Projeto criado por pescadores já retirou cerca de 20 toneladas de resíduos dos manguezais da Grande Vitória e atua na preservação de um dos ecossistemas mais importantes do Espírito Santo
Enquanto a maioria da população observa os manguezais apenas da margem, um grupo de voluntários entra na lama para retirar resíduos que ameaçam um dos ecossistemas mais importantes do Espírito Santo.
Enfrenta obstáculos, vegetação fechada e muito lixo na missão de preservar um patrimônio natural essencial para a Grande Vitória.
Criado em 2012 pelo pescador e ativista Alexandre Rosa, o Projeto Mangue Limpo reúne pescadores, amigos e simpatizantes da causa ambiental. Promove ações periódicas de limpeza nos manguezais, rios e canais da Grande Vitória.
Desde o início das atividades, o grupo estima ter retirado aproximadamente 20 toneladas de resíduos da natureza.
A iniciativa nasceu a partir de um problema que afetava diretamente moradores das regiões de Porto de Cariacica, Bubú e Campo Verde. O acúmulo de lixo nos manguezais impedia o fluxo das águas, provocando alagamentos e prejuízos às famílias.
Ao recordar o início da iniciativa, o coordenador do Projeto Mangue Limpo, Alexandre Rosa, explicou que a preocupação surgiu ao presenciar o sofrimento da população.
“Em 2012, vendo a dificuldade e a tristeza de muitas famílias perdendo seus móveis por causa dos alagamentos, entendemos que precisávamos desobstruir a passagem das águas. Os sacos plásticos, pneus e outros materiais travavam o fluxo da água. Foi aí que resolvemos juntar os amigos e iniciar esse trabalho”, afirmou o coordenador.
Em diferentes comunidades brasileiras, é comum que moradores se organizem para enfrentar problemas coletivos quando a solução demora a chegar. O Projeto Mangue Limpo nasceu exatamente desse espírito de solidariedade.
Antes mesmo de se tornar uma referência em ações ambientais, foi uma resposta espontânea de pessoas que decidiram transformar a indignação em atitude prática.
Alexandre conta que a mobilização começou de forma simples, reunindo pessoas que compartilhavam o mesmo vínculo com o manguezal e compreendiam sua importância para a vida das comunidades.
“Eu, Alexandre Rosa de Jesus, tive a iniciativa de liderar o projeto, convidar as pessoas e iniciar esse trabalho voluntário. Juntamos pescadores, amigos e pessoas que gostam da natureza e vivem do que o manguezal oferece”, relatou o ambientalista.

Foto de arquivo do projeto.
Trabalho voluntário
Sem apoio permanente do poder público e dependendo de contribuições pontuais da iniciativa privada, o Projeto Mangue Limpo funciona essencialmente por meio do voluntariado.
De quatro a seis vezes por ano, os integrantes organizam mutirões para atuar justamente onde o acesso é mais difícil.
Antes de cada ação, o grupo realiza visitas técnicas para identificar os pontos mais críticos. A prioridade é alcançar áreas onde a limpeza dificilmente chega.
Ao descrever a rotina dos mutirões, Alexandre Rosa ressaltou que o trabalho exige esforço físico, planejamento e compromisso coletivo.
“Entramos nas embarcações e seguimos para dentro do mangue. A gente retira o lixo atolando até a canela, às vezes até o joelho. Começamos pela manhã e encerramos perto do meio-dia. Depois voltamos para compartilhar um almoço entre os voluntários”, explicou.
Embora o projeto tenha surgido em Cariacica, as ações já alcançam diferentes municípios da Região Metropolitana.
Segundo Alexandre, o grupo atua em manguezais de Cariacica, Vitória, Vila Velha e Serra, sempre priorizando os locais onde a degradação ambiental é considerada mais grave.
“A demanda é muito grande. Tocou no nosso coração. Quando encontramos um ponto crítico, mobilizamos o grupo e vamos. Dá tristeza. A gente entra no mangue com vontade de chorar quando se depara com tanto lixo”, declarou.
O depoimento revela uma realidade que normalmente permanece distante do olhar da população. Grande parte das pessoas conhece o manguezal apenas de passagem e dificilmente presencia os impactos provocados pelo descarte irregular de resíduos.
A consequência é que o problema costuma ser percebido apenas quando aparecem enchentes, mau cheiro ou redução da pesca.

