Rússia surpreende no BRICS com proposta ousada para transição energética

A Rússia apresentou, durante o debate energético do BRICS, uma posição a favor de uma transição climática fundamentada no conceito de “escolha tecnológica racional”, modelo que preserva os hidrocarbonetos como fonte relevante enquanto amplia o uso de renováveis, biocombustíveis e tecnologias de baixa emissão.

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A proposta foi detalhada por Aleksei Kulapin, diretor-geral da Agência de Energia da Rússia, vinculada ao Ministério da Energia do país, em entrevista ao programa “BRICSdiálogo”, da TV BRICS, conforme conteúdo veiculado pelo veículo.

O argumento central do especialista combina custo, tecnologia e segurança energética, já que a meta de neutralidade total de carbono no planeta até 2050 demandaria, segundo ele, investimentos anuais estimados entre US$ 7 trilhões e US$ 8 trilhões.

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Além do volume financeiro, Kulapin afirmou que o cenário de “zero líquido” dependeria de soluções que ainda não estão disponíveis em escala comercial, o que reforça a defesa russa por uma transição gradual, apoiada em diferentes fontes e trajetórias nacionais.

Em 2024, a Agência de Energia da Rússia apresentou três cenários para o setor energético mundial, denominados “tudo como antes”, “escolha tecnológica racional” e “zero líquido”, cada um com implicações distintas para investimentos e matriz energética.

Na avaliação de Kulapin, o segundo caminho seria o mais viável porque combina segurança de abastecimento, expansão de fontes renováveis e manutenção de combustíveis ainda essenciais para países produtores, consumidores e economias em desenvolvimento.

“O mais sensato é o cenário com o nome bastante sugestivo de ‘escolha tecnológica racional’, no qual os hidrocarbonetos permanecem como fonte-chave de energia”, afirmou Kulapin.

Na mesma análise, o diretor-geral da agência russa disse que a participação das renováveis tende a crescer de forma lógica e natural, sem exigir a eliminação imediata de fontes que ainda sustentam grande parte da economia global.

Esse posicionamento se insere em uma disputa mais ampla da agenda climática internacional, marcada pela pressão por cortes acelerados de emissões e, ao mesmo tempo, pela preocupação de economias emergentes com custo, acesso à energia e segurança de abastecimento.

Entre os países do BRICS, os compromissos de neutralidade climática seguem calendários distintos, o que fortalece a tese russa de que a transição energética não deve obedecer a um único modelo imposto a realidades econômicas diferentes.

Brasil e África do Sul trabalham com a meta de 2050, enquanto Rússia e China miram 2060; Irã e Egito, segundo Kulapin, orientam suas políticas para um horizonte mais longo, até 2100, após adesão ao Acordo de Paris.

A diferença entre esses prazos ajuda a explicar a defesa de uma transição com neutralidade tecnológica, na qual cada país escolhe as soluções mais adequadas à sua matriz, às reservas naturais, ao nível de industrialização e à capacidade de investimento disponível.

Também pesa nesse debate o comunicado da 10ª Reunião de Ministros de Energia do BRICS, realizada sob presidência do Brasil, que reconheceu o papel dos combustíveis fósseis na matriz mundial.

No mesmo documento, os países defenderam responsabilidades comuns porém diferenciadas, respeito às circunstâncias nacionais e liberdade tecnológica, princípios que sustentam a convivência entre renováveis, bioenergia, energia nuclear, hidrogênio de baixa emissão e remoção de carbono.

Ao tratar dos caminhos possíveis para a transição, Kulapin citou combustíveis de transição como gás natural e biocombustíveis, além de outras rotas de baixa emissão ou neutras em carbono que podem atender diferentes necessidades nacionais.

Para o diretor-geral da Agência de Energia da Rússia, a prioridade deve ser garantir “acesso igualitário a todos os tipos de tecnologia”, sem obrigar os integrantes do BRICS a adotarem uma solução única para alcançar metas climáticas.

Essa leitura encontra respaldo no comunicado ministerial de 2025, que defende o direito dos Estados de definir ritmo, combinação de fontes e instrumentos de suas transições energéticas, conforme disponibilidade tecnológica e condições econômicas internas.

No campo prático, Kulapin afirmou que projetos conjuntos de investimento estão em andamento no diálogo energético do BRICS, com cooperação ativa da Rússia com Índia e China em infraestrutura, especialmente no transporte de recursos energéticos.

Além dessa frente, ele mencionou iniciativas ligadas à construção de usinas nucleares e ao aproveitamento de outras fontes consideradas limpas, dentro de uma agenda que busca conciliar expansão energética, segurança de abastecimento e redução de emissões.

Outro ponto defendido por Moscou é a aproximação regulatória por meio de padrões voluntários em extração, refino e petroquímica, já aplicados por empresas russas e apresentados como referência para possíveis projetos conjuntos no BRICS.

Segundo Kulapin, a adoção desses padrões por parceiros do bloco poderia facilitar a replicação de iniciativas bem-sucedidas em diferentes contextos, criando princípios comuns sem eliminar as particularidades técnicas e regulatórias de cada país.

Criada em 2019 por iniciativa russa, a Plataforma de Pesquisas Energéticas do BRICS mantém seu secretariado na Agência de Energia da Rússia e reúne especialistas de universidades, empresas do setor e instituições acadêmicas.

Somente no lado russo, segundo Kulapin, a iniciativa envolve mais de 100 profissionais, responsáveis por panoramas energéticos dos países-membros, estudos temáticos e frentes ligadas à cooperação tecnológica e ao desenvolvimento de capital humano.

O comunicado ministerial de 2025 também reconheceu o papel da plataforma, ao prever a ampliação de pesquisas, mecanismos de cooperação prática e iniciativas capazes de aproximar políticas energéticas entre os integrantes do grupo.

Vinculada a essa agenda, a Agência Internacional de Energia Jovem do BRICS reúne especialistas em início de carreira para elaborar projeções anuais sobre o desenvolvimento da energia mundial, dentro de uma estratégia de formação técnica voltada ao bloco.

O grupo também mantém um campeonato de engenharia para jovens, no qual participantes dos países-membros apresentam projetos, trocam experiências e discutem soluções aplicáveis a diferentes segmentos da cadeia energética.

Em outra frente, há iniciativas voltadas ao desenvolvimento da liderança feminina no setor energético dos países do BRICS, tema proposto pela África do Sul e apoiado pela Rússia no âmbito da cooperação entre os membros.

Com essa agenda, Moscou tenta transformar divergências sobre custos, prazos e tecnologias em uma pauta comum dentro do BRICS, aproximando segurança energética, metas climáticas e interesses nacionais em uma mesma discussão.

Até que ponto o bloco conseguirá conciliar transição energética, desenvolvimento econômico e redução global de emissões sem impor aos países emergentes um custo considerado inviável?

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