Quando ocorre um desastre desse tipo, o desafio parece ser o mesmo para todos que necessitam de um hospital: ruas alagadas podem dificultar o acesso, além da disputa por leitos e, por vezes, até por itens simples como agulhas, com os afetados diretamente pelo fenômeno natural. “Mas os pacientes oncológicos são ainda mais vulneráveis a esses eventos, que se tornam mais frequentes e prolongados do que antes”, afirmou Letícia.
Ela apresentou um estudo que comparou pessoas que lidavam com tumores: elas apresentaram um risco 19% maior de morrer durante o tratamento nos períodos de furacão, em comparação com aquelas que se trataram contra o mesmo tipo de câncer, na mesma instituição, mas em outra época qualquer.
As mudanças climáticas também aumentam o risco de surgimento da doença, como destacou Robert Allan Hiatt, professor de epidemiologia e bioestatística da Universidade da Califórnia, em São Francisco (EUA). “As queimadas, intensificadas pelas secas que temos vivenciado, geram uma enorme quantidade de poluentes que ficam concentrados no ar por meses. Esses poluentes também são carcinogênicos”, apontou.
Entre os presentes na plateia estava outra brasileira, a enfermeira Luciana Manfredini, consultora de projetos em oncologia do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. De certa forma, ela se encontrava ali por ter testemunhado de perto uma outra espécie de “furacão”, que vitimou sua mãe, Leni, aos 70 anos, poucas semanas depois do diagnóstico de um tumor que já havia se espalhado pelo corpo.
Foi Leni quem incentivou a filha única a fazer um curso técnico de patologia durante o ensino médio. Nesse curso, uma amiga sugeriu que fizessem o trabalho de conclusão sobre câncer, algo que Luciana sequer imaginava. Mas ela decidiu pesquisar mais a respeito na internet à meia-noite e, quando se deu conta, já passavam das 6 horas da manhã. Dali em diante, a oncologia passou a ocupar seu tempo. “Cursei enfermagem já consciente de que era essa a especialização que desejava”, conta.
Retomando a discussão sobre os eventos climáticos, Leni não tinha histórico familiar de câncer, sempre seguiu uma dieta saudável, manteve suas aulas de pilates e realizava os exames de rotina. Por isso, Luciana arrisca a hipótese de que a causa da doença materna foram as alterações ambientais, e vem se dedicando ao estudo do assunto desde 2020. Por essa razão, foi solicitada a ajuda dela para explicar de que forma os fenômenos climáticos afetam pessoas que enfrentam esse furacão chamado câncer.







