As apostas e os jogos online deixaram de representar apenas um desafio financeiro ligado ao endividamento da população e à perda de patrimônio. Essa prática também traz consequências para a saúde e, por isso, vem ocupando espaço cada vez maior dentro das unidades de saúde. No Sistema Único de Saúde, observa-se crescimento na procura por tratamento de casos de dependência, enquanto o governo busca estruturar políticas voltadas a esse público.
Nesta semana, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional em televisão, rádio e redes sociais para prevenção dos danos causados pelas apostas, informando sobre riscos e sobre os serviços de atendimento à saúde mental oferecidos pela rede pública. A iniciativa surge em um contexto de expansão das apostas online no país. Segundo a pesquisa TIC Domicílios, 19% dos brasileiros com acesso à internet em 2025 afirmam ter feito alguma aposta online nos três meses anteriores ao estudo, o equivalente a cerca de 29,8 milhões de pessoas, número que pode ser ainda maior, já que parte dos usuários pode não admitir o uso dessas plataformas por estigma ou vergonha. Em julho, o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, declarou que 25,2 milhões de brasileiros apostam por meio de plataformas ilegais no país.
Diante desse contingente, a principal preocupação está ligada à dependência desenvolvida pela prática, condição que afeta a saúde do indivíduo, provocando quadros de ansiedade e depressão, além de impactar a saúde financeira, levando frequentemente ao endividamento e a problemas nos relacionamentos pessoais.
Um caso que ilustra esse cenário é o de Rafael Borges Amaral, morador de Uberlândia, em Minas Gerais. Rafael trabalhava em um lava-jato perto de casa quando começou a jogar online e a obter recompensas financeiras. Em pouco tempo, passou a ficar acordado até tarde jogando em plataformas online. Sua mãe relatou mudanças de comportamento, como explosões de agressividade, isolamento e faltas ao trabalho.
Com o tempo, o dinheiro passou a faltar e as recompensas deixaram de vir, e poucos meses depois de começar a jogar, Rafael morreu aos 26 anos. Hoje seu nome está associado a um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados, o PL 3613/2026, que trata da responsabilização de toda a cadeia de divulgação de apostas, incluindo apostas de quota fixa, loterias, jogos de azar, publicidade digital e influenciadores, por perdas do usuário.
Para especialistas, a preocupação está na tendência de crescimento dessa demanda e nas limitações das políticas de saúde já implementadas sobre o tema, sobretudo porque a prevenção não deveria depender apenas do Ministério da Saúde, mas de uma política articulada entre diferentes órgãos.
Atualmente, o Ministério da Saúde conta com um Grupo de Trabalho interministerial dedicado à formulação de políticas públicas para prevenir e tratar a dependência em jogos, instituído em 2025. A pasta também publicou um Guia Clínico para a Rede de Atenção Psicossocial, com o objetivo de orientar as equipes do SUS na estruturação do cuidado integral e territorial. No fim de 2025, foi lançada ainda a Plataforma Nacional de Autoexclusão, pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, que permite ao cidadão restringir seu próprio acesso às casas de apostas autorizadas, como forma de prevenir danos financeiros e à saúde. Segundo o governo, mais de um milhão de pessoas já usaram essa ferramenta.
Gabriella de Andrade Boska, coordenadora do Departamento de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, afirma que o Brasil já reconhece as apostas como um problema de saúde pública, seguindo o que preconiza a Organização Mundial da Saúde, e que essa mudança já é sentida dentro do SUS. Segundo ela, as ações precisam ser coordenadas entre ministérios, Legislativo e Executivo, e existe hoje um trabalho estruturado em quatro eixos, que vai da prevenção e informação da população até a organização do cuidado dentro do sistema público, incluindo o site Não Aposte Sua Saúde, criado para disseminar informações à população. Como porta de entrada para o cuidado, há ainda teleatendimento em saúde mental pelo aplicativo Meu SUS Digital, em parceria com o Hospital Sírio-Libanês, iniciativa que já registrou 6.912 cadastros em todo o país, segundo o ministério.
Apesar de considerarem as iniciativas importantes, especialistas avaliam que a tendência é de aumento no número de casos. Filipe Asth, especialista em relações institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, afirma que a plataforma de autoexclusão é um mecanismo relevante, mas ainda insuficiente. Dados do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas de 2023 apontam que 7,3% da população brasileira com 14 anos ou mais apresenta comportamentos de jogo com potencial de dano, dos quais cerca de 0,8% já mostram características compatíveis com transtorno de jogo, números que tendem a ter aumentado desde então. Asth defende também mais investimento na rede pública de acolhimento dentro da Rede de Atenção Psicossocial, que conta atualmente com 3,6 mil Centros de Atenção Psicossocial no país, concentrados principalmente no Nordeste e no Sudeste.
