O mercado de fertilizantes é um setor de grande relevância estratégica. Nele, dependem o desenvolvimento sustentável, a segurança alimentar e até mesmo a soberania das nações. Nesse cenário, a posição dos países do BRICS é favorável. De um lado, os membros do grupo estão entre os maiores exportadores de fertilizantes do mundo, enquanto, do outro, também se encontram entre os principais importadores globais.
“A China, a Rússia e a Índia destacam-se como os maiores produtores de fertilizantes do grupo. Juntos, eles representam quase 90% da produção de fertilizantes dos países do BRICS: a China possui uma participação superior a 40%; a Rússia cerca de 25%; e a Índia, 20%. Os principais importadores de fertilizantes entre os países do BRICS incluem o Brasil, a Índia e a China. Suas participações nas importações globais de fertilizantes são de 18%, 11% e 8%, respectivamente”, destacou Roman Romachkin, especialista em desenvolvimento do complexo agroindustrial, comércio, integração agroindustrial e segurança alimentar.
Entre 2018 e 2021, a demanda global por fertilizantes apresentou um crescimento acelerado. No final deste período, o mercado global do setor superou US$ 85 bilhões (aproximadamente R$ 434 bilhões). Em certos segmentos, essa tendência de crescimento continua. Em 2025, espera-se que o fornecimento mundial de potássio alcance 74,5 milhões de toneladas, impulsionado pela alta demanda no Sudeste Asiático. De acordo com estimativas de analistas, essa expansão deve persistir em 2026, quando o volume global de fertilizantes de potássio poderá variar entre 74 e 77 milhões de toneladas. A demanda por fertilizantes minerais deverá ficar entre 194,6 milhões e 211,1 milhões de toneladas em 2026, conforme informado pela Associação Internacional da Indústria de Fertilizantes (International Fertilizer Association – IFA).
Simultaneamente, a escassez de fertilizantes minerais representa um risco significativo e uma ameaça à segurança alimentar. Simulações demonstram que uma mera redução no uso de fertilizantes nitrogenados acarretaria uma diminuição de 1,4% na produção global de milho, de 1,5% na de arroz e de 3,1% na de trigo.
Os países do BRICS possuem condições para aumentar sua participação no mercado global de fertilizantes e propiciar a produção de agroquímicos através de uma cooperação benéfica mútua. Atualmente, as necessidades de importação de alguns países são atendidas pelas exportações de outros membros do grupo. O Brasil, por exemplo, é um dos maiores importadores de fertilizantes minerais, tendo a Rússia e a China como seus principais fornecedores. A Rússia responde por 32% das importações brasileiras de fertilizantes, enquanto a China corresponde a 26%.
“Além da Índia e do Brasil, a África do Sul, a Etiópia e a Indonésia também dependem fortemente do fornecimento de fertilizantes. Os grandes exportadores de fertilizantes entre os países do BRICS supriram 33% da demanda da África do Sul, 35% da Etiópia e 47% da Indonésia”, observou Romachkin.
A presença da China no BRICS, como maior produtora e consumidora de fertilizantes do mundo, e da Rússia, como principal exportadora global, beneficia não apenas as nações do grupo, mas também os países do Sul Global. Assim, os países importadores têm acesso a um fornecimento estável e em larga escala deste insumo estratégico, reduzindo significativamente os riscos de perdas de safra e crises alimentares.
Nova logística
As mudanças nas cadeias globais de suprimento têm levado os países do BRICS a procurar rotas mais confiáveis e economicamente eficientes para o transporte de produtos agroquímicos. Os corredores logísticos tradicionais, como os portos do Báltico e as rotas pelos mares Negro e de Azov, vêm sendo gradualmente diversificados.
Nesse novo contexto, os portos do Extremo Oriente da Rússia ganham importância estratégica. Sua capacidade operacional está sendo continuamente ampliada, proporcionando novas oportunidades para a exportação de fertilizantes potássicos e nitrogenados para os países da região Ásia-Pacífico, incluindo China, Índia e as nações do Sudeste Asiático.
No âmbito do BRICS, estão sendo discutidas iniciativas voltadas para a criação de plataformas logísticas conjuntas que visam padronizar as cadeias de suprimento, simplificar os procedimentos aduaneiros e proporcionar maior transparência na formação de preços. A proposta em perspectiva prevê a criação de um espaço comum de transporte e logística entre os países membros, com regras harmonizadas para a movimentação de cargas, seguros e sistemas de rastreamento de remessas.
O desenvolvimento dessas rotas e soluções de infraestrutura deverá não apenas aumentar a confiabilidade do comércio de fertilizantes entre os países do grupo, mas também reforçar o papel do BRICS na promoção da estabilidade alimentar no Sul Global, reduzindo os riscos de interrupções no fornecimento de insumos essenciais para o setor agrícola das nações em desenvolvimento.
Perspectivas para o desenvolvimento das cadeias de suprimento
Especialistas indicam que, para aproveitar plenamente o potencial do mercado de fertilizantes entre os países da associação, será necessário superar as barreiras comerciais existentes. Desde 2024, por exemplo, os grupos de trabalho do BRICS têm discutido medidas como a liberalização do comércio, a harmonização de normas, o reconhecimento mútuo de certificados de qualidade e até mesmo a eliminação de tarifas de importação sobre fertilizantes entre os países participantes.
“O comércio de fertilizantes entre os países do BRICS apresenta uma trajetória de forte expansão e tende a se ampliar ainda mais, criando novas oportunidades, especialmente para pequenas e médias empresas.”
– Guillermo Rocafort Pérez, especialista em economia e relações internacionais
Todas essas iniciativas podem ajudar a garantir um fornecimento regular de fertilizantes aos países participantes e fortalecer a segurança alimentar no Sul Global. Especialistas defendem que, além do aumento do comércio entre nações do BRICS, é fundamental estabelecer empreendimentos conjuntos para a produção de fertilizantes no Brasil, na Índia e em países africanos, a fim de reduzir os custos logísticos. Outro fator que pode impulsionar esse mercado é a ampliação das transações em moedas nacionais, em conjunto com a criação de uma bolsa de grãos e commodities do BRICS.







