A metrópole do abraço: sociabilidades, encontros e o espaço urbano da Grande Vitória

O que fazer com uma cidade que não cabe inteiramente nos modelos urbanistas? Essa pergunta não é um lamento nem uma celebração: é um ponto de partida. A Região Metropolitana de Vitória, como tantos outros espaços urbanos e metropolitanos do Sul Global, tem sido frequentemente lida a partir de ausências: o que lhe falta em termos de infraestrutura, o que ainda não alcançou em comparação às metrópoles de referência, o que permanece incompleto diante dos padrões de modernidade urbana consolidados pela literatura sociológica, econômica e geográfica. Essa leitura, ao insistir no déficit, tende a naturalizar o modelo como horizonte obrigatório e a converter qualquer diferença em atraso, desvio ou falha.

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Este texto propõe um deslocamento. Não se trata de afirmar que a Grande Vitória constitui um caso único, singular ou excepcional no sentido folclórico. Nem de alimentar a ideia, tantas vezes mobilizada por capixabas que circulam o mundo e carregam consigo a melancolia da comparação, de que “somos uma Vitorinha”, uma cidade que não chegou ao destino ao qual deveria ter chegado. Esse conceito, aliás, é ele próprio moderno, social e literário: nasce da experiência de entrelugares, de quem partiu e olha para trás com a saudade como filtro e a distância como parâmetro. Não somos um paraíso e tampouco somos uma promessa frustrada. Somos o que somos, com as condições que temos e com as que poderíamos ter, caso as elites dirigentes locais e regionais, em parceria seletiva com setores da sociedade civil, não insistissem na retórica de que a política é a arte do possível, o que, na prática, significa que tudo seguiu sob o mesmo ritmo provinciano de outrora, mesmo depois de uma explosão urbana e metropolitana de proporções significativas.

O que se propõe aqui, portanto, é outro gesto: tomar a realidade da Grande Vitória, com suas dinâmicas de sociabilidade, seus modos de circulação pelo espaço urbano, suas formas de encontro e de reconhecimento, como uma oportunidade de compreensão, e não como material de depreciação. Se os modelos sociológicos clássicos da vida urbana, da metrópole como espaço do anonimato, da impessoalidade e da dessensibilização, encontram aqui uma superfície de resistência, isso não é necessariamente um problema a ser corrigido. Pode ser, ao contrário, um dado a ser investigado: uma pista sobre a capacidade inventiva e autônoma das experiências urbanas em contextos que escapam das trajetórias canônicas de modernização. As páginas que seguem são, nesse sentido, muito mais um exercício de flanar do que de demonstrar, um esboço que aceita seus próprios limites e, talvez por isso, abre espaço para perguntas que a certeza fecharia.

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Esses rabiscos são apenas um esboço de diversas caminhadas pela Região Metropolitana de Vitória. Não pretendemos falar de uma verdade, mas apenas projetar uma compreensão, ou uma fotografia, de um instante de encontros pelo espaço urbano das cidades. Bem longe de ser um filme ou uma certeza absoluta sobre elas, talvez sejam as minhas trajetórias e sociabilidades que me possibilitam tantos abraços em caminhadas sem roteiro nem objetivos: um flanar pela cidade em busca de significados, surpresas e choques, produzindo deslocamentos que nos envolvem em perguntas e posicionamentos. Nas cidades, sempre buscamos o nosso lugar, a nossa comunidade ou o nosso lar, que pode ou não corresponder a todo o território político-administrativo denominado município ou região metropolitana. É dentro dessa vontade que descobrimos as diferenças ou que despertamos para o outro não como inimigo ou ameaça, mas como membro da comunidade chamada cidade.

Para os parâmetros dos limites capixabas e das cidades pequenas e médias mais próximas, Vitória já possui centralidade e capitalidade que a assemelham a uma metrópole: sua área de integração e influência transbordou do território próximo e atravessou os mares. Além disso, fragmentos da capital e das demais cidades revelam o que há de mais contemporâneo em termos de novidade e modernidade urbana e econômica; já conseguimos acompanhar as tendências e a moda, e já contamos com um grande mercado de luxo. Por outro lado, temos todos os problemas urbanos e sociais de um espaço restrito, médio, grande ou metropolitano, pois, embora não estejamos comandando os processos econômicos, políticos e urbanos mais gerais, tampouco estamos apartados ou marginalizados.

