Na prática, esse é o principal meio de se orientar sobre para onde ir em seguida. Exceto pelas instruções do começo, não há indicações sobre objetivos ou destinos. Em vários momentos, a progressão é intuitiva e uma etapa se encerra nos levando de volta exatamente ao local onde, de posse de uma nova habilidade, podemos avançar mais.

Em outras ocasiões, sobretudo mais adiante na campanha, é preciso esquadrinhar o mapa com cuidado em busca das lacunas restantes e tentar descobrir algo por lá, o que geralmente rende alguma melhoria ou uma área inteira nova atrás do que parecia ser apenas um pequeno corredor de pouca importância. Para ajudar com os lembretes, é possível aplicar marcadores coloridos.

Portanto, mesmo que se possa dizer que Before I Go não segura a mão de quem joga nem aponta direções, seu mundo é construído de maneira a incentivar a exploração diligente e oferece a ferramenta necessária para prosseguir na jornada.

À primeira vista, a duração parece ser curta: levei oito horas e meia para finalizar o jogo, com 96% de completude. Senti falta de algum recurso como um radar para ajudar a encontrar os poucos itens que deixei passar, então dei a experiência por encerrada e saí dela bastante satisfeito, pois sua brevidade é intensa.

Aceitação da morte

Voltando à descrição oficial, logo acima vimos o lado “Odisseia” desta jornada exploratória e, agora, falta conferir o aspecto de alegoria de aceitação da morte atribuído a ela.

Uma alegoria é uma imagem simbólica de significado amplo, e é isso que Before I Go nos propõe: uma história cheia de significados para nossa interpretação. Há uma narrativa no sentido convencional: nascemos em um mundo assolado por uma Praga e pelo tempo, abandonado pelos poderes que o definem, os Arquitetos Antigos.

Essas entidades precisam ser encontradas. É o que indicam alguns personagens em seus breves monólogos filosóficos, ponderando melancólica e resignadamente sobre o tempo, a eternidade e a efemeridade. Isto é, sobre as maneiras com que nos posicionamos diante da vida e da morte.

Gostei de encontrar cada uma dessas criaturas esquisitas, mesmo que só sirvam para expressar seus desabafos existencialistas. O texto em Before I Go é direto e coeso, sem rodeios desnecessários, com uma sensibilidade reflexiva que o faz soar poético. No fim das contas, espere menos uma história estruturada e mais uma alegoria agridoce que aborda um tema complexo sem pretensão de esgotá-lo, mas fazendo os questionamentos que merece.

Ah, e tudo isso conta com uma boa tradução na qual nada me soou estranho, fora de lugar ou com erros textuais, algo notável em nossos dias (lembre-se de que é um jogo de um desenvolvedor solo sem publicadora para ajudar; ele buscou tradutores para trabalhar na localização para vários idiomas).

A atmosfera geral contribui para a ideia. Os gráficos 2.5D são básicos, sem texturas complexas. As formas, porém, são moldadas com um elegante estranhamento alienígena. Se, por um lado, há uma recorrência da ambientação de cavernas e paredes de pedra, por outro, os elementos que preenchem os locais se afastam da familiaridade, usando a natureza para composições diferenciadas, com formas de neurônios, bulbos, insetos, tentáculos, plantas aquáticas e mais.

As cores servem como ferramentas para esse conjunto, fazendo a diferença; e também a música, alternando entre piano melancólico e sintetizadores reverberantes típicos de filmes de ficção científica, engrandecendo em sua simplicidade eficiente. Ainda se trata de uma produção humilde, mas, dentro de sua proposta, é de muito bom gosto.

Antes que eu me vá

Tendo seu ponto forte na gameplay de plataforma de precisão bem executada, Before I Go consegue fazer bom uso de recursos simples para não apenas criar uma atmosfera estética adequada à sua proposta existencialista, mas também oferecer uma ótima experiência de exploração. O combate não tem o mesmo sucesso em design, com chefes que deixam a desejar; portanto, a recomendação é toda voltada a quem valoriza desafios de travessia com movimentos precisos em um metroidvania.

Prós

  • Gameplay de plataforma de precisão excelente, com desafios bem elaborados e controles precisos
  • Exploração do mundo que valoriza a iniciativa do jogador, com um mapa que funciona como boa ferramenta de orientação
  • Atmosfera melancólica e sombria que combina com o viés filosófico das falas, abordando temas existencialistas com sensibilidade e pertinência
  • Textos em português brasileiro

Contras

  • Chefes, além de serem poucos para a proporção do mundo, são desinteressantes, o que também se aplica aos inimigos comuns

Before I Go — PC/PS5/XSX/Switch — Nota: 8.5

Versão utilizada para análise: PS5

Before I Go
8.5
PS5
With its strengths lying in well-executed, precise platforming gameplay, Before I Go manages to make good use of simple resources to not only create an aesthetic atmosphere suitable to its existentialist premise, but also to offer a great exploration experience. The combat doesn’t achieve the same success in design, with bosses that leave something to be desired, so the recommendation is entirely geared towards those who value challenges involving precise traversal and movement in a Metroidvania.

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