Em 2022, tive o diagnóstico de burnout. Sem rede de apoio, me abri para a pessoa mais próxima a mim e ela foi a primeira a me virar as costas. Sozinho, entrei em colapso, até que a situação ficou tão insustentável que fui buscar ajuda psiquiátrica. A partir da primeira consulta iniciei o tratamento, e ele segue em andamento e talvez seguirá por toda a minha vida.
Após a consulta com a médica psiquiatra, fui encaminhado a um nutrólogo. Os exames foram chocantes. O médico, incrédulo, disse: “esses resultados seriam comuns em uma pessoa muito idosa e doente”. Sim, eu me cobrei tanto, me desgastei tanto e trabalhei tanto, que esgotei minhas fontes de energia. Tive que fazer reposição hormonal, tomar semanalmente injeções de vitamina D e B12, medicação para glicose e seguir uma dieta super restrita para regular o colesterol.
Além de toda a parte metabólica, tive uma lesão grave na lombar e outra no ombro, causadas pelo excesso de peso que carrego no restaurante e pelos movimentos repetitivos com as panelas e pesos que só quem trabalha em uma cozinha de restaurante conhece. Assim, fui medicado com morfina, fiz do consultório do ortopedista quase a minha casa, iniciei sessões de fisioterapia e depois fui encaminhado à prática de pilates. Convivo com uma bursite desde então — uma inflamação crônica no ombro que causa muita dor, e essa dor só para enquanto estou me exercitando. Uma semana sem ir ao pilates e lá está ela de volta, me assombrando.
Todo esse tratamento me custou muito caro. Tive que reduzir minha rotina de trabalho na minha empresa, confiar funções a outras pessoas, reduzir o ritmo. Isso teve um preço alto: a qualidade do serviço e da comida que sempre entreguei teve uma queda, perdi clientes fiéis e sequer tive forças para ir atrás deles. Enquanto tratava ansiedade, depressão, lesões e dores, via a minha empresa sofrendo as consequências. Tive que pegar empréstimos, lutar com forças minhas que eu desconhecia e, assim, comecei a reviravolta.
A pandemia tinha acabado, os efeitos dela ainda eram sentidos no bolso e na carne. E enquanto eu gastava o que não tinha para vencer todas as doenças causadas por essa estafa extrema que chamam de burnout, fui diagnosticado com TDAH e altas habilidades. Segundo a minha médica, foram essas tais “altas habilidades” que me ajudaram a encontrar saídas onde todas as portas e janelas pareciam fechadas. Em 2024, fiz uma viagem de longa duração; foi a primeira vez em 37 anos de vida que me permiti tirar férias com mais de 15 dias de duração. Antes disso, foi graduação, pós, mestrado, cursos, palestras, oficinas… tudo, absolutamente tudo era feito visando o aperfeiçoamento profissional.
Infelizmente, o que vivi na pele não é um caso isolado, mas sim o quadro de muitos da minha geração. Hoje, ainda convivo com o burnout, tomo medicações prescritas e caras, tento descansar em todas as brechas possíveis e tento delegar o máximo das responsabilidades, sem deixar cair a qualidade do que sirvo. Afinal, é a Oca que me supre — e não apenas a mim, mas a dezenas de pessoas que dependem dela, entre funcionários, prestadores de serviços e fornecedores.
Essa minha dolorosa experiência me faz olhar ao redor e perceber que o buraco é muito mais embaixo… Não concordo com a velha frase “no meu tempo era melhor”, dita à exaustão por quem escolheu envelhecer mal. Mas, como um homem de 39 anos, sinto-me esmagado por duas gerações completamente opostas. Por isso a psicologia nos chama de “geração sanduíche”. De um lado, os jovens que estão no apogeu do colágeno, esbanjando energia entre seus 18 e 29 anos; do outro, os senhores e senhoras que já passaram dos 50 anos e estão vivendo o auge da maturidade e as limitações do envelhecimento no corpo físico.
Cá estou eu, perdido em uma geração que não tem interesse em trends idiotas (six seven e afins), tampouco nas piadas dos tios do pavê. Mas, evidentemente, nem todo jovem está imerso nas futilidades e nem toda pessoa 50+ está interessada em piadas sem graça, saudosismos amargos e coisas do tipo.
Enquanto isso a minha geração, essa entre 30 e 50 anos, está comprimida, com a saúde mental em frangalhos e com a responsabilidade de carregar o mundo nas costas. Ainda temos bastante força física, apesar de sentirmos os primeiros sinais do envelhecimento; temos maturidade, um currículo extenso, muita experiência profissional e somos os queridinhos do mercado de trabalho. Por isso, somos a geração que mais sofre de depressão, ansiedade e cansaço extremo, o tal do burnout – palavra pronunciada como se fosse algo romântico e macio, mas que tem levado grande parte da minha faixa etária ao suicídio e a transtornos e doenças graves no corpo e na mente.