A pesquisadora da Fiocruz Olga Jacobina destaca que essa rede tem atribuição para atender pessoas com transtornos relacionados a jogos de aposta, mas pondera que a atenção à saúde mental não pode depender exclusivamente desses serviços, já que se trata de um fenômeno complexo, influenciado por fatores sociais, econômicos e culturais. Segundo ela, medidas isoladas tendem a ter efeito limitado, e a redução de danos depende da atuação simultânea em diferentes frentes, incluindo regulação da atividade, prevenção e tratamento das pessoas afetadas. Mirella Mariani, supervisora do Ambulatório do Jogo da Universidade de São Paulo, recomenda que as famílias procurem as equipes de saúde da família na atenção primária, que podem oferecer suporte em conjunto com outros serviços, como a assistência social.
Em São Paulo, o Ambulatório do Jogo da Faculdade de Medicina da USP existe desde 1996 e trabalha há décadas com esse tipo de tratamento, hoje voltado não apenas a bingo, pôquer ou loterias, mas também a apostas esportivas, jogos digitais e até investimentos no mercado financeiro e em criptomoedas. O atendimento começa com um teste comportamental, seguido de triagem, avaliação psiquiátrica, clínica e neuropsicológica, conduzida por uma equipe de 50 profissionais que trata tanto a dependência quanto outras comorbidades associadas. Segundo Mirella, o tratamento funciona melhor quando um familiar ou pessoa de apoio acompanha o paciente, e as sessões em grupo tendem a ser mais eficazes e permitem atender mais pessoas ao mesmo tempo. Após uma etapa inicial de quatro sessões, o paciente segue para a psicoterapia, que dura em média de 16 a 20 sessões.
A supervisora do ambulatório observa que o perfil dos pacientes mudou completamente nos últimos anos. Há cerca de dez anos, o bingo era a primeira escolha de jogo, mas hoje o cenário é dominado pelas apostas e jogos online. A procura por atendimento também cresceu de forma expressiva, saindo de uma média de 800 pacientes inscritos para triagem por ano para cerca de 1.800 pessoas somente no primeiro semestre deste ano, a maioria delas apostando pela internet.
A dependência em jogo, chamada de ludopatia, é uma condição médica caracterizada pelo desejo incontrolável por jogos de azar, conhecida há décadas pelos profissionais de saúde. O que antes exigia deslocamento e um momento específico para jogar em bingos, pôquer ou casas de aposta físicas, hoje pode acontecer 24 horas por dia, sete dias por semana, graças ao acesso facilitado pelas plataformas digitais. Segundo Olga Jacobina, a dependência ligada às apostas online tem características semelhantes às observadas em outros transtornos aditivos, como o uso abusivo de substâncias, já que a combinação de incerteza, recompensas ocasionais e quase-ganhos mantém o sistema cerebral de recompensa constantemente ativado, o que pode reforçar o comportamento de apostar mesmo diante de perdas sucessivas. Segundo Mirella, o indivíduo costuma entrar no jogo por impulso e se manter por compulsão, buscando uma dopamina imediata que passa a ocupar o centro de suas prioridades.
A intensidade dos jogos e das perdas também traz impactos diretos para a saúde mental, segundo as especialistas. Em pouco tempo, a pessoa pode acumular dívidas significativas, o que compromete sua estabilidade econômica e afeta relações familiares, sociais e de trabalho, agravando ainda mais o quadro emocional. Mirella faz uma ressalva sobre o uso do termo vício para descrever esse comportamento, considerado impreciso por remeter à ideia de escolha, como se a pessoa optasse pelo descontrole mesmo ciente das consequências. Para ela, o termo dependência é mais adequado, já que descreve uma alteração no organismo que condiciona a pessoa a repetir a prática, tratando-se de alguém que está doente e sofrendo, o que torna importante que familiares evitem reforçar esse comportamento com julgamentos estigmatizantes.
Esse é um tema sensível, especialmente por envolver relatos de sofrimento psíquico e perda de vida. Quem estiver passando por dificuldades relacionadas a apostas ou saúde mental pode buscar apoio pelo Centro de Valorização da Vida, no número 188, disponível 24 horas por dia, ou pelas unidades do SUS mencionadas na matéria.







