O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, manifestou descontentamento com a gestão da guerra contra o Irã e exigiu esclarecimentos do secretário de Defesa, Pete Hegseth, sobre a falta de munições nas Forças Armadas americanas, conforme informações divulgadas pelo The Washington Post (WP) na quarta-feira, 5. A conversa ocorreu durante uma reunião em Camp David na semana anterior, em meio a preocupações da Casa Branca sobre a capacidade militar dos EUA para manter o conflito.
Trump acreditava que o problema dos estoques de armamentos estava solucionado e questionou Hegseth sobre a situação atual. Fontes anônimas citadas pelo jornal indicaram que a escassez de munições de precisão, em especial mísseis de longo alcance e interceptadores de defesa aérea, começou a limitar as opções militares americanas contra o Irã.
O esgotamento dos arsenais foi um dos fatores que levaram Trump a recuar da proposta de realizar uma nova ofensiva de grande escala contra alvos iranianos. Na segunda-feira, o presidente disse ter autorizado e depois cancelado “o maior ataque desde a Segunda Guerra Mundial”, enquanto aguardava novos desdobramentos nas negociações sobre o Estreito de Ormuz.
Embora o governo americano tenha assinado novos contratos para aumentar a produção de armamentos considerados estratégicos, como os mísseis Patriot, a recuperação dos estoques deve levar anos. A indústria de defesa estima que alguns sistemas somente poderão ser entregues até dois anos após a assinatura dos contratos, o que impede uma reposição imediata.
Desde o início do conflito, os Estados Unidos consumiram grandes quantidades de munições. Apenas no primeiro mês da guerra, foram lançados mais de 850 mísseis de cruzeiro Tomahawk e mais de 1.000 interceptadores dos sistemas Patriot e THAAD, segundo informações do WP. Um oficial americano também relatou ao jornal que mais de 1.300 mísseis balísticos de ataque foram utilizados nas operações.
A diminuição dos estoques também afeta outras situações de interesse estratégico para Washington. A falta de interceptadores compromete a capacidade dos Estados Unidos de apoiar aliados e de responder simultaneamente a diferentes conflitos, incluindo a guerra na Ucrânia, que também necessita desse tipo de armamento para fortalecer sua defesa aérea.
A limitação de munições levou as Forças Armadas americanas a rever os critérios para a utilização de interceptadores, avaliando com mais rigor quais ameaças justificam o uso desses sistemas diante da dificuldade de reposição.
Durante a reunião em Camp David, Hegseth teria atribuído parte da responsabilidade pela situação ao vice-secretário de Defesa, Stephen Feinberg, dizendo que ele não havia informado adequadamente a Casa Branca sobre a gravidade da escassez. A conversa revelou o desgaste na relação entre Trump e seu secretário de Defesa, um dos principais defensores de uma resposta militar mais agressiva ao Irã no início do conflito.
A Casa Branca negou a versão publicada pelo Washington Post. Em resposta ao jornal, a secretária de imprensa afirmou que a narrativa é “100% falsa” e disse que a conversa descrita nunca aconteceu. O porta-voz do Pentágono, Sean Parnell, também rejeitou as informações, alegando que Hegseth nunca enganou o presidente sobre a situação dos estoques militares e classificou como inverídicas as alegações sobre divergências internas.
Nesta quinta-feira, 6, Trump também negou que os Estados Unidos estejam enfrentando escassez de munições. Em uma publicação no Truth Social, o presidente afirmou que o país possui “quantidades enormes” de armamentos, em especial de determinados tipos, e que a indústria de defesa está ampliando a produção.
Trump criticou as reportagens sobre o assunto, indicou que as autoridades estão identificando os responsáveis pelos vazamentos de informações e ameaçou buscar penas de prisão para quem chamou de “traidores”.
Em uma audiência no Senado realizada em julho, Hegseth evitou detalhar as conversas mantidas com Trump sobre a guerra, mas reconheceu a necessidade de aumentar o orçamento militar. Ao lado de Feinberg e do chefe do Estado-Maior Conjunto, general Dan Caine, o secretário solicitou ao Congresso um aporte adicional de US$ 67 bilhões para cobrir os custos da campanha militar e recompor os arsenais americanos.
O pacote ainda enfrenta resistência no Congresso. A proposta integra um orçamento de defesa de US$ 1,5 trilhão para o próximo ano fiscal, considerado recorde, mas permanece travada devido à falta de acordo entre republicanos e democratas sobre os níveis de gastos.
A reportagem também recorda que as pressões sobre Hegseth aumentaram após o incidente conhecido como “Signalgate”, quando o secretário compartilhou informações confidenciais em um grupo de mensagens que incluía um jornalista. Apesar das especulações sobre sua permanência no cargo, Trump continuou manifestando apoio público ao chefe do Pentágono.
Nos bastidores, fontes ouvidas pelo WP afirmam que a prolongação da guerra, o elevado consumo de munições e o impasse em torno do Estreito de Ormuz têm desgastado a confiança do presidente em Hegseth. Mesmo assim, o Pentágono assegura que o secretário seguirá à frente da pasta e continuará trabalhando para recuperar a capacidade militar dos Estados Unidos.
Especialistas consultados pelo jornal acreditam que a recuperação dos estoques dependerá não apenas da aprovação de novos recursos pelo Congresso, mas também da capacidade da indústria de defesa de aumentar a produção. Mesmo com novos contratos, a expectativa é de que a reposição completa das munições leve vários anos.