Foto de arquivo do projeto.
Quem participa das ações presencia uma realidade diferente. O lixo acumulado compromete o desenvolvimento das raízes e dificulta a circulação das marés. O impacto também ameaça espécies que fazem parte da alimentação e da economia regional.
A experiência direta costuma transformar a percepção dos voluntários e reforçar a compreensão de que preservar o manguezal significa proteger também a qualidade de vida das pessoas.
Desafio
Ao longo dos anos, o grupo encontrou praticamente todo tipo de resíduo descartado de forma irregular. Entre eles estão pneus, colchões, garrafas PET, televisores antigos, calçados e diversos materiais recicláveis.
No entanto, Alexandre afirma que um resíduo se destaca pela dificuldade de remoção.
“Hoje o nosso principal desafio é o isopor. O vento leva com facilidade e ele vai se quebrando em pedaços cada vez menores. A gente precisa retirar tanto os pedaços grandes quanto os pequenos”, disse.
A preocupação tem fundamento científico. O isopor, conhecido tecnicamente como poliestireno expandido (EPS), leva centenas de anos para se decompor na natureza.
Com o tempo, fragmenta-se em pequenas partículas que permanecem no ambiente e passam a circular entre rios, manguezais e o mar.
Esses fragmentos podem ser ingeridos por peixes, crustáceos, aves e outros animais, causando obstrução do sistema digestivo e falsa sensação de saciedade, além de favorecer o transporte de contaminantes presentes na água.
Nos manguezais, onde diversas espécies encontram abrigo e alimento, esse tipo de poluição compromete todo o equilíbrio do ecossistema.
Preservação do mangue
Para os integrantes do Projeto Mangue Limpo, a preservação dos manguezais vai muito além da retirada de resíduos. O trabalho está diretamente ligado à proteção da biodiversidade e ao sustento de centenas de famílias que dependem da pesca e da coleta de mariscos.
Ao explicar a importância ambiental da iniciativa, Alexandre chamou atenção para os impactos da poluição sobre o ecossistema.
“Esse trabalho traz vida novamente ao ecossistema. Muitas famílias sobrevivem do manguezal. A poluição está aumentando e já percebemos a diminuição de mariscos e ostras. Antes a gente encontrava muito mais”, afirmou.
Segundo o ambientalista, preservar o manguezal significa proteger a cadeia alimentar, manter a atividade pesqueira e conservar um patrimônio natural essencial para o equilíbrio ambiental da Grande Vitória.

Print de vídeo do arquivo do projeto.
Apelo à população
Além das ações de limpeza, o projeto aposta na conscientização como principal ferramenta para reduzir a degradação ambiental. Alexandre Rosa acredita que pequenas mudanças de comportamento podem impedir que toneladas de resíduos cheguem aos rios e, posteriormente, aos manguezais.
“Quem não puder participar dos mutirões pode ajudar cuidando do próprio lixo. Não jogue lixo em rios, córregos ou terrenos baldios. A chuva leva tudo para o manguezal”, alertou.

Divulgação realizada pelo Projeto Mangue Limpo.
O coordenador defende que a preservação depende da participação de toda a sociedade. Para ele, escolas, famílias, veículos de comunicação, empresas e instituições públicas possuem papel decisivo na formação de uma consciência ambiental permanente.
Quanto mais cedo crianças e jovens compreenderem a importância dos manguezais, maiores serão as chances de reduzir a degradação ambiental nas próximas gerações.
“Temos que conscientizar nossas crianças e nossos jovens de que precisamos cuidar do planeta que Deus criou com tanto carinho e que o homem está destruindo”, disse.
Ao concluir a entrevista, Alexandre resumiu o sentimento que mantém o projeto ativo desde 2012.
A frase do coordenador do Projeto Mangue Limpo sintetiza esse alerta:
“O Espírito Santo agradece. O manguezal agradece”, concluiu o ambientalista.
Preservar os manguezais significa proteger um patrimônio natural que sustenta comunidades, conserva a biodiversidade e ajuda a garantir qualidade de vida para as futuras gerações de capixabas.
Contato pelo Instagram: @projetomanguelimpoes






