Diante dessas transformações econômicas e demográficas, Vitória carrega uma característica de cidade do interior, talvez por questões culturais, demográficas ou pelas dinâmicas familiares e pelas formas de sociabilidade. É quase impossível perambular anonimamente na Grande Vitória, caminhar sem rosto, ou seja, como um anônimo na massa que se faz presente: sempre alguém nos viu ou nós o vimos e, desse encontro, saem um abraço, um sorriso e um breve balanço sobre família e amigos, quase sempre entre separações, mortes e casamentos, bem como a pergunta de sempre: como está fulano ou beltrano? E seguimos para casa espantados.

Algum matemático, geógrafo ou cientista social terá uma explicação para tal fenômeno: no encontro casual de rua, percorrem-se as redes de amizade e sempre nos deparamos com pessoas conhecidas. Lembrando Norbert Elias e as configurações sociais nas quais estamos inscritos, o que significa estar envolvido num emaranhado de teias sociais, fica claro que escapar da fofoca e das regras na Grande Vitória exige atenção redobrada. A metrópole do abraço não está fora dos modelos sociológicos da vida urbana, mas chama a atenção o fato de que a realidade é sempre mais plural e múltipla do que os modelos analíticos que, muitas vezes, são utilizados de maneira equivocada e apressada para universalizar explicações e posições sociais e políticas.

Peço que façam um teste: saiam desprevenidos para um lugar mais distante e, de repente, sem que percebam, alguém grita o seu nome, e vem aquela gargalhada e os abraços. É claro que se trata de um abraço seletivo e restrito, apenas entre conhecidos e parentes, numa rede fechada que se move e se desloca pelo espaço urbano da Grande Vitória.

O que esse percurso nos deixa, ao final, não é uma teoria da sociabilidade capixaba nem uma conclusão definitiva sobre os modos de viver e circular na Grande Vitória. O que ficou , e importa dizer isso com clareza , é um conjunto de impressões, encontros e sensações produzidas a partir de trajetórias pessoais e de uma experiência situada, que carrega, como toda experiência individual, seus limites constitutivos. A subjetividade do flanar não é um defeito metodológico pelo qual se pedem desculpas: é a condição de possibilidade desse tipo de olhar, que só vê porque está dentro, mas que, por estar dentro, não pode ver tudo.

Esses limites se fazem sentir especialmente em dois pontos. O primeiro é o da seletividade das redes de sociabilidade aqui descritas: os abraços que aparecem ao longo deste texto são abraços conhecidos, trocados entre amigos, parentes e pessoas que compartilham uma mesma teia social, o que Norbert Elias nos ajudaria a ler como configurações sociais específicas, e não como a sociabilidade geral de uma cidade. Não abraçamos o outro de Lévinas, o rosto desconhecido, a alteridade radical, aquele que não pertence às nossas redes. Abraçamos os nossos. E essa distinção não é pequena: ela denuncia, sob a afetividade, uma estrutura de familismo, empatia seletiva, sociabilidades restritivas e espaços sociais vigiados que organiza, de forma silenciosa, os modos de pertencimento e exclusão no espaço urbano metropolitano. O abraço, percebido dessa forma, não é apenas uma cena de afeto; é também um mapa das fronteiras sociais que a metrópole do abraço, talvez sem querer, desenha e reproduz.

O segundo limite é o da experiência literária e ensaística como forma de produção de conhecimento. O que esses rabiscos oferecem tem valor de testemunho e de provocação, mas não substitui a investigação sistemática, etnográfica, sociológica, histórica, geográfica, que a complexidade da Região Metropolitana de Vitória exige e que, em grande medida, ainda está por ser feita com a profundidade que merece. Se este texto tem algum mérito, talvez seja o de apontar algumas perguntas: como se formam e se reproduzem as redes de sociabilidade metropolitana em contextos de urbanização acelerada e desigual? O que os modos de circulação pelo espaço urbano revelam sobre as hierarquias sociais, raciais e econômicas de uma metrópole que abraça os amigos, mas ainda não aprendeu a reconhecer o desconhecido? De que maneira a experiência de uma cidade que cresceu depressa demais para a política que a governa e devagar demais para os seus próprios desejos pode iluminar os limites dos modelos urbanos hegemônicos e, ao mesmo tempo, revelar formas de invenção, resistência e pertencimento que esses modelos raramente enxergam?

Vitória não é um laboratório, nem uma exceção, nem um paraíso. É uma cidade, e é por isso que vale a pena continuar olhando para ela com atenção, estranhamento e, quem sabe, alguns abraços no caminho.

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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