A era das canetas emagrecedoras já começa a demonstrar seus efeitos na ficção: Insaciável transforma a busca por emagrecimento rápido em um terror grotesco.
Em 2024, A Substância apresentou Demi Moore e Margaret Qualley em um dos filmes de terror mais notáveis dos últimos anos, tanto pela sua abordagem original de um tema importante quanto por seu estilo visual repleto de sangue, ossos e fragmentos. Se esse filme chamou atenção, chegou a hora de considerar Insaciável, que foi lançado hoje (6) nos cinemas e aparenta ser um “filho espiritual” do longa de Coralie Fargeat – bem menos maduro, sem dúvida, mas ousado em suas ideias. De uma maneira ou de outra, é atraente.
Qual é a trama de Insaciável: A busca pela magreza se torna um tormento fatal
Hana (Midori Francis) é uma estudante de medicina que se sente insatisfeita com seu corpo e possui uma meta de emagrecimento – sempre inalcançável. A solução mágica surge através de uma amiga, que lhe apresenta uma pílula que promete perda de peso garantida, sem necessidade de mudanças nos hábitos ou na alimentação.
O problema reside no fato de que a substância responsável por isso são cinzas humanas. Ao optar por usar um cadáver das aulas de medicina para extrair as cinzas e alcançar o corpo ideal, a compulsão alimentar de Hana evolui para um tormento obsessivo, aparentemente incompreensível e potencialmente letal.
Insaciável e A Substância compartilham a pressão por beleza (e terror corporal)
Embora A Substância seja muito mais preciso, sofisticado e inigualável em sua proposta de explorar a pressão estética enfrentada pelas mulheres como um fator de sofrimento, Insaciável também aborda essa temática: enquanto o filme de 2024 explora a busca dolorosa pela juventude eterna, o novo terror centra sua atenção na pressão por magreza. Hana se torna uma entre inúmeras vítimas de uma sociedade onde o corpo nunca parece magro e perfeito o suficiente, mesmo que isso custe a saúde.
A narrativa provoca reflexões sobre como a era da popularização das canetas emagrecedoras já começa a render frutos. A pressão pela conformidade com o corpo ideal persiste há muito tempo, mas as canetinhas elevaram essa busca a um novo patamar: agora, o resultado parece instantâneo e acontece em pouquíssimo tempo. Dessa forma, Insaciável também introduz a questão do imediatismo: não se quer apenas emagrecer, mas sim IMEDIATAMENTE.
A diretora Natalie Erika James, portanto, incorpora o elemento “resultado rápido” à equação e extrapola a ficção, resultando em consequências catastróficas, trágicas e extremamente repulsivas. Assim, a experiência visual torna Insaciável um entretenimento eficaz dentro do terror corporal, embora a discussão central possua um potencial mais interessante no campo das ideias do que na execução propriamente dita.
Esse aspecto se destaca especialmente por meio de comentários de “esse filme é gordofóbico” que foram ouvidos de alguns espectadores ao final da sessão. Um ponto a ser observado e refletido: em Insaciável, um corpo gordo é apresentado de forma grotesca – um debate que já foi abordado, por exemplo, na representação de pessoas idosas como monstruosas e ameaçadoras em diversos filmes de terror. A intenção claramente busca criticar esse exagero, embora não necessariamente tenha sido bem-sucedida para todos, simbolizando a relação da sociedade, em geral, com o medo de engordar.
Assim como A Substância (e novamente: não se trata de uma comparação artística, pois essa não é adequada), Insaciável também inicia uma discussão sobre um tema relevante e atual, que pode se tornar um verdadeiro pesadelo para muitas pessoas.
Insaciável já está disponível nos cinemas.