Minha geração, os millennials e o topo da geração X, cresceu sob a naturalização do trabalho extremo. “Engole o choro e trabalha”, “você precisa aguentar, tem que pagar o aluguel”, “você precisa de mais uma pós-graduação”, “cadê seu mestrado?”. Mestrado feito: “e o doutorado?”. A cobrança infinita e a nossa capacidade de colocar limites, bem, isso não nos foi ensinado.
Enquanto as gerações anteriores à minha chegavam aos 40 com certa estabilidade, e uma simples graduação era a garantia de um salário razoável, a minha geração, segundo o IBGE, é a campeã em acumular especializações e cursos, mas nem sempre isso garante um salário condizente com o nível de formação. Enquanto a geração sanduíche luta para sobreviver aliando cursos com trabalho, virando noites, sacrificando as relações interpessoais e travando uma batalha solitária para “vencer na vida”, o INSS traz dados assustadores: a faixa etária de 30 a 49 anos figura entre 62% e 65% dos afastamentos por transtornos mentais e doenças ocupacionais no Brasil. Ou seja, trabalhamos até sucumbir, até esgotar todas as forças, pois fomos ensinados a não ouvir os sinais do nosso próprio corpo.
Muitos de nós ainda seguem a cartilha dos mais velhos, que, pelo exemplo, nos mostram que saúde mental é besteira, que ir ao psicólogo ou psiquiatra é coisa de gente fraca ou é frescura. Daí decorre que a minha geração seja a campeã das subnotificações em diagnósticos de saúde mental. Enquanto isso, a maior parte da geração 50+ se recusa a falar sobre esse assunto, e os jovens com menos de 30 anos, criados com a internet e a superexposição das redes sociais, não sentem constrangimento em declarar para o mundo os seus sentimentos e dores. São eles os que mais buscam ajuda de profissionais da área da saúde mental. E, nesse aspecto, nós precisamos aprender com eles!
Apesar de a geração 30 menos ser a campeã dos diagnósticos clínicos de saúde mental, ela não é de fato a mais adoecida, uma vez que é a “geração sanduíche” que carrega seus traumas, transtornos e esgotamentos até às últimas consequências. A geração 30 a 50 anos precisa buscar, com urgência, ajuda psicológica e aprender a tirar o peso de carregar o mundo nas costas!
Infelizmente, a maior parte age como eu agi, espera a descida chegar ao fundo do poço, para somente assim buscar ajuda. Enquanto isso a geração Z se antecipa, eles já entenderam que precisam colocar limites antes do colapso, por isso eles são a geração com mais diagnósticos clínicos na área da saúde mental, por serem os que mais buscam por esse tipo de assistência de forma antecipada, como deve ser!
Falar das situações que enfrentei e ainda enfrento na minha vida profissional não é uma fácil confissão. Mas acredito que todos aqueles que me viram afastado e recluso nem faziam ideia das savanas que precisei atravessar para não sucumbir e, literalmente, perder a minha vida para um sistema que nos suga até a última gota e depois nos descarta.
Em meio a essa análise geracional e ao meu relato, meu conselho para todas as gerações é: busquem ajuda com profissionais qualificados. Não tem dinheiro? Busque o SUS! Não tenham vergonha das suas falhas, não percam suas noites de sono por conta de um cliente que não gostou de algo que você entregou. Busque se aprimorar, mas sem que isso custe a convivência com seus afetos. Cuide do seu corpo, se você teve um diagnóstico, aceite o tratamento, colabore consigo!
Esqueça essa história de que existem pessoas “raiz” e pessoas “nutella”, assuma suas vulnerabilidades, aceite que errar faz parte, que nem todo mundo vai ficar feliz com a sua felicidade e que, por mais que você se esforce, você jamais será amado, valorizado e aceito de forma unânime.
Estes aprendizados são muito presentes na geração mais jovem. Salvo alguns excessos, a geração Z tem sido um alento no avanço de pautas que a minha geração começou a levantar há 20 anos. O próprio fato de a geração Z ser a que mais procura assistência à saúde mental mostra que os pais de 30 a 50 anos estão dando mais atenção aos seus filhos. Ou seja, a minha geração está criando jovens mais humanos e está buscando projetar em seus filhos o cuidado que não tiveram quando mais jovens.
Quanto à realidade nua e crua: o capitalismo de acumulação é baseado na exploração — um sistema abstrato que, como um rolo compressor, nos esmaga. Mas cabe somente a nós escolher entre ter e ser, respeitar nossos próprios limites, encarar nossos medos e nos humanizar. Afinal, a maior arma contra um sistema desumano é manter-se humano!






